Um novo estudo publicado na revista científica AIDS revela um achado com potencial transformador para a prevenção do HIV em escala global: o MK-8527, um antirretroviral experimental de uso oral mensal para profilaxia pré-exposição (PrEP), poderia ser produzido por apenas US$ 4,49 por pessoa ao ano em versões genéricas destinadas a países de baixa e média renda.
O artigo completo, intitulado “The estimated cost of MK-8527 produced at scale for once-monthly oral HIV pre-exposure prophylaxis (PrEP) in low- and middle-income countries”, foi conduzido por Samuel Cross, Jacob Levi, Francois Venter e Andrew Hill, pesquisadores reconhecidos na área de economia da saúde e acesso a medicamentos.
O que é o MK-8527?
O MK-8527 é um novo antirretroviral em desenvolvimento pela Merck para prevenção do HIV. Diferentemente da PrEP oral atualmente utilizada, que exige administração diária, o medicamento foi desenvolvido para uso apenas uma vez por mês, o que pode representar um avanço importante em adesão ao tratamento, autonomia e ampliação do acesso à prevenção.
Caso os resultados clínicos sejam confirmados, especialistas avaliam que o MK-8527 poderá transformar as estratégias globais de prevenção ao HIV, especialmente em regiões de alta incidência e em sistemas públicos de saúde que enfrentam desafios de financiamento.
Produção genérica extremamente barata
Para estimar os custos de fabricação, os pesquisadores analisaram dados internacionais de exportação do ingrediente farmacêutico ativo (IFA/API) do MK-8527 destinados à Índia entre 2020 e 2025. A partir dessas informações, aplicaram modelos de precificação “cost-plus”, metodologia amplamente utilizada para estimar custos reais de produção de medicamentos genéricos.
O resultado mostrou que o custo estimado de produção em larga escala pode variar entre US$ 4,46 e US$ 24,91 por pessoa ao ano, dependendo do preço do ingrediente farmacêutico ativo. O valor central estimado foi de US$ 4,49 anuais.
Segundo o artigo, esses números estão muito abaixo dos limites considerados custo-efetivos para programas de PrEP em países de baixa e média renda, incluindo contextos de alta incidência de HIV na África Subsaariana e em outras regiões do Sul Global.
Patentes podem ser principal barreira ao acesso
Embora os resultados indiquem que o medicamento pode ser produzido a baixo custo, os autores alertam que o principal obstáculo para o acesso global não será tecnológico nem produtivo, mas político e comercial. Patentes farmacêuticas, monopólios e acordos de licenciamento serão fatores decisivos para determinar quem terá acesso ao medicamento e em quais condições.
A publicação também defende a adoção precoce de licenças voluntárias para permitir a entrada rápida de fabricantes genéricos, evitando atrasos históricos observados em outros medicamentos estratégicos para o HIV.
O debate é especialmente relevante para países como o Brasil, que possui um sistema público de saúde universal, experiência consolidada na resposta ao HIV e capacidade produtiva relevante por meio de laboratórios públicos. Ainda assim, o acesso a novas tecnologias em saúde frequentemente é condicionado por barreiras de propriedade intelectual e altos preços impostos pela indústria farmacêutica.
“A história do acesso a medicamentos mostra que inovação científica não garante, por si só, acesso universal”, afirma Susana van der Ploeg, coordenadora do Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual — GTPI.
No caso do MK-8527, o desafio central será garantir que interesses comerciais não impeçam a chegada rápida e acessível da tecnologia aos países que mais precisam dela.
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