Brasil quebra patente de remédio antiAids
Decreto assinado por Lula permite importação da Índia. Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou ontem ato determinando a quebra de patente do medicamento Efavirenz, utilizado no tratamento contra a Aids. O medicamento é produzido pelo laboratório Merck Sharp & Dohme. O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, explicou, durante a solenidade de assinatura do ato, o processo de quebra de patente. Ele informou que recebeu telefonemas da embaixada dos Estados Unidos, em Brasília, e do laboratório Merck para conversar sobre o assunto. Em parecer encaminhado ao Palácio do Planalto, Temporão informou que a mesma pílula do remédio vendida no mercado nacional por US$ 1,56 sai por US$ 0,65 na Tailândia. Ao assinar o decreto que quebra a patente do Efavirenz, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que outros medicamentos, no futuro, podem ter o licenciamento compulsório (quebra de patentes), caso os preços não estejam dentro da realidade brasileira. “Não é possível alguém ficar rico com a desgraça dos outros”, afirmou o presidente, sob aplausos de funcionários do Ministério da Saúde e pacientes. “Entre o nosso comércio e a nossa saúde, vamos cuidar da nossa saúde.” Lula relatou que nas conversas que teve com o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, pediu que fossem ouvidos a Advocacia Geral da União e o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que cuida dos interesses do País na Organização Mundial do Comércio. “Hoje vale para este remédio, amanhã vale para qualquer outro”, afirmou o presidente. No discurso, Lula reafirmou que pretende fazer no segundo mandato o que não foi possível fazer no primeiro. “Sessenta e um por cento do povo brasileiro me deu o segundo mandato para fazer o que não foi possível fazer no primeiro”, disse. “Não abriremos mão de cuidar do nosso povo e queremos cuidar dos nossos companheiros com Aids”, acrescentou. Contrariando a fala de Lula, o ministro José Gomes Temporão disse que a quebra de patente do anti-retroviral Efavirenz foi um “caso muito especial” e que no momento o governo não pensa em tomar a mesma medida em relação a outros remédios. Após a cerimônia, no Palácio do Planalto, Temporão disse que na conversa que teve com os embaixador dos Estados Unidos no Brasil explicou as razões para tomar essa decisão e se comprometeu a conversar com o presidente mundial do Laboratório Merck, fabricante do anti-retroviral, o que foi feito. Temporão avalia que o governo economizará US$ 30 milhões (cerca de R$ 60 milhões) por ano com a compra de versões genéricas do remédio junto a indústrias indianas. O medicamento, que é vendido pelo Merck por US$ 1,56, será comprado agora, segundo o ministro, por US$ 0,45. EUA dizem ter ficado desapontados Washington (AE) - O governo americano afirmou ontem estar “desapontado” com o fracasso das negociações entre o governo brasileiro e a Merck a respeito da patente do Efavirenz, remédio contra Aids do laboratório. O Escritório de Comércio dos Estados Unidos, que trata de questões de propriedade intelectual, contestou a medida. “Achamos que é do interesse de todos os nossos parceiros comerciais negociarem de forma enérgica com os detentores de patentes que podem ser afetados por medidas como essa”, respondeu a assessoria do escritório. “Estamos desapontados porque os esforços do Brasil e da empresa americana detentora da patente para chegar a um acordo aparentemente fracassaram.” A Câmara de Comércio dos Estados Unidos, entidade de classe que reúne mais de 3 milhões de empresas americanas, criticou a decisão do governo brasileiro de quebrar a patente do Efavirenz. “Apenas alguns dias depois de o Brasil ser reconhecido por uma melhor aplicação das leis de proteção à propriedade intelectual, vem essa quebra de patente - isto é um retrocesso”, disse o vice-presidente para relações internacionais da Câmara, Daniel W. Christman. “O Brasil está se esforçando para atrair investimentos em indústrias inovadoras, que se apóiam em propriedade intelectual, e essa atitude vai levar investidores a escolherem outros países.” Na segunda-feira, o Brasil foi retirado da lista de pirataria dos EUA, que adverte países que descumprem leis de proteção à propriedade intelectual e prevê retaliações. Ministro não crê em retaliação Brasília (ABr) - O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, não teme uma retaliação do laboratório norte-americano Merck Sharp & Dohme pelo fato de o Brasil ter decretado a quebra de patente do remédio Efavirenz. Na prática, com o licenciamento, o Brasil poderá comprar a versão genérica do medicamento (mais barata) ou produzi-lo. “Não acredito [em retaliação]. O Merck é um laboratório que está há décadas no Brasil, comercializa no mercado brasileiro vários produtos. Não tenho nenhum receio que possa haver algum tipo de interesse desse laboratório de se retirar de um mercado tão importante e que cresce ano a ano”, disse. Mesmo com o licenciamento, o governo brasileiro continuará a remunerar a empresa norte-americana, que detém a patente do Efavirenz, que faz parte do kit de medicamentos antiAids distribuído gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e usado no tratamento de 75 mil pessoas no Brasil. De acordo com Temporão, o laboratório receberá 1,5% dos recursos que serão gastos com a compra da versão mais barata. O Brasil passará a comprar o Efavirenz de três laboratórios indianos - Cipla, Ranbaxy e Aurobindo.