Por: Rubem Azevedo Lima

Correio Braziliense

O governo brasileiro exagerou em princípios da política mundial e pôs o Itamaraty à beira de um ataque de nervos. Foi o que o Brasil fez nas relações com a Bolívia e o governo desse país, chefiado por um espécime autêntico do Lula eleito pelos brasileiros em 2002, que desapropriou as refinarias da Petrobras ali sediadas. O criador falou em levar a criatura à Justiça internacional por esse ato.

Claro, negócios são negócios, mas tais desavenças não poderiam ter surgido em hora pior para o Brasil. Enquanto a Petrobras chora as perdas, o próprio governo Lula, em rompante do ministro da Saúde, ameaça quebrar a patente de laboratórios estrangeiros, para usar, na marra, seus produtos no combate ao que os brasileiros chamam de Aids e o mundo lusófono de Sida, Síndrome Imunológica de Deficiência Adquirida.

Atitude igual foi tomada no governo FHC, quando o ministro da Saúde era o atual governador José Serra, de São Paulo. Por motivos ignorados, tal quebra da patente acabou de outro modo e o mundo até aprovou a postura brasileira. O que não havia, então, era o caso da Bolívia.

Pois é. Voltaire considerou o amigo Frederico II, imperador da Prússia, autor de O Anti-Maquiavel, um governante perfeito, por não admitir, nessa obra, simulações e dissimulações nas relações políticas internacionais.

Sem falar da economia, Frederico II levou seu país às culminâncias da cultura universal, mas se afastou de sua histórica aliada, a Áustria, quando, já morto Voltaire, isso lhe conveio. Não se trata, em absoluto, de sugestão para Lula nem para Morales. Nem é, diga-se, em tempo, aceitação de golpes baixos e falsidades políticas. É simples mostra de quem age, ou não, com coerência.

Dados os leilões da Amazônia e as incongruências sobre emprego e previdência social, a estrela do PT parece nortear tragédias. Bancários do Banco do Brasil revelam plano para demitir milhares de colegas. O ministro Marinho quer cortar pensões de pensionistas para salvar a Previdência.

Antes das eleições, dizia-se que só a oposição, se vencesse, teria tal agenda. Mas Lula cooptou oposicionistas, faz o que quer, para o bem ou para o mal, com a força trágica da mais brasileira das comédias: a política sem caráter.