Por: Melina Costa

Exame

Por décadas, a indústria farmacêutica nacional se manteve imersa numa notória insignificância. As empresas do setor dedicavam seus dias a elaborar e vender cópias baratas e, às vezes, não muito confiáveis de remédios desenvolvidos pelas multinacionais. Como poucos médicos recomendavam esses medicamentos, as companhias tinham presença irrisória no mercado. A única exceção era o laboratório paulista Aché, que brilhava solitário entre os grandes. Esse jogo mudou há pouco mais de sete anos, quando entrou em vigor a Lei dos Genéricos. Como o governo adotou padrões rígidos para aprovar os genéricos, as cópias produzidas pelos laboratórios nacionais se tornaram mais confiáveis, o que deu fôlego às vendas e iniciou o período de ouro da indústria local.

Empresas como EMS, Medley e Eurofarma cresceram a taxas superiores a 20% ao ano, e sua participação de mercado dobrou, deixando várias multinacionais para trás. Segundo a IMS Health, empresa que audita as vendas de medicamentos em farmácias, hoje três dos cinco maiores laboratórios do país são brasileiros. No mesmo período de 2003, apenas o Aché figurava entre os líderes. Os números comprovam que a indústria brasileira vive o melhor momento de sua história — a má notícia é que a farra acabou.

O principal motivo para isso é o esgotamento do modelo de crescimento acelerado proporcionado pela venda de medicamentos genéricos. Em 1999, quando foi criado esse mercado, havia um número incrível de remédios sem patente e liberados para cópia, o que criou imediatamente um filão gigantesco para os laboratórios nacionais: desde então, mais de 1 600 genéricos entraram em circulação. Tamanha expansão cobrou seu preço. Quase todos os produtos livres de proteção intelectual já foram copiados e, a partir de agora, os laboratórios nacionais precisarão esperar o vencimento da patente de cada nova droga (que tem validade média de dez anos) para poder reproduzi-las. Segundo levantamentos realizados pelos laboratórios, restaram apenas 96 medicamentos passíveis de se tornar genéricos no Brasil. E esses são justamente os produtos menos rentáveis. De acordo com os fabricantes, cada uma dessas drogas rende cerca de 18 milhões de dólares por ano alguns dos medicamentos que já foram copiados faturam até 200 milhões de dólares.

NESSE NOVO CENÁRIO, o pêndulo volta a oscilar para o lado dos grupos internacionais que optaram por não surfar a onda dos genéricos. Sabíamos que esse era um mercado com limites para o crescimento, já que não cria nenhum produto novo, diz Oscar Frenczi, presidente da subsidiária brasilieira do Merck Sharp & Dome. Passada a euforia, volta a se fortalecer o ciclo que rege o mercado farmacêutico, que começa na pesquisa e termina em drogas exploradas com exclusividade por dez anos. Como se sabe, nesse quesito os estrangeiros são imbatíveis.

Hoje, três dos cinco maiores laboratórios do país são nacionais. Antes, o Aché era o único.

O avanço das brasileiras

A evolução do faturamento dos três maiores laboratórios do país (em reais).

ACHÉ
2003 – 767 milhões
2006 – 1,7 bilhão

EMS
2003 – 527 milhões
2006 – 1,3 bilhão

MEDLEY
2003 – 307 milhões
2006 – 600 milhões

Somente no ano passado, a americana Pfizer investiu 7,6 bilhões de dólares no desenvolvimento de novos remédios. Assim, o futuro das empresas nacionais volta a depender, paradoxalmente, do sucesso das novas drogas lançadas pelos próprios concorrentes. É inegável, porém, que os laboratórios nacionais entram fortalecidos nesse novo ciclo. A pujança dos genéricos revitalizou a indústria, que passou por um amplo processo de modernização. Todos os grandes investiram em fábricas novas. Só a EMS colocou 200 milhões de reais em uma das linhas de produção, localizada em Hortolândia, no interior de São Paulo. E o amplo domínio do mercado de genéricos garantiu às brasileiras um mercado cativo de aproximadamente 2,7 bilhões de reais por ano.

O cenário de desaceleração do crescimento já está transformando a estratégia dos laboratórios brasileiros. Para manter o atual ritmo de expansão, as empresas precisarão investir em novas frentes. Uma delas é a internacionalização. A nova fábrica da Eurofarma, em Itapeví, no interior de São Paulo, servirá como plataforma de exportação. A meta da empresa é cobrir 90% do mercado farmacêutico da América Latina até 2015. A outra estratégia é entrar no difícil e caro terreno do investimento em novos medicamentos.

Os laboratórios Aché e Eurofarma já atuam de duas formas nesse mercado: com o licenciamento de produtos de laboratórios estrangeiros sem representação no Brasil ecom a pesquisa de novas drogas. Seguindo o modelo tradicional do mercado americano, o Aché firmou recentemente uma perceria com a Universidade de Campinas-SP e pretende lançar medicamentos próprios em cinco anos. O ambiente está ficando cada vez mais copetitivo, diz Maurizio Billi, presidente da Eurofarma. E nesse cenário, não queremos viver só de genérico.