maio 2006

Polêmica entre Natura e Ver-o-peso expõe dilemas na proteção de conhecimentos tradicionais no Brasil

2017-01-10T17:18:25-03:00maio 25, 2006|Categories: Acervo|

Vendedoras de ervas do mercado Ver-o-peso, em Belém do Pará, acusam a empresa Natura de se apropriar de conhecimentos tradicionais para a fabricação de perfume. Na última terça-feira (23/5) a empresa divulgou carta justificando sua conduta conforme a legislação vigente. A polêmica revela a inadequação da legislação que protege os conhecimentos tradicionais e o longo caminho ainda a percorrer para a construção de uma relação entre o setor privado e comunidades tradicionais. A Natura do Brasil, empresa fabricante de cosméticos, está envolvida em uma polêmica com vendedoras de ervas do tradicional mercado Ver-o-peso, de Belém, no Pará. A empresa entrevistou seis ervateiras há dois anos sobre seus conhecimentos na manipulação de ervas que contém três essências aromáticas - a priprioca, o breu branco e o cumaru - e o material gravado em vídeo foi utilizado pela empresa para promoção de seus produtos, “justamente para valorizar a tradição da população do Norte”, nas palavras do vice-presidente de inovação da Natura, Eduardo Luppi. As vendedoras afirmam que foram pagas na ocasião pelo "uso da imagem", mas não pela cessão dos saberes. O Ver-o-peso, em Belém, é o mercado símbolo da diversidade amazônica... Em comunicado divulgado no último dia 23, a empresa afirma que não se aproveitou das vendedoras e que "o uso de conhecimento difuso, isto é, sem fonte determinada, não é regulado por lei no País. Além de discutível, a remuneração ao conhecimento tradicional difuso, da forma como o assunto é abordado pela legislação existente, pode trazer riscos ou inviabilizar iniciativas que busquem a promoção de negócios sustentáveis." A empresa esclarece ainda que as filmagens serviriam para vídeos institucionais e "não para ajudar a desenvolver a tecnologia de extração e formulação das fragrâncias". A Natura sustenta, portanto, que a legislação sobre acesso a conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade (Medida Provisória 2.186-16, de agosto de 2001) não se aplica ao caso. Mas esta interpretação está longe de encerrar a polêmica. O caso entre Natura e as vendedoras de ervas do Ver-o-peso está sendo analisado por uma comissão de bioética da Ordem dos Advogados do Brasil, seção paraense, e também pelo Ministério Público Federal e Estadual, no Pará. “Estamos com um procedimento administrativo aberto para apurar se a legislação foi cumprida ou não”, diz o procurador Alexandre Soares, do MPF. ...e abriga, além de produtos típicos como as garrafadas, festas e manifestações religiosas Isso porque a referida legislação exige a repartição dos benefícios, econômicos e não-econômicos, derivados do uso do conhecimento ou do recurso genético para fins de pesquisa científica, bioprospecção ou desenvolvimento tecnológico. Essa legislação deriva da obrigação internacional assumida pelo Brasil ao ratificar a Convenção sobre Diversidade Biológica das Nações Unidas (CDB), que reconhece a necessidade de se equilibrar a relação entre provedores e usuários de recursos genéticos (e conhecimentos associados). A legislação não prevê qualquer exceção referente à “conhecimento tradicional difuso” ou de “domínio público”. Portanto, a atividade realizada pela Natura estaria, em princípio, enquadrada sob o escopo da MP. A empresa estaria obrigada, assim, a obter autorização de acesso do Conselho de Gestão do Patrimônio Genético (Cgen) e estabelecer uma negociação de repartição de benefícios com as vendedoras de ervas, por meio de um contrato aprovado pelo conselho, colegiado governamental responsável por controlar o acesso a recursos genéticos e conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade brasileira e vem há mais de dois anos discutindo o conceito de acesso a conhecimento tradicional associado à biodiversidade. "Embora a empresa argumente que o desenvolvimento tecnológico independe do conhecimento tradicional acessado, essa circunstância não afasta a aplicação da MP, já que o objetivo do acesso ao conhecimento sobre as ervas foi desenvolver – ainda que através de técnicas próprias – um produto derivado da biodiversidade para o mercado", afirma Fernando Mathias, advogado do ISA especializado no tema. A Medida Provisória conceitua “acesso a conhecimento tradicional associado” como “obtenção de informação sobre conhecimento ou prática individual ou coletiva, associada ao patrimônio genético, de comunidade indígena ou de comunidade local, para fins de pesquisa científica, desenvolvimento tecnológico ou bioprospecção, visando sua aplicação industrial ou de outra natureza”. Valorização da biodiversidade O advogado Fernando Mathias, do ISA, lembra que o argumento de que qualquer conhecimento tradicional é de “domínio público” é recorrentemente utilizado por empresas menos preocupadas do que a Natura em valorizar a biodiversidade. “Estas corporações se utilizam de conhecimentos sobre o manejo de plantas e animais visando aplicá-los a processos de bioprospecção ou desenvolvimento tecnológico, com o objetivo de lançar produtos no mercado. O argumento foi utilizado por um laboratório recentemente, que se valeu dos conhecimentos tradicionais de comunidades caiçaras do litoral de São Paulo para o desenvolvimento de um medicamento antiinflamatório", exemplifica. “A reticência deste laboratório em se submeter ao Cgen chegou a render uma briga judicial, e o caso é reconhecido hoje como um exemplo de biopirataria nacional, na medida em que houve a apropriação de um conhecimento compartilhado coletivamente através de instrumentos de propriedade intelectual, as patentes”. Mathias aponta uma diferença básica de atitude entre os casos da Natura e o do laboratório. “A empresa reconhece que existe uma diversidade cultural responsável por uma riqueza de conhecimentos sobre a natureza, e que essa diversidade é central para sua missão. Esse reconhecimento, por si, já representa um avanço no panorama do setor privado, que almeja em sua grande maioria manter o padrão atual de conduta, ignorando que nesses casos isso significa justamente a prática de apropriação indevida de conhecimentos e recursos genéticos, o que define a chamada biopirataria. É preciso então mudar rumos dentro do setor privado, o que nem sempre é fácil”. O advogado do ISA ainda diz que, se por um lado a noção de “domínio público” anula os direitos coletivos de povos ou comunidades detentoras de conhecimentos ligados à biodiversidade, por outro lado o modelo de repartição de benefícios estabelecido pela legislação atual traz inúmeras dificuldades, na medida em que exige a identificação de um “titular” do conhecimento tradicional acessado, que fará jus à repartição de benefícios através de um contrato. “No entanto, como a ampla difusão é um traço característico dos conhecimentos tradicionais detidos por milhares de comunidades indígenas, locais, quilombolas, ribeirinhas etc., a identificação de um titular é feita necessariamente em detrimento de outras que fazem parte de um universo indefinível”, ressalva. Mathias, que é representante da Associação Brasileira de Organizações Não-Governamentais (ABONG) e membro convidado permanente no Cgen, aponta que, do jeito que está, a lei traz problemas tanto para os provedores do conhecimento (comunidades) como para os usuários