Por: Márcia Neri

Jornal de Brasília

Plantas e animais geneticamente modificados podem ser usados para a produção de vacinas e remédios

O uso e os benefícios da soja na alimentação humana não é novidade para os brasileiros. A boa notícia é que, em um futuro muito próximo, ela, outras plantas e alguns animais, poderão contribuir, também, para a produção de medicamentos importantes no tratamento de doenças como câncer, hepatite B e até Aids.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) tem feito pesquisas com organismos geneticamente modificados (transgênicos) nos laboratórios da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, em Brasília.

A idéia é ampliar formas e métodos eficientes de produção de drogas com custos mais reduzidos que os sistemas convencionais de produção e, portanto, mais acessível a população. O estudo lança também novas possibilidades para o setor de agronegócios.

O coordenador da pesquisa, Elíbio Rech, conta que medicamentos que estão sendo pesquisados para serem produzidos por meio da engenharia genética, feitos com organismos geneticamente modificados, são produzidos, atualmente, a partir de bactérias e células animais em cultura.

A insulina, a vacina contra a hepatite B, o hormônio do crescimento humano, o fator IX, que é usado em hemofílicos, são alguns exemplos. São medicamentos caros que poderão ser barateados, fazendo com que mais pessoas tenham acesso a eles.

"Na realidade, estamos testando o desenvolvimento de sistemas adicionais de produção que usam plantas e animais com o objetivo de baixar os custos e suprir uma demanda crescente, pois em poucos anos as bactérias e células animais não serão suficientes para atender a necessidade do mercado", explica Rech.

Existem várias etapas a ser seguidas antes que as plantas se transformem em matérias-prima para produzir vacinas e medicamentos. Inicialmente, é preciso dominar a rota tecnológica, saber onde e como produzir. Pegar uma semente comum e transformá-la em uma planta que produzindo fármacos de alto valor agregado, que possam ser usados na fabricação de medicamentos.

Processo
"A soja foi escolhida porque a Embrapa tem patentes de níveis mundiais para modificação genética desta planta, o que nos permite ter uma liberdade de operação com o produto", esclarece Rech.

O processo de transformação da planta começa com a introdução do gene na forma líquida, dentro da semente. Depois de germinada, é feita a avaliação e seleção das plantas que estão produzindo a substãncia de acordo com o que foi proposto pela pesquisa.

Essas plantas são cultivadas em estufas e são submetidas a vários testes. "Ultrapassamos essas fases e, no momento, estamos produzindo uma quantidade de sementes que nos possibilita purificar o medicamento e avaliar sua funcionalidade. Na ciência, temos que quantificar, comparar e demonstrar resultados com absoluta segurança", explica o coordenador da pesquisa.

Elíbio Recha explica que é preciso vencer várias etapas que juntam evidências da eficácia do novo produto para que, futuramente, ele possa ser produzido em larga escala e a um custo mais reduzido.

O pesquisador acredita que o domínio dessa tecnologia representa uma esperança para pessoas que sofrem de doenças graves. Estão sendo desenvolvidas plantas de soja com anticorpos contra o câncer de mama que vão auxiliar na prevenção e diagnóstico da doença, e também, com gene do hormônio de crescimento.

Custo será reduzido

A insulina e os anticorpos usados contra rejeição em cirurgias de transplantes também serão produzidas a partir de plantas e animais desenvolvidos por pesquisas da Embrapa. O vírus HIV também está na mira dos cientistas brasileiros. "Produzimos em parceria com o Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos um gel microbicida contra o HIV para ser usado em mulheres. Ele evita a replicação do vírus e protege da contaminação", conta Elíbio Rech.

No Brasil, a produção das plantas e criação de animais geneticamente modificados com a finalidade de extração de biofármacos ainda não chegou ao setor agrícola. Essa atividade é exclusiva dos laboratórios das instituições de pesquisa que desenvolvem os estudos, como Embrapa, Universidade de São Paulo, Unicamp e Universidade Federal de São Paulo, que é parceira nas pesquisa dos camundongos.

"É importante ressaltar que, concluídas as pesquisas, as sementes das plantas serão tratadas como medicamentos e produzidas em fazendas especiais extremamente seguras, com acesso restrito e controle de entrada e saída de pessoas. Elas não entrarão na cadeia alimentar. Logo, jamais poderão ser adquiridas em supermercados", garante o pesquisador.

Rech garante que, em relação a eficácia do que será produzido, não existe diferença entre os sistemas utilizados atualmente e os que estão em fase de teste. O produto final é exatamente o mesmo. Mas quando se fala em redução de custos e viabilidade econômica a história é outra.

No entanto, Elíbio Rech alerta que a escolha dos métodos e sistemas utilizados dependem de alguns fatores e é necessário analisar caso a caso. O microbicida que está sendo pesquisado contra o HIV é um bom exemplo.

"Para que ele seja usado na África, onde milhares de pessoas são infectadas diariamente pelo vírus, é fundamental que seja muito barato. E, para fazer um gel, precisamos de uma quantidade grande de proteínas. Então, a extração em plantas provavelmente será a melhor alternativa para os africanos, pois é muito mais barata", esclarece Rech.

No Brasil, as pesquisas estão avançadas. Mas, de acordo com o pesquisador, o País poderia estar em posição muito melhor. São necessários mais recursos para tocar os projetos e, segundo ele, uma gestão mais efetiva, eficiente e focada também seria bem-vinda.

"Para se ter uma idéia, quando somos comparados aos países emergentes, como a Coréia, verificamos que os valores investidos aqui em pesquisa, ciência e tecnologia são baixos. O poder do mundo hoje gira em torno do conhecimento, que só pode ser obtido e gerado por meio de estudo e pesquisa", conclui.

Benefícios para o agronegócio

Além da soja, a Embrapa também faz estudos com tabaco e camundongos transgênicos. A pesquisa com os animais está em fase adiantada. Os pesquisadores estão usando ratos para fazer os testes iniciais, mas o objetivo é desenvolver vacas transgênicas que produzam o Fator IX diretamente no leite.

Essa substância é a proteína responsável pela coagulação do sangue. Os hemofílicos não são capazes de produzi-la e, por isso, quando se ferem, têm velocidade de coagulação mais lenta e ficam extremamente suscetíveis a hemorragias.

"Atualmente os hemofílicos controlam a ausência desta proteína com medicamentos. Se nossas pesquisas derem certo, daqui a dez anos eles poderão contar com alternativas mais baratas, já que os produtos serão produzidos diretamente do leite dos animais com custos até 50 vezes menor", conta Rech.

O pesquisador afirma que a utilização de plantas e animais como biofábricas é uma plataforma tecnológica que poderá valorizar o agronegócio brasileiro e favorecer sua integração com o setor farmacêutico. "O tabaco é uma planta modelo para o uso na engenharia genética, pois em sua folha conseguimos produzir uma quantidade grande de biofármacos", garante Rech.

Além disso, a Região Sul do Brasil tem tradição na produção de tabaco. Atualmente ela é voltada paraa produção de fumo, mas a idéia é propor uma alternativa. "A região pode passar a produzir um tabaco que tenha biofármacos. Isso muda a característica do produto e dos produtores, inclusive em termos de ganhos", acrescenta Rech.