O Estado de S. Paulo

Levaram um ano e oito meses as negociações sobre o preço com que a droga Avastin chegará ao mercado brasileiro, num processo que normalmente duraria 90 dias. Mas, finalmente, a partir de abril, os pacientes não precisarão mais importar o bevacizumabe, nome comercial do medicamento da nova geração para o tratamento do câncer de colo-retal (quarto de maior incidência no País).

Aprovado em maio de 2005 para ser vendido no Brasil, só agora a Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), órgão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), estabeleceu os preços do remédio: R$ 4.217,05 para a ampola de 400 mg e R$ 1.089,14 para a de 100 mg.

Esses valores foram estabelecidos a partir da consulta nos países em que o Avastin tem aprovação. O resultado igualou os preços aos de Itália e Suíça, por exemplo, os mais baixos do mundo.

Hoje, o Avastin só pode ser comprado nas importadoras e pode custar mais de R$ 10 mil.A previsão de que estará nas farmácias brasileiras em abril é do fabricante, o laboratório Roche.

A demora na liberação do preço do Avastin é explicada pela Roche como um problema de classificação do medicamento no Brasil. “O que tornou esse caso demorado foi nossa compreensão diferente da dos técnicos da CMED”, diz João Carlos Ferreira, diretor de Operações Comercias do laboratório. Ele explica que o preço que chegou a ser definido, cerca de R$ 300, não cobriria os custos da produção e importação da droga. “O que faltava era uma evidência científica, dentro dos padrões da legislação nacional, que autorizasse esse preço.”

O prazo para a fixação de preço desse tipo de medicamento não pode ultrapassar 90 dias. O diretor-executivo da CMED, Luis Milton Veloso Costa, explica que, na verdade, esse período não foi excedido, porque a cada pedido de revisão, feito pela empresa, ou de complementação de documentos, pela CMED, o prazo era interrompido e retomado dali.

TUMOR CERCADO

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), 25 mil novos casos câncer de colo-retal ocorreram no Brasil em 2006. O bevacizumabe é apontado por especialistas como um grande avanço no combate a esse tipo de tumor.

A droga, um anticorpo monoclonal, é administrada em pacientes com tumores em estágio avançado que necessitam de quimioterapia. Ela age sobre uma proteína chamada VEGF, inibindo a formação de vasos sanguíneos responsáveis pela nutrição e oxigenação do tumor, processo chamado de angiogênese. O resultado é a morte dessas células, por falta de nutrição.

Para os especialistas, esse é um medicamento inovador com resultados promissores. Aprovado em pelo menos 50 países, ele prolonga a sobrevida dos pacientes em aproximadamente cinco meses. “Nenhuma célula cancerosa sobrevive se estiver a uma distância maior de 2 milímetros de um vaso sanguíneo”, explica o oncologista Paulo Hoff, do Hospital Sírio-Libanês. Ele é um dos autores de uma pesquisa internacional com pacientes que tiveram diferentes tumores removidos e se submetem ao tratamento com Avastin para evitar o reaparecimento da doença.

Nos Estados Unidos e em vários países da Europa, o medicamento já é aprovada para o tratamento de outros tumores, como câncer de pulmão.

“É muito provável que o tratamento da maior parte dos tumores tenha algum tipo de benefício”, diz Hoff. “É uma droga tão inovadora que já existem outras em estudo que seguem o mesmo paradigma.”

A oncologista Angelita Gama reconhece o avanço mas faz uma ressalva. “Os médicos devem receitar apenas quando houver todas as indicações, para evitar gastos desnecessários”, diz.

NÚMEROS

R$ 4.217 é quanto
irá custar o medicamento, com ampola de 400 miligramas

R$ 1.089 será o
preço mais barato do Avastin, para a ampola de 100 mg

R$ 10 mil
é o valor que alguns pacientes chegam a pagar pela droga
obtida nas importadoras

60 dias
é o tempo que pode demorar para que o paciente receba a droga, judicialmente, do Estado.

No Estado, espera pode chegar a mais de dois meses

O Estado de S. Paulo – 05/01/2007

Há pouco mais de três anos, a estudante de Química Suzane Yumi Inoue, de 24 anos, luta para ter um vida normal. Com apenas 21 anos recebeu o diagnóstico de câncer de colo-retal. Desde então, sua rotina se divide entre a faculdade e os tratamentos médicos. Em 2005, após ter feito o que parecia ser um tratamento bem-sucedido, o tumor reapareceu. Hoje, ela faz quimioterapia oral e espera a chegada do Avastin para derrotar o tumor.

Em dezembro, sua advogada conseguiu uma liminar exigindo que o Estado forneça o remédio, que ainda hoje precisa ser importado, gratuitamente. No próximo mês ela deve começar a usar a droga. Filha de agricultores, em São Roque, interior do Estado, o preço dos medicamentos é um obstáculo a mais. “Tive de entrar na Justiça pois não tenho nenhuma condição de pagar”, diz.

O caso de Suzane não é uma exceção. Sua advogada, Renata Vilhena, revela que desde 2004 atende todas as semanas pacientes em busca do medicamento. “Hoje tenho mais de cem casos para o Avastin”, diz. Ela explica que as ações movidas contra os planos de saúde costumam ser resolvidas mais rapidamente. “Mas contra o Estado é mais complicado e burocrático. Pode demorar entre 60 e 90 dias”, afirma.

Essa é a situação do médico Fernando Gomes de Mello, de 65 anos, denunciada pelo Estado no sábado. Desde 2001 ele luta contra um câncer de pulmão e desde 12 de dezembro aguarda uma definição da secretaria para receber o medicamento. Hoje ele deve tomar a sexta dose do remédio, de um total de 24 aplicações, graças a uma doação de uma pessoa que não quis se identificar. 

Fonte:
http://www.febrafarma.org.br/divisoes.php?area=co&secao=visualiza&modulo=clipping&id=6677
Consultado em 22/02/2007