interessados (empresas). “O que fazer com aqueles que detêm o mesmo conhecimento, mas que ficaram ‘de fora’ da repartição de benefícios? Por outro lado, qual a segurança jurídica que pode ter uma empresa sabendo que a qualquer momento pode aparecer alguém reclamando direitos sobre o conhecimento acessado?”, questiona. Legislação insuficiente De acordo com Eduardo Vélez, diretor do Departamento de Patrimônio Genético do Ministério do Meio Ambiente e secretário-executivo do CGen, a paralisia da normatização sobre a repartição de benefícios relacionados a conhecimentos tradicionais no conselho permite que todo tipo de problema ocorra nesta área. E lembra que a legislação tampouco resolve a repartição de benefícios a partir de fontes secundárias, quando o acesso a conhecimentos tradicionais se dá por meio de livros ou bancos de dados. “Acredito que a atual legislação prejudica a todos, empresas e comunidades, abrindo espaço para episódios que são muito ruins, pois impedem que alianças entre estes dois lados se fortaleçam”. Vélez lembra que o Ministério do Meio Ambiente deve encaminhar, nas próximas semanas, um Ante-Projeto de Lei ao Congresso para avançar a legislação sobre o tema. Saiba mais. Fernando Mathias sublinha que a polêmica entre a Natura e o Ver-o-peso revela que o atual sistema baseado unicamente em contratos regidos pela legislação civil não é adequado. “Isso exige uma outra abordagem para além do que hoje prevê a legislação de acesso, incorporando noções de direitos coletivos (além dos direitos individuais) sobre conhecimentos tradicionais enquanto patrimônio imaterial compartilhado e coletivamente construído”, afirma. “O desafio é criar instrumentos para repartir benefícios a partir desses princípios. Nesse sentido, o setor privado ainda tem longo caminho para criar e cultivar laços de confiança junto a comunidades locais culturalmente diferenciadas, com vulnerabilidades econômicas diante da realidade corporativa de grandes empresas”. Leia abaixo a carta da Natura na íntegra: A Natura, o Ver-o-Peso e o Estado do Pará Cajamar, 23 de maio de 2006 A Natura, como é de conhecimento público, vem debatendo com vendedoras de ervas do Mercado Ver-o-Peso o tema da utilização do conhecimento tradicional de essências aromáticas da floresta amazônica para produção de perfumes. O impasse começou a ganhar forma em outubro de 2005 quando pesquisas realizadas pela companhia foram questionadas junto a Ordem dos Advogados do Brasi/Seção do Pará e, logo a seguir, ganhou a mídia, na forma de denúncias quanto aos procedimentos dos trabalhos levados à prática. Diante desses acontecimentos, a Natura, em respeito à opinião pública e em harmonia com o marco regulatório governamental, vem buscando dois caminhos principais de diálogo, simultâneos e interligados. De um lado, enfatiza a sua disposição para o diálogo e o entendimento, determinada que está em valorizar o Mercado Ver-o-Peso e as ervateiras da região, sempre orientada pela atuação transparente e construção de parcerias. De outro lado, tem se empenhado em tornar cristalino o seu posicionamento quanto à utilização de ativos da biodiversidade brasileira em suas linhas de produto, assinalando jamais ter cometido qualquer ilegalidade, inclusive porque o uso de conhecimento difuso, isto é, sem fonte determinada, não é regulado por lei no País. Além de discutível, a remuneração ao conhecimento tradicional difuso, da forma como o assunto é abordado pelo legislação existente, pode trazer riscos ou inviabilizar iniciativas que busquem a promoção de negócios sustentáveis. OS FATOS. Para alimentar sua plataforma tecnológica, baseada no uso sustentável de ativos da floresta, a Natura investe recursos em pesquisa e busca inspiração em múltiplas fontes, tais como literatura acadêmica e popular, fornecedores de matérias-primas, comunidades agrícolas e extrativistas e mercados populares. Dentre as muitas missões que realizou para conhecer as práticas de manejo e as tradições culturais associadas ao desenvolvimento de óleos essenciais de Priprioca – como, por exemplo, à Ilha de Silves, no Estado do Amazonas, ou ao centro de pesquisa da Universidade de Campinas, UNICAMP, no Estado de São Paulo –, a Natura visitou o Mercado Ver-o-Peso, em Belém. Ali, entrevistou comerciantes de ervas com a finalidade de produzir um vídeo para uso institucional e não para ajudar a desenvolver a tecnologia de extração e formulação das fragrâncias. Isto porque este processo é extremamente complexo. Na realidade, o desenvolvimento de óleos extraídos da Priprioca envolve casas de perfumaria especializadas que operam mundialmente e que detêm know-how tecnológico por vezes desconhecido no Brasil. A esses óleos essenciais as casas de perfumaria somam entre 100 a 200 substâncias que vão sendo incorporadas até chegar ao produto final. Contudo, por reconhecer que o Mercado Ver-o-Peso é um importante símbolo das tradições populares paraenses e brasileiras procuramos divulgar – sempre de forma transparente e aberta – as tradições relacionadas com o hábito da perfumação em nossa comunicação institucional e comercial. Em outras palavras, a Natura buscou inspiração no Mercado Ver-o-Peso da mesma forma que em diversas outras localidades. Vale lembrar ainda que a companhia remunerou devidamente os expositores filmados pelos direitos de uso de imagem, informando a todos as finalidades do documentário. INVESTIMENTOS E INCLUSÃO SOCIAL. A presença da Natura no Estado do Pará tem gerado, nas últimas décadas, resultados expressivos para os muitos públicos de relacionamento da empresa e para a sociedade em geral. Esses resultados decorrem de diversas iniciativas que desenvolvemos e que continuaremos a desenvolver na região. A Natura cria oportunidades de trabalho e renda para um grupo de cerca de 20 mil Consultoras Natura, que são as responsáveis por comercializar nossos produtos junto aos consumidores. Por meio dessa atividade, cada uma dessas mulheres obteve um ganho médio no ano passado de R$ 2.4 mil. Estamos também investindo recursos em uma unidade industrial, a primeira fora do Estado de São Paulo, que envolverá cerca de 2.300 famílias, em 23 municípios do Estado, no fornecimento de oleaginosas e frutos para a produção de óleos da biodiversidade brasileira para utilização em nossos produtos. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL. Finalmente, é importante reforçar que o nosso modelo de negócios tem permanentemente buscado conciliar geração de renda com conservação da natureza e justiça social. Nesse contexto, inovar significa não somente lançar novos produtos, mas primordialmente tirar o melhor proveito de nosso jeito de fazer negócios para identificar novas formas de inclusão social e preservação da natureza. Aqueles que acompanham a trajetória e torcem pelo sucesso da Natura sabem que acreditamos, genuína e intensamente, que “floresta em pé é um bom negócio”, embora cientes de que toda atividade pioneira possui riscos. Por fim, reforçamos nosso compromisso com o Estado do Pará e com o desenvolvimento sustentável da região Norte. E no construtivo diálogo com as comunidades regionais, e com aqueles que trabalham no Mercado Ver-o-Peso, em particular. Fonte: http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=2261 Consulta em 17/11/2006

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Patentes dificultam acesso a remédio, afirmam ministros sul-americanos

2016-02-02T20:46:00-03:00maio 23, 2006|Categories: Acervo|

Ministros de nove países sul-americanos, incluindo o Brasil, apresentaram uma declaração conjunta à 59a Assembléia da OMS (Organização Mundial da Saúde) em que afirmam que as patentes sobre medicamentos dificultam o acesso dos mais pobres ao tratamento de saúde. Os ministros dizem também que o sistema atual de patentes instalam um monopólio de mercado, o que causa "aumentos significativos nos custos dos programas governamentais de atenção farmacêutica". No documento, os representantes sul-americanos ressaltaram a importância de um "diálogo regional contínuo sobre o impacto da proteção da patente no acesso aos medicamentos, visando a adoção de ações conjuntas que garantam a supremacia do bem público sobre os interesses comerciais". Em declarações a jornalistas, o ministro argentino, Ginés González García, reclamou a participação dos dirigentes da Saúde nas discussões sobre a regulamentação da propriedade intelectual em todas as negociações internacionais e também na revisão de regulamentações internas.  Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/dinheiro/ult91u107957.shtml Consultado em 16/02/2007

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HIV/AIDS Advocacy Groups File Opposition to Gilead´s Request for Patent on Tenofovir in Índia

2017-01-10T17:18:25-03:00maio 12, 2006|Categories: Acervo|

The HIV/AIDS advocacy groups Delhi Network of Positive People and Indian Network for People Living With HIV/AIDS on Tuesday filed an opposition application with the New Delhi patent office to oppose Gilead's application to patent its antiretroviral drug Viread, known generically as tenofovir, the AP/Houston Chronicle reports (AP/Houston Chronicle, 5/10). India's generic drug industry has made less expensive medications available in India and abroad for more than 30 years. However, India's Parliament last year -- in order to bring the country in line with a World Trade Organization agreement on intellectual property that it signed in 1994 -- changed the country's patent laws to prohibit the domestic production of low-cost, generic versions of patented medicines, including antiretroviral drugs. The measure does not eliminate the supply of existing generic drugs, but it requires generic drug makers that want to continue production to pay royalties to the manufacturers of drugs currently under patent (Kaiser Daily HIV/AIDS Report, 3/24/05). The patent opposition application was filed on behalf of the groups by the Alternative Law Forum (Datta, Hindu Business Line, 5/11). The Indian generic drug company Cipla -- which produces a generic form of tenofovir called tenvir -- also has filed a challenge to Gilead's patent application (MacRae, AFP/Yahoo! News, 5/11). Gilead's tenofovir in Western countries costs $5,718 annually per person, and tenvir costs $700 annually per person in India. Tenvir would be removed from the market for 12 years if Gilead is awarded a patent, the New York Times reports (Gentleman/Kumar, New York Times, 5/12). Cipla Chair Yusuf Hamied said India's new patent law says that drug compounds known before 1995 do not have the "novelty" required for patent protection (AFP/Yahoo! News, 5/11). ALF says that Viread is not a new drug because Gilead added only the salt (fumaric acid) to the existing compound tenofovir, the Times of India reports (Raaj, Times of India, 5/11). The international medical treatment group Medecins Sans Frontieres is providing technical support for the challenge. Protests, Reaction Gilead's application prompted a protest by nearly 150 people, some of whom are living with HIV/AIDS, on Wednesday in New Delhi. Police detained and later released 102 of the demonstrators, police officer Parath Singh said (SAPA/Business Day, 5/10). "Granting this patent would set a dangerous precedent," Ellen 't Hoen, director of policy and advocacy for MSF's Campaign for Access to Essential Medicines, said, adding, "Limiting production of tenofovir and that of other newer essential drugs to a single company keeps prices high because generic competition is blocked" (MSF release, 5/10). Gilead in a statement said it disagrees with statements that Viread should not be patented and "believe[s] that Viread represents innovation and is patentable under Indian law." Gilead added that it will "use this patent responsibly" and will not "block access to medication ... in India or in other resource-limited countries where the HIV epidemic has hit the hardest" (Gilead statement, 5/10). Fonte: http://www.kaisernetwork.org/daily_reports/rep_index.cfm?DR_ID=37214 Acessado em 05/12/2006

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AIDS drug provokes patent battle in India

2017-01-10T17:18:26-03:00maio 11, 2006|Categories: Acervo|

NEW DELHI A legal challenge to a patent application in India on a crucial AIDS drug was filed this week in Delhi by two patients' rights groups, who claim that thousands of lives could be put at risk if the patent is approved. If the drug, tenofovir, is granted a patent, the manufacture of cheaper versions in India will become illegal, making the drug too expensive for patients in developing countries. The suit is one of the first major challenges to an Indian patent legislation introduced last year that was designed to control the country's large pharmaceutical industry, which for decades has specialized in making cheaper copies of Western manufactured medicines. The Indian patent office is processing about 9,000 patent applications, most of them filed by international pharmaceutical companies. Patient advocates warn that the supply of a wide range of vital drugs to people in the developing world may be jeopardized. Hundreds of thousands of AIDS patients in developing countries are treated with generic Indian drugs. Those backing the legal challenge are hopeful that this case, if successful, could help set a legal precedent, thereby making it easier to block other pending patent applications. They say the recent rejection of a patent application by Novartis for a cancer drug, on the grounds of similar legal arguments, gives some cause for optimism. The Delhi Network of Positive People and the Indian Network for People Living with HIV/AIDS registered a formal opposition Tuesday to a patent application by the U.S.-based Gilead Sciences for the drug tenofovir disoproxil fumarate, commonly known just as tenofovir. Their lawyers make the case on a scientific technicality, arguing that tenofovir is not a new drug, but just a modified version of an earlier drug, and therefore not eligible for a new patent under India's act. The successful challenge to a patent for the cancer drug, Gleevac, was also made on this basis - that the application claims "a new form of a known substance." The World Health Organization recently recommended the drug for patients who are just starting treatment for AIDS and for those who have been receiving anti-retroviral treatment therapy for some time, but who have become resistant to other treatments. The drug has relatively few known side effects and is in wide use in the United States and Europe, although less so in the rest of the world. "These generic drugs are not only consumed in India," said Leena Menghaney of Médecins Sans Frontières, or Doctors Without Borders, in Delhi, which is working with the Indian groups on the issue. "People in Africa and the Caribbean are relying on India to produce these drugs. "The quality matches that of U.S.- manufactured drugs, but the prices are affordable. These drugs are very important, which is why we are opposing this patent application. "People who suffer extreme side effects from other drugs, and people who have developed resistance to other drugs, have been waiting for an effective substitute such as tenofovir. If they don't get it, then probably their lives will be at risk, and certainly their quality of life will be worse." Eric Goermaere, of Médecins Sans Frontières in South Africa, said in a written statement: "We have all been waiting impatiently to get tenofovir as a generic from India. It's clear that the world desperately needs more sources of tenofovir. If Gilead is granted the patent, our patients will face a potentially deadly delay." In developed countries, Gilead's tenofovir costs $5,718 per patient per year. According to company's Web site, it has been offering the drug at cost to treatment programs in eligible developing countries. But officials with Médecins Sans Frontières said the company has not yet made the drug available in many low-income regions. A spokeswoman for Gilead, Erin Edgley, said in an e-mail message that the company declined to comment. Cipla, one of the largest generics companies in India, is already marketing a generic version of tenofovir, called tenvir, at a cost of $700 per person per year in India. Yusuf Hamied, chairman of Cipla, said the drug would in time be made available in Africa for about half the price in India. Tenvir will have to be withdrawn if the Gilead patent, which would last for 12 years, were granted. About 150 protesters, many of them HIV-positive, demonstrated outside the Indian Parliament on Wednesday in support of the legal action, carrying banners declaring "Patients before patents" and "Lives before profit." A number of campaigners were detained when they crossed the police barriers. Among the protesters was Loon Gangte, president of the Delhi Network of Positive People, who like more than 5.1 million people in India is HIV-positive. "If this patent is granted, it will chop off a lifeline for me," he said, adding that he has been taking anti-retroviral treatment for the past 3½ years. "Any time now I am going to become resistant to the first line treatment and I will need new drugs. For many of us living with HIV/AIDS, newer drugs like tenofovir offer new hope of continuing treatment. "If the government grants the patent the price of these drugs will go up, and I won't be able to afford them. It is a life- and-death issue for me and many more people like me around the world. We do not want to die when our lives can be easily saved." The Indian patent law, introduced last March, was designed to regulate the copying of Western medicines by the Indian pharmaceutical industry and to bring the country into line with World Trade Organization rules. International aid organizations warned that the legislation could mark the beginning of the end of affordable generic drugs. Supporters of the legislation counter that patents ensures that pharmaceutical companies have the security to invest in further research allowing them to develop vital drugs. They argue the patent law also creates benefits for the Indian pharmaceutical industry as it begins to develop world-class drugs. Those innovators will want protection from generic copies. The AIDS patients rights' groups issued the formal opposition to the patent on a scientific technicality, arguing that tenofovir is not a new drug, but just a modified version of an earlier drug. Cipla plans to start a parallel legal opposition to the patent application. "We have never been against intellectual property and patents," Hamied said by telephone from Mumbai. "We are against monopoly. I believe that life- saving, essential drugs should be freely available and the innovator should be paid a suitable royalty payment for his invention." He said he believed that a large number of the 9,000 patents currently pending will ultimately prove to have no basis in law and will be rejected. Most of them were filed speculatively before the Indian legislation was passed in 2005 and before the precise details of the new legislation were announced. Hamied called on those multinational corporations with patents are pending which do not comply with the current Indian law, "to withdraw them voluntarily, instead of entering into litigation after litigation after litigation."  Fonte: http://www.iht.com/articles/2006/05/10/news/aids.php Acessado em 30/11/2006

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HIV desafia a compreensão científica

2017-01-10T17:18:26-03:00maio 10, 2006|Categories: Acervo|

Apenas seis anos após a descoberta do vírus HIV (vírus da imunodeficiência humana), em 1984, teve início o primeiro teste clínico de uma vacina que protegesse a humanidade da mortal epidemia da Aids. Quase vinte anos depois, a cura continua sendo uma promessa. O desafio é um pequeno filete de material genético envolto por uma cápsula protéica, o vírus, capaz de se multiplicar e mutar constantemente, dando origem a novas variedades, que continuam desafiando os avanços científicos. A dificuldade em se chegar a uma vacina eficaz deve-se muito à propriedade do vírus de sofrer mutações e rearranjos genéticos quando se multiplica. A grande variabilidade genética do vírus, que conseqüentemente causa uma grande diversidade viral e grande variação antigênica, deixa a ciência em desvantagem na corrida pela cura da Aids. A questão é encontrar uma vacina que consiga ser eficiente contra todos os tipos existentes do HIV. Todas as versões do vírus têm genomas similares, porém distintos. O HIV é semelhante ao Vírus da Imunideficiência Símia (SIV) encontrados em primatas como os chimpanzés, daí a hipótese de que ele teria chegado aos humanos por meio do contato com esses animais. “Como no continente africano, em algumas regiões é comum o hábito de se alimentar com carne de macacos, acredita-se que, ao manipular esse tipo de carne, os homens acabaram se cortando e, a partir daí, houve a passagem do vírus para humanos”, afirma Bosco Christiano Maciel da Silva, farmacêutico e microbiologista da área de HIV/Aids da USP. A adaptação do vírus ao novo organismo teria resultado na forma que conhecemos como HIV, sendo que os diferentes grupos virais existentes hoje teriam surgido de eventos isolados da transmissão entre espécies. Os existentes na Ásia, por exemplo, se desenvolveram de forma diferente dos da África, formando subgrupos regionais ou genéticos, atualmente dispersos pelos continentes. A diversidade do HIV ainda é crescente em função de diversos processos como a mutação – erros no processo de cópia – e recombinação, que acontece quando uma pessoa é infectada com duas versões diferentes do microorganismo. Existem dois tipos de HIV, o tipo 1, mais comum, e o tipo 2, considerado como endêmico da África Ocidental e muito raro de ser encontrado fora desta região. Pelo seqüenciamento do genoma viral, pesquisadores conseguiram mapear a árvore genealógica do HIV-1. Na raiz da árvore, existem três grupos, chamados M, N e O. O grupo M é o responsável pela epidemia no mundo atual. Este grupo se divide em nove subgrupos – com denominações alfabéticas que vão da letra A até o K-, que seguem um padrão de distribuição geográfica: um subgrupo denominado Circula na África do Sul, Índia e partes da China; subgrupo A e D são freqüentes no leste africano, ao passo que um subgrupo B é comum na América do Norte e Europa ocidental. No Brasil, os subtipos mais freqüentes são o B, o F e, em menores proporções, o C. “O vírus desafia a ciência e os pesquisadores porque sua grande variabilidade genética acarreta grande diversidade viral e confere grande capacidade de escape imunológico e resistência às terapias já existentes”, resume Silva. Busca pela vacina Atualmente, 30 tipos de vacinas estão sendo testadas no mundo e o grande objetivo dos pesquisadores é encontrar uma que atue direta e eficientemente sobre uma característica comum a todos os subtipos. “Uma vacina ideal contra o HIV deverá ter as seguintes características: ser segura, de fácil administração, estável sob condições adversas de armazenamento, capaz de induzir imunidade duradoura contra uma ampla diversidade de subtipos do HIV (cepas diferentes do vírus), de baixo custo e que possa estar disponível na rede pública de saúde dos países, para que todos possam ter acesso a essa vacina”, descreve Bosco Silva. O processo de desenvolvimento da vacina engloba cinco estágios, a exemplo do que ocorre para que um medicamento saia da bancada do cientista, para a prateleira da farmácia: a pesquisa científica básica, o desenvolvimento pré-clínico, os testes clínicos com suas três fases: a licença e aprovação do medicamento e, finalmente, sua fabricação e distribuição. Até hoje, a vacina para combater a Aids não ultrapassou a fase III dos testes clínicos, aqueles feitos em larga escala e, de todas as vacinas candidatas, apenas três conseguiram chegar a essa etapa. “Essas vacinas candidatas falharam porque as pessoas estudadas não se tornaram ‘imunes’ à infecção pelo HIV”, aponta o pesquisador. Os testes clínicos para a descoberta da vacina anti-HIV existem desde 1987, quando a Agência de Controle de Alimentos e Medicamentos norte-americana (FDA, na sigla em inglês) aprovou o primeiro teste em humanos nos Estados Unidos – mesmo momento em que o AZT (Zidovudine), a primeira droga antiretroviral, foi lançado. Em 1998, iniciou-se o teste de fase III e, um ano depois, um país em desenvolvimento, a Tailândia, realizou os primeiros testes clínicos da vacina. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), desde 1987, já foram desenvolvidos cerca de oitenta testes clínicos no mundo com mais de 50 vacinas candidatas. Nos últimos cinco anos, o número de testes fase I em humanos dobrou, segundo a OMS. Em 2005, 13 novos testes com vacina preventiva começaram a ser feitos em nove países do mundo e dois deles conseguiram resultados positivos para entrar na fase II de testes, um estágio intermediário da avaliação clínica. No Brasil existem estudos preparatórios para a vacina anti-HIV desde 1995, mas os testes clínicos começaram em 2000. Hoje em dia, estão em andamento duas avaliações de fase II, o HVTN 204 e o HVTN 502, e três de fase I: o HVTN 050, HVTN 055 e o HVTN 063. Arthur Kalichman coordena dois desses testes no Centro de Referência e Treinamento em DSTs e Aids de São Paulo (CRT-DST/Aids), o HVTN 050, testado desde 2004 no Brasil, e o HVTN 055, que começou a ser estudado no país no final do ano passado. “Não testamos ainda se essas vacinas funcionam ou não. Estamos testando se fazem mal ao organismo humano, se os efeitos colaterais são toleráveis”. No final do estudo, será verificado se os produtos são seguros e se despertam imunidade contra os pedaços específicos do gene do HIV. Se aprovados, os testes seguem para a fase II. As vacinas de HIV testadas são produzidas a partir de pequenos pedaços do vírus, os imunogenes. Uma vez aplicados, esses imunogenes são reconhecidos pelo sistema imunológico, que cria, assim, defesas contra fragmentos do HIV. “Ninguém usa o vírus inteiro. Em seu lugar utilizam um vetor, que tem potencial de despertar o sistema imunológico, como é feito na vacina para a varíola. Funciona pela exposição de um pedaço do gene do vírus imunizado, no caso, o HIV, enxertado no DNA de outro vírus, inofensivo. É como se mostrássemos a fotografia do inimigo para o sistema imunológico aprender a reconhecê-lo”, explica Kalichman. Há ainda outros obstáculos que a busca pela vacina enfrenta, como carência de voluntários para os ensaios clínicos (muitas pessoas ainda têm receio de participar dos ensaios clínicos, com medo de ocorrer infecção pelo vírus durante os testes), o longo tempo que levam os ensaios clínicos e os recursos financeiros insuficientes investidos em pesquisa científica. Investimentos na vacina De acordo com a Iniciativa Internacional de Vacina da Aids (IAVI, em inglês), os gastos globais com pesquisas para a vacina da Aids não chegam a 1% dos gastos totais com pesquisa e desenvolvimento de produtos na área da saúde. Os investimentos em 2005 chegaram próximos aos U$700 milhões, metade do que é considerado necessário para atender às necessidades. A instituição alerta ainda que enquanto mais de U$20 bilhões são gastos com tratamento, pesquisas, prevenção e cuidados em doença, apenas 3% deste valor são destinados à pesquisa e desenvolvimento da vacina. Os investimentos do setor privado, de apenas U$100 milhões no mundo todo, denunciam uma situação ainda mais crítica de falta de incentivos. Conforme aponta a IAVI, a Aids se concentrada em países pobres (95% das pessoas infectadas vivem nessas regiões), e embora estes sejam os que mais precisam da vacina, são os que menos podem pagar por ela. “O fato de determinada doença, como a Aids, se concentrar em países pobres influencia no avanço das pesquisas, uma vez que o compromisso com investimentos tão necessários começa a cair; enquanto que, por outro lado, o descaso com o tratamento, com a assistência às pessoas infectadas e com o investimento em pesquisas tende sempre, infelizmente, a aumentar”, comenta Silva. Apesar da maior concentração em países pobres, a Aids também é um problema para os países desenvolvidos. O relatório do Programa de HIV/Aids das Nações Unidas (Unaids), de 2004, alerta para o crescimento das infecções do HIV em países como os EUA e da Europa, entre os anos de 2001 e 2004. No mais, a Unaids reforça que os gastos estimados com a doença será quase o triplo da demanda atual de U$ 8 bilhões em 2008, o que dá argumentos para que a ciência intensifique as pesquisas nos próximos anos. Conquistas e tratamento Desde que o vírus foi descoberto em 1981, é possível apontar grandes avanços que a ciência fez: o seqüenciamento total do vírus, a compreensão de como o sistema imunológico humano é atacado e como ele tenta reagir e se defender contra o vírus, a descoberta dos medicamentos antiretrovirais. “Eu diria que até hoje os medicamentos antiretrovirais, conhecido como “coquetel” representam um dos maiores avanços da ciência no campo do HIV/Aids, uma vez que conseguiram diminuir os óbitos dos pacientes infectados pelo HIV em mais de 50%.”, ressalta Bosco Silva. O primeiro medicamento utilizado contra a Aids foi o AZT, em 1987. Em 1995, o Departamento de Alimentos e Drogas (FDA) abriu a nova era das terapias antiretrovirais altamente ativas (HAART), quando aprovou o primeiro inibidor de protease, o saquinavir. Um ano depois, o Brasil iniciou o programa de distribuição gratuita do remédio, configurando-se assim como o primeiro país a priorizar a saúde dos soropositivos. Pouco tempo depois, em 1997, os resultados da HAART puderam ser observados pela redução em 40% do número de mortes por Aids, em comparação ao ano anterior. Nestes 25 anos ainda não existe cura e o vírus, ironicamente uma das formas de vida mais simples, ainda desafia com sua complexidade de ação. Leia mais: - Understanding AIDS vaccines: An anthology from VAX. Disponível em www.iavireport.org - Relatório da Unaids da OMS sobre a epidemia de dezembro de 2005. www.unaids.org/epi/2005 Fonte: http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=13&id=118 Consultado em 23/02/2007

