O Estado de S. Paulo

Em uma atitude surpreendente na Organização Mundial da Saúde (OMS), os Estados Unidos abandonaram a negociação sobre uma proposta brasileira para que a agência de saúde da ONU crie uma estratégia para garantir o acesso livre a remédios para a aids.

No início da semana passada, o Brasil apresentou um projeto pedindo que a OMS monte tal estratégia até 2008 e ofereça apoio aos países que optem por quebrar patentes. O projeto ainda pedia mecanismos de financiamento à pesquisa em nações em desenvolvimento.

A proposta ganhou o apoio de países da Ásia, América Latina, África e até do Vaticano. A oposição vinha dos países ricos. Na segunda-feira, ficou claro que americanos, europeus e japoneses atacariam o projeto e que um consenso seria difícil.

O Itamaraty abrandou os termos e retirou pontos delicados para ganhar o apoio dos países ricos, como detalhes sobre o direito dos países de quebrarem patentes. Mesmo assim, a manutenção da proposta de que a OMS ajude no processo de quebra de patentes irritou os EUA. Na noite de ontem, a delegação americana abandonou a sala de reuniões, provocando mal-estar e espanto.Para diplomatas, a atitude é uma estratégia para mostrar que, se aprovada, a resolução não será legítima sem a adesão total.

Irritados também estavam representantes dos laboratórios. "O Brasil não sabe o que quer. Enquanto ministros da área econômica pedem investimentos, o setor de saúde toma atitudes como quebra de patentes", disse Harvey Bale,da Federação Internacional das Indústrias Farmacêuticas.