Gazeta Mercantil
São Paulo, A Shire Human Genetic Therapies (Shire HGT), braço de biotecnologia do grupo farmacêutico Shire, acaba de se instalar no Brasil e deverá investir cerca de US$ 20 milhões nos próximos anos para fincar bases aqui. No plano, além da colocação no mercado brasileiro de seus medicamentos voltados a tratamentos de doenças raras, está também a busca de oportunidades de outros negócios, disse Michael Sweeney, diretor da Shire HGT para a AméricaLatina e Ásia Pacífico.
Sweeney informou que a empresa tem um programa de licenciamento de drogas que poderá interessar o governo brasileiro, com o qual já está iniciando negociações. Sem adiantar detalhes, o executivo explicou que são cerca de cinco medicamentos em portfólio que a Shire não produz e apenas os licencia nos diversos mercados aonde atua. Entre eles, estão o Interferon do tipo alpha e beta, utilizados em tratamentos de hepatites virais, HIV e esclerose múltipla, que a companhia acredita que podem vir a ser licenciados para produção em laboratórios públicos do País.
A farmacêutica também estuda as linhas de crédito do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) destinadas à área de biotecnologia. "Se houver oportunidade e um momento favorável para a produção local, temos interesse em estabelecer uma unidade no País", afirmou o executivo, que esteve no Brasil semana passada para a inauguração da subsidiária, sediada em São Paulo. Aquisição de empresas,
produtos e desenvolvimento conjunto de pesquisas de novas drogas também devem ser prospectados pela farmacêutica no Brasil. "A Shire cresceu fazendo aquisições e elas não se restringem somente aos EUA e Europa. Foram sete compras nos últimos dez anos e se tiver algum negócio aqui que se encaixe no perfil da empresa, vamos tentar concretizá-lo", afirmou Sweeney, observando que o Brasil está no foco de interesse do laboratório.
"Vimos uma transformação consistente no Brasil nos últimos 100 anos. Em alguns lugares o chamam de País em desenvolvimento, mas em outros já é visto como parte do primeiro mundo, em termos de tecnologia, de profissionais e do potencial maior de crescimento que tem em relação a outros mercados", observou Sweeney, um irlandês que vive há mais de 20 anos nos Estados Unidos e que antes da Shire trabalhava na concorrente norte-americana Genzyme Corporation, a primeira empresa de biotecnologia a se instalar no Brasil, há 10 anos, e com a qual agora também vai disputar o mercado local.
Da Genzyme saiu também Roberto Marques, que comanda as operações brasileiras da Shire. Conforme o executivo, boa parte dos investimentos aqui, cujo valor total ainda está em estudo, será direcionada para diagnosticar pacientes. As doenças raras, genéticas, são muitas vezes de identificação difícil até para médicos e as empresas investem muito até em formação de profissionais para conseguir identificar pacientes.
Segundo Sweeney, a presença da Shire no Brasil é uma alternativa para médicos, pacientes e governos. A empresa, disse, é a única do mundo que produz a Elaprase, terapia para a Mucopolissacaridose tipo II (MPSII), ou Síndrome de Hunter, provocada pela deficiência de uma enzima e que se manifesta por alterações faciais, maior volume da cabeça e do abdômen, entre outros problemas sérios, como comprometimento das válvulas do coração, que podem levar à morte. O remédio, aguardando registro da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), deverá chegar ao mercado no próximo ano. Em setembro próximo, a Shire entrará na Anvisa com pedido de registro para Replagal, indicado para doença de Fabry, também genética.
A Shire tem fábricas e sedes nos Estados Unidos e na Inglaterra. Em 2006, faturou US$ 1,79 bilhão e investiu US$ 389,9 milhões em pesquisa e desenvolvimento. Sua estratégia de crescimento global contempla uma subsidiária no México, em 2008.