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O enfrentamento da pandemia

2017-01-10T17:18:26-03:00maio 10, 2006|Categories: Acervo|

Desde o seu reconhecimento em 1981, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Aids) vem fazendo vítimas em número cada vez maior. São 25 anos de pesquisas para encontrar soluções profiláticas e terapêuticas em que algumas conquistas importantes foram alcançadas. No entanto, o impedimento do avanço dessa doença implacável tem sido um fracasso. Hoje, os números que aparecem são de mais de 40 milhões de infectados, sendo que cerca de 2 milhões de crianças e 60% desse total está na África subsaariana. Esses números são mais do que 50% das estimativas da Organização Mundial da Saúde (OMS), feitas em 1990 para 2005. Mas, quais são as razões para isso? As patentes são o único vilão da história, ou além delas existem outros? O que poderia ser feito para reverter esse quadro sombrio? Qual a responsabilidade dos governos e organismos internacionais nesse processo? Para responder a essas perguntas é necessário visualizar todos os fatores determinantes do sucesso de um programa de controle da doença. O acesso aos medicamentos e a barreira que as patentes representam são alguns dos aspectos a serem considerados nessa guerra contra o HIV (Vírus da Imunodeficiência Humana). Eles são inegavelmente muito importantes e representam a diferença entre a esperança de uma boa qualidade de vida para os pacientes de Aids e para os infectados pelo HIV e o desespero e dor pela morte iminente. O entendimento da problemática envolvida requer uma abordagem, ainda que de forma simplificada, de alguns dos principais componentes de um programa integrado de controle da Aids pertinentes a qualquer país. Elementos essenciais da profilaxia e tratamento A determinação do momento em que um indivíduo infectado pelo HIV deve iniciar o tratamento anti-retroviral, bem como o monitoramento dos indivíduos que já estão em tratamento, são feitos por uma avaliação clínica que é complementada por métodos laboratoriais, principalmente através da contagem de células T-CD4+ (avalição do grau de imunodeficiência do paciente) e pela quantificação da carga viral (avaliação da quantidade de vírus no sangue do paciente). Esse acompanhamento é importante no estabelecimento do tratamento adequado. O acesso aos medicamentos é, sem dúvida alguma, um fator preponderante no controle da doença. Esse acesso envolve vários fatores, tais como produção suficiente de intermediários químicos e de princípios ativos, garantia da qualidade dos produtos disponíveis no mercado, preços razoáveis para aquisição pelo paciente ou pelo programa governamental (nos raros países em que ele existe) e logística adequada para garantir a disponibilidade, em termos de quantidade e no momento de necessidade, para o paciente. A administração do conjunto desses fatores é altamente complexa, especialmente em países onde há dificuldade de acesso às áreas rurais, e requer a decisão política de considerar o controle da Aids uma prioridade de governo. O Brasil tomou essa decisão, conseguiu superar esses obstáculos e se tornou um exemplo a ser seguido por todos os países, inclusive os desenvolvidos. O acesso à assistência médica é outro fator preponderante no tratamento e acompanhamento dos pacientes de Aids e dos indivíduos infectados pelo HIV, como o que é feito em centros de referência em Aids, por exemplo, o da Coordenação do Programa Estadual de DST/Aids. Por fim, a assistência farmacêutica também fica seriamente comprometida pela não priorização da política social e pela descontinuidade de outras políticas que afetam a disponibilidade de medicamentos, tais como a política industrial (produção de fármacos e de remédios), de pesquisa e desenvolvimento (por exemplo, engenharia reversa para produção de fármacos e medicamentos conhecidos), de importação e exportação para criar ambiente favorável à produção local de medicamentos e outras de igual importância. Em linhas gerais, a assistência farmacêutica compreende a seleção, programação, aquisição, armazenamento e distribuição, controle de qualidade e utilização de medicamentos. No caso da Aids, essas ações são centralizadas e promovidas pelo Programa Nacional de DST e Aids em colaboração com as coordenações dos Programas Estaduais de DST/Aids. Além dessas atividades, a assistência farmacêutica também é responsável por campanhas de esclarecimento que são fundamentais na abordagem profilática do controle de transmissão da Aids. Vale ressaltar que o Brasil tornou-se referência para o mundo ao estabelecer a premissa da essencialidade de unir prevenção e tratamento. Por que as patentes têm tanta influência no acesso ao tratamento? Cada cidadão sente o peso no bolso de um medicamento patenteado quando vai à farmácia comprar um remédio. Todos sentem, mas não sabem porque isso acontece. Por exemplo, somente uma pequena parcela da população que sofre de hipertensão pode comprar o anti-hipertensivo Lipitor ou Citalor devido ao seu elevado preço. A explicação para isso é que esses medicamentos estão patenteados no Brasil. Da mesma forma, os medicamentos anti-retrovirais Nelfinavir, Kaletra e Tenofovir consomem grande parte do orçamento do Ministério da Saúde dedicado à aquisição de medicamentos. Não é por acaso que isso acontece. Esses remédios estão patenteados no Brasil. O Brasil é um dos poucos países do mundo que fornece os medicamentos anti-retrovirais gratuitamente, mas o gratuito significa que o povo paga esses elevados custos. Um outro fato preocupante em relação à sustentação do Programa Nacional de DST/Aids é o elevado preço pago pelos medicamentos patenteados, mesmo comparando com os países em estágio de desenvolvimento equiparável ao Brasil (países de renda intermediária – low-middle-income countries). As diferenças mais gritantes são com relação aos remédios Kaletra (USD 1,17/comprimido no Brasil e USD 0,26/cápsula na África do Sul) e Tenofovir (USD 7,28/comprimido no Brasil e USD 4,62/cápsula