Valor Econômico
De São Paulo
À frente da Novartis desde 1996, Daniel Vasella explica, em entrevista ao Valor, seu ponto de vista em relação a decisões recentes do governo brasileiro que afetam a indústria farmacêutica:
Valor: Como o Sr. avalia o uso por parte do governo brasileiro do licenciamento compulsório?
Daniel Vasella: O acordo Trips permite que os países possam em caso de emergência nacional usar o licenciamento, mas é importante que o façam de modo circunspecto porque isto pode ser visto como padrão de violação ou de interesse econômico. Isto mina a credibilidade do país e o local para investimento. A inovação é absolutamente crucial para qualquer país ter sucesso econômico. Não existe outra alternativa senão a patente para incentivar o investimento em pesquisas a longo prazo.
Valor: O Sr. diz que patentes podem salvar vidas…
Vasella: As patentes não podem, elas, de fato, salvam vidas. A mortalidade de doenças como câncer ou infarto cardíaco caiu 40% a 70% nos últimos 40 anos. Isso é resultado de bons medicamentos que não teríamos se não houvesse patente. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a maioria dos remédios não é protegida por patente, o que significa um enorme espaço para o avanço no tratamento de doenças. Se o objetivo é progredir em novos medicamentos genéricos, é preciso do sistema que incentive a inovação.
Valor: Por outro lado, alguns especialistas dizem que preços altos matam os pacientes.
Vasella: Na maioria dos países, os medicamentos representam 10%-25% dos gastos com Saúde. O resto são as despesas com serviços médicos, hospitais e de acompanhamento. Em muitos casos, ainda que os remédios sejam caros, eles economizam uma quantidade tremenda de custos. Quando as primeiras drogas contra aids surgiram, elas eram muito caras, mas poupavam uma grande quantidade de dinheiro. Hoje, os pacientes podem deixar o hospital e serem incorporados novamente aos postos de trabalho. Os remédios criam valor econômico à sociedade. É preciso um ponto de equilíbrio entre o incentivo para criação de valor e a limitação do preço. Mas ninguém tem uma só resposta correta para esse problema.
Valor: As compras públicas brasileiras de remédios terão um desconto obrigatório de 25% sobre os preços de fábrica. A Novartis contesta a medida na Justiça. Essa é uma boa parceria com o governo?
Vasella: Todos os acordos unilaterais são difíceis enquanto uma parte não concorda com a visão da outra. Prefiro um debate construtivo. Nós trazemos empregos para o Brasil, mas também queremos ganhar dinheiro. Nós importamos e exportamos. É uma parceria. Mas, em todos os países democráticos, existe um sistema de Justiça independente em que qualquer empresa privada pode usá-lo para reclamar aquilo que é certo ou errado. E é o juiz quem vai definir. (AV)