Queda de preço de medicamentos é notícia sem desfecho
A notícia de que o Governo Federal isentou o pagamento de PIS/Cofins de 72 substâncias (vendidas em 300 apresentações) cujos preços poderiam sofrer redução de 11% foi matéria em jornais de norte a sul do País, porém, o destaque não foi o mesmo. Enquanto o Estado de São Paulo se limitou a uma pequena nota, o Estado de Minas não só publicou a notícia como ainda divulgou uma pesquisa do site Mercado Mineiro, que mostrava a variação de preços de medicamentos em até 102% nas farmácias de Belo Horizonte. O Estado de Minas foi, também, o único jornal a apresentar o ponto de vista de um representante da sociedade civil, no caso, Antônio Barbosa, do Instituto de Defesa dos Usuários de Medicamento (Idum). Os outros jornais se limitaram a informar sobre o processo que culminaria na redução de preços. Apesar da importância do decreto, que pode baixar o preço no mercado de medicamentos essenciais para a população, a imprensa não acompanhou o processo e não há registros de que a medida tenha alterado na prática o preço desses medicamentos para o consumidor.

Matéria-prima: enfoque diferente
Após longo silêncio, a grande imprensa voltou a destacar questões relacionadas à produção de medicamentos e outros produtos que dependem do setor industrial de química fina. Enquanto o jornal O Globo publicou a matéria “Empresa com certificado vencido na Anvisa abastece a Farmanguinhos”, a Gazeta Mercantil publicou: “Déficit do setor de química fina fica em US$ 4,3 bilhões”.

Segundo a matéria publicada pelo O Globo, o governo brasileiro privilegiava a compra de matéria prima nacional em detrimento de empresas estrangeiras que poderiam nos vender os mesmos produtos, mas com preços menores. Em um box de opinião colado à matéria, cujo título foi “Mau Sinal”, o jornal cobrou de Farmanguinhos explicações sobre o custo e encerrou: “Há na Fiocruz uma preocupação de privilegiar fornecedores nacionais. Esse tipo de protecionismo e de reserva de mercado já patrocinou muitos negócios obscuros”.

Sem fazer menção aos questionamentos levantados pelo O Globo, cerca de duas semanas depois a Gazeta Mercantil publicou a matéria “Déficit do setor de química fina fica em US$ 4,3 bilhões”, onde atentava para as negociações sobre novas regras para o setor com os novos ministros do governo Lula. Segundo a Gazeta, o término dessas negociações, especialmente sobre a Lei de Licitações e a redução do tempo de análise de patentes no país, permitiria que as indústrias nacionais entrassem com maior competitividade em licitações, trazendo uma fatia da verba governamental destinada a aquisição de fármacos e medicamentos.

Apesar do trabalho realizado por diferentes organizações da sociedade civil no tema, nenhuma delas foi consultada, assim como químicos e farmacêuticos, que poderiam dar informações técnicas a respeito da capacidade nacional de produção e a qualidade dos produtos importados. O que chama mais atenção, porém, é o fato de que em nenhum momento foi abordada a influência dessas questões no acesso a medicamentos no Brasil, aspecto crucial que deveria nortear as reportagens. O viés econômico e político foram preponderantes nas matérias.

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