em El Salvador ou USD 2,50/cápsula no Irã). Não precisa ser brilhante economista para prever sério abalo na sobrevivência do Programa Nacional DST/Aids se os preços dos remédios anti-retrovirais patenteados, praticados no Brasil, se mantiverem nos atuais níveis. Mas não são somente os remédios que têm preço elevado por causa das patentes que os protegem da concorrência de livre mercado. Também a grande maioria dos kits de diagnóstico e os reagentes estão sob patente, o que significa que o monitoramento e os “testes de Aids” consomem somas crescentes do Programa Nacional de DST e Aids e das secretarias estaduais de saúde. Por que os produtos patenteados são mais caros? A patente é um privilégio, dado ao seu proprietário, de exploração exclusiva, por um certo tempo (20 anos), de uma invenção. Isso significa, na prática, um monopólio, ou seja, a oposição às leis de livre mercado que impedem o aparecimento de concorrentes enquanto a patente estiver em vigor. O que mais preocupa é a exigência sobre a “qualidade inventiva” da patente. A tendência mundial é a concessão cada vez maior das chamadas patentes incrementais. Só para se dar um exemplo mais popular o Omeprazol, com versão genérica no mercado, é bem mais barato que o Esomeprazol (Nexium), remédio que está patenteado no Brasil. E qual é a diferença entre esses dois remédios? No tempo, o Omeprazol foi sintetizado no final da década e 1970 e o Esomeprazol foi desenvolvido na década de 1990; na constituição química, são duas substâncias iguais que diferem somente na sua aparência tridimensional (são os chamados isômeros). A passagem do Omeprazol para o Esomeprazol foi feita usando técnicas muito conhecidas de separação de compostos químicos. Portanto, neste caso, os chamados “vultosos investimentos” alegados pela indústria farmacêutica não têm sustentação lógica, porque, na verdade, eles não existiram. Foi mais uma “invenção de marketing”, ou seja, uma modificação para “reviver” uma patente prestes a expirar do que uma “invenção de nova molécula”. Vale acrescentar que, mesmo que haja algum benefício terapêutico devido ao incremento tecnológico, poder-se-ia premiar esse aperfeiçoamento com um tipo diferenciado de proteção, mas nunca com os 20 anos de vigência de patente concedida para uma “invenção real”. Esses casos são cada vez mais comuns. Por exemplo, o Lopinavir (um dos componentes do Kaletra) é uma modificação química do Ritonavir (o outro componente do Kaletra). E há outros casos mais escabrosos, as chamadas “combinações de dose fixa” (em inglês fixed dose combinations) são remédios que resultam de técnicas de produção farmacêutica sobejamente conhecidas. Outro exemplo impressionante dessas “patentes incrementais” é o caso do Tenofovir, cuja patente expira este ano (2006), mas que já foi requerida uma nova patente para o sal de Tenofovir que é obtido por processo químico amplamente conhecido e simples. Há meios para reduzir o impacto causado pelas patentes no acesso ao tratamento? Desde a entrada em vigor do Acordo de Aspectos de Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (Trips, na sigla em inglês), um dos acordos da Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995, ficou mais difícil a implementação de políticas de saúde em todos os países membros da OMC (ou seja, praticamente todos os países do mundo). As regras que acabaram predominando, no Trips, foram aquelas impostas pelos Estados Unidos e, em menor grau, pela Comunidade Européia e Japão. No entanto, algumas medidas ainda podem ser aplicadas, apesar da dificuldade em fazer prevalecer a prioridade da saúde sobre a propriedade intelectual como firmado na Declaração de Doha. A aplicação da licença compulsória é uma delas e é a mais importante. Então por que, nos países em desenvolvimento (os que mais precisam), é tão difícil aplicar a licença compulsória? É simples: dinheiro e poder da mais importante potência mundial – os Estados Unidos da América do Norte. Basta um simples anúncio de aplicação de licença compulsória feita pelo governo de um país em desenvolvimento, como tem acontecido com o Brasil, para suscitar a ameaça da aplicação unilateral de sanções comerciais pelos Estados Unidos. Além das ameaças, existem práticas mais sutis, tal como o “presente” que foi oferecido recentemente (abril/2006) para a Tailândia de favorecimentos comerciais em troca da não aplicação de licença compulsória e produção de genéricos. Vale lembrar que os Estados Unidos da América são o país que mais aplica a licença compulsória, inclusive para patentes farmacêuticas. Alguns exemplos de licenciamento compulsório de patentes farmacêuticas nos Estados Unidos são: patente de produtos de citocina de propriedade da Novartis (1997), patente da substância 9-AC (utilizada no tratamento de câncer) de propriedade da Pharmacia & Upjohn (1995), patente da diciclomina de propriedade da Dow Chemical (1994). Resumo da história Enquanto não houver compromisso dos governos na adoção de medidas que tornem a saúde mais importante do que a propriedade intelectual (Declaração de Doha) e omissão dos organismos internacionais, como a OMS e a OMC, no enfrentamento das dificuldades/adversidades e pressões do governo dos Estados Unidos da América e das empresas multinacionais produtoras de remédios inovadores e genéricos continuaremos a assistir o genocídio institucional das populações dos países, principalmente da África subsaariana. Mas, é preciso lembrar que os vírus e outros microrganismos não reconhecem fronteiras e sabem criar suas próprias armas para resistir às defesas de organismos que involuntariamente os hospedam, inclusive o homem. Eles viajam em navios, aviões e transportes terrestres, atravessando países e fazendo vítimas cada vez em maior número. Infelizmente, este é o saldo de 25 anos convivendo com o Vírus da Imunodeficiência Humana. Maria Fernanda Macedo é consultora em propriedade intelectual.  Fonte: http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=13&id=112 Consultado em 23/02/2007

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A evolução e distribuição social da doença no Brasil

2017-01-10T17:18:26-03:00maio 10, 2006|Categories: Acervo|

Qualquer epidemia é o resultado de uma construção social, conseqüência do aparecimento de uma doença com características biomédicas, sanitárias e demográficas particulares. A identificação, em 1981, da síndrome da imunodeficiência adquirida, habitualmente conhecida como aids, tornou-se um marco na história da humanidade. A epidemia da aids, causada pela infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV), é um fenômeno global, altamente dinâmico e instável, cuja forma de ocorrência nas diferentes regiões do mundo depende, entre outros fatores, do comportamento humano individual e coletivo. A propagação da aids, no Brasil, revela uma epidemia de múltiplas dimensões que vem, ao longo do tempo, sofrendo extensas transformações na sua evolução e distribuição social. De uma epidemia inicialmente restrita a alguns círculos cosmopolitas das denominadas metrópoles nacionais – São Paulo e Rio de Janeiro - e marcadamente masculina, que atingia prioritariamente homens com prática sexual homossexual e indivíduos hemofílicos, depara-se, hoje, com um quadro marcado pelos processos da heterossexualização, da feminização, da interiorização e da pauperização. O aumento da transmissão por contato heterossexual tem resultado em um crescimento substancial de casos em mulheres, sendo apontado como o mais importante fenômeno para o atual momento da epidemia. Tendência espaço-temporal da aids: a interiorização A partir do eixo Rio-São Paulo, os casos de aids disseminaram-se para as demais regiões, inicialmente às metrópoles regionais – como Porto Alegre, Recife, Curitiba, Belo Horizonte e Salvador –, a partir do final da década de oitenta. As transformações no perfil da aids no Brasil, embora com dinâmicas regionais e populacionais distintas, devem-se, sobretudo, a difusão geográfica da doença a partir dos grandes centros urbanos em direção aos municípios de médio e pequeno porte do interior do País, ao aumento da transmissão heterossexual e à manutenção de casos entre usuários de drogas injetáveis (UDI). Atualmente, a epidemia já atinge 79% dos 5508 municípios brasileiros. Os cartogramas representados na figura 1 ilustram a progressiva expansão da epidemia do litoral sudeste para as regiões Sul, Nordeste e Centro-Oeste, considerando-se os municípios com pelo menos um caso de aids registrado, para os períodos de 1880 a 1988, de 1989 a 1996 e de 1997 a 2004. Desde o inicio da epidemia, em 1980, até junho de 2005 foram notificados 371827 casos de aids. Desses casos, 14309 são crianças, 245484 adultos masculinos e 112034 adultos femininos. Com registro de ocorrência de casos em quase todo o território nacional, a distribuição da aids, no entanto, não é homogênea, quanto às regiões de residência, sexo, idade, grau de escolaridade nem no que se refere às categorias de transmissão. Observando-se uma maior concentração de casos nas regiões Sudeste e Sul, as taxas de incidência nos últimos anos evoluíram, em todo o País, de 12,1 por 100 mil habitantes, em 1994, para 17,2 por 100 mil habitantes, em 2004, com uma grande variação entre os diferentes estados da federação. Embora tenha ocorrido um crescimento da epidemia da aids no país, nos anos mais recentes, no entanto, verifica-se uma tendência à estabilização nas regiões mais desenvolvidas – Sul, Sudeste e Centro-oeste, com queda das taxas de incidência nos anos de 2003 e 2004 (figura 2). Nas regiões Norte e Nordeste, as taxas continuam em ascensão. Casos notificados no SINAN e registrados no SISCEL até 30/06/05 A análise da distribuição dos casos de aids, segundo tamanho populacional dos municípios, mostra que os grandes centros urbanos detêm, atualmente, o menor aumento relativo de casos de aids, configurando uma desaceleração da velocidade de crescimento da epidemia. Por outro lado, o crescimento da epidemia tem sido maior, desde 1999, entre municípios pequenos, com menos de 50 mil habitantes. Trata-se, via de regra, de municípios mais pobres e de menor renda per capita, e com mais baixa capacidade de resposta para as demandas sociais, entre elas a saúde. Mudanças na via de transmissão: a heterossexualização e a feminização No início da epidemia, o segmento populacional constituído dos homens que fazem sexo com outros homens – homossexuais e bissexuais – foi o mais atingido. No ano de 1984, 71% dos casos notificados eram referentes a homossexuais e bissexuais masculinos. Entretanto, à extensa disseminação inicial, seguiu-se certa estabilização em anos posteriores, em especial entre aqueles homens pertencentes aos estratos sociais médios urbanos, em todas as regiões do País, em meio aos quais verificou-se relevante mobilização social e mudança de comportamento no sentido de práticas sexuais mais seguras, traduzindo-se em uma redução da participação desta subcategoria de exposição entre os casos notificados, correspondendo em 2004, a apenas 16,3% dos casos. Presentemente, no Brasil, a via de transmissão heterossexual constitui a mais importante característica da dinâmica da epidemia, com expressão relevante em todas as regiões. Houve um incremento importante desta forma de transmissão: de 6,6 % em 1988, para 39,2%, em 1998, e, mais recentemente, em 2004, 61,3%. Esta característica tem contribuindo de modo decisivo para o aumento de casos em mulheres, traduzido na progressiva redução da razão de sexo (dada pela razão entre os casos do sexo masculino e os casos do sexo feminino), no tempo e em todas as categorias de exposição. Os valores da razão de sexo passaram de 26:1, em 1985, para 6:1 em 1989, situando-se em menos de 2:1, desde 1998 (Figura 3). Outro aspecto importante é o de que as menores razões de sexo são encontradas nos municípios brasileiros com menos de 50 mil habitantes. Aproximadamente 20% dos pequenos municípios que notificaram a doença já inverteram a relação de incidência entre os sexos. Entre as mulheres, cerca de 60% são donas-de-casa, em todos os níveis de escolaridade, na faixa etária de 20 a 39 anos.  Casos notificados no SINAN e registrados no SISCEL até 30/06/05 Fonte MS/SVS/PN DST e Aids  Quanto à categoria de transmissão sangüínea, alterações relevantes foram observadas, principalmente em hemofílicos e em indivíduos que receberam transfusão de sangue. Segmentos populacionais intensamente atingidos no início da epidemia vêm apresentando um importante declínio ao longo do tempo. Essa queda é conseqüência do controle do sangue e hemoderivados, principalmente com a disponibilidade dos testes laboratoriais para detecção de anticorpos anti-HIV, a partir de 1986. Em 1984, essas subcategorias representavam 62% dos casos da categoria de exposição sangüínea e, em 2004, representam menos de 0,5%. Enquanto isto, o segmento de usuários de drogas injetáveis, que desde meados dos anos 80, passou a ocupar posição de destaque entre os casos por transmissão sangüínea, mantém-se em difusão em determinadas áreas geográficas. A participação dos UDI, entre as ocorrências de aids, desempenhou papel central no processo de expansão da epidemia para municípios de pequeno e médio porte, a partir de uma disseminação inicial ao longo da faixa que conecta o Centro-Oeste ao interior paulista e, mais recentemente, no litoral sul do País, bem como tem contribuído para o aumento de casos entre as mulheres usuárias de drogas injetáveis ou aquelas que contraíram o HIV por meio de relações sexuais com parceiros UDI. Destaca-se um predomínio da transmissão sexual para ambos os sexos, com baixas proporções de casos registrados em UDI, nas regiões Norte e Nordeste. Com relação à transmissão vertical do HIV, ou seja, a transmissão da mãe infectada para o seu concepto durante a gravidez, parto ou aleitamento natural, observou-se um progressivo aumento desta categoria ao decorrer do tempo, como conseqüência direta da maior participação feminina entre os casos de aids no Brasil. No entanto, desde 1997, após a introdução universal da terapia anti-retroviral para gestantes de todo o país, observa-se uma redução significativa de novos casos de aids em crianças nascidas a partir daquele ano. Em 2004, foram notificados apenas 414 casos em menores de 13 anos. Perfil socioeconômico dos casos de aids: a pauperização A escolaridade tem sido utilizada como variável proxi de situação socioeconômica, e o fenômeno de pauperização tem sido caracterizado pelo aumento da proporção de casos de aids com baixa escolaridade. Houve expressiva mudança no perfil da escolaridade dos casos notificados entre adultos. Em 1985, o percentual de casos com nível superior ou médio era de 76%, enquanto apenas 24% dos casos eram analfabetos ou tinham cursado até os primeiros quatro anos do ensino fundamental. Nos anos subsequentes, houve uma tendência progressiva de aumento no registro de casos com menor grau de escolaridade, observando-se em 2000, entre os casos com escolaridade informada, que 74% eram analfabetos ou tinham cursado o ensino fundamental, e apenas 26% tinham mais de 11 anos de escolaridade ou curso superior. Ana Maria de Brito é médica, mestre em Medicina Tropical pela Universidade Federal de Pernambuco e doutora em Saúde Pública pela Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz. É também pesquisadora do Centro de Pesquisas Aggeu Magalhães/Fiocruz, e professora do Departamento de Medicina Social da Faculdade de Ciências Médicas de Pernambuco, da Universidade de Pernambuco. OBS.: Os dados utilizados neste artigo foram retirados de documentos oficiais do Ministério da Saúde, disponível no site: www.aids.gov.br : Boletim Epidemiológico AIDST, Ano I nº 01- 01ª à 26ª semanas epidemiológicas - janeiro a junho de 2004 / e Ano II nº 01- 01ª à 26ª semanas epidemiológicas - janeiro a junho de 2005 - ISSN 1517 1159  Fonte: http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=13&id=116 Consultado em 23/02/2007

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A luta ímpar contra os big killers na África

2017-01-10T17:18:26-03:00maio 10, 2006|Categories: Acervo|

Os números da Aids na África são números de um genocídio. Não só pelo grito cruciante das cifras (2 milhões e quatrocentos mil mortos em 2005), mas, sobretudo, pela incrível disparidade de oportunidades que um africano tem frente à doença em comparação com um paciente que vive em regiões mais ricas do planeta. Cada vez mais, a Aids e as outras duas doenças chamadas de big killers (malária e tuberculose que, juntas, matam quase 3 milhões de pessoas por ano), parecem dar fundamento à denúncia de James Orbinski, ex-presidente da organização Médicos Sem Fronteiras (Prêmio Nobel da Paz em 1999) à imprensa anos atrás: “estou cansado de ver morrer mulheres, crianças e homens, enquanto eu sei que existe um tratamento eficaz e que poderia estar ao alcance deles. Estou cansado de ver que o lucro sempre ganha sobre o direito à saúde. Não agüento mais essa lógica na qual quem não pode pagar, morre”. A região subsaariana, apesar de representar apenas 11% da população mundial, hospeda mais de 60% das pessoas com HIV do mundo. Os números são difíceis de estimar: os governos de alguns países foram acusados de divulgar dados subestimados, enquanto, por outro lado, há quem considere superestimados os números fornecidos pelas Nações Unidas ou pelas organizações humanitárias. O mais recente relatório da Unaids, a entidade das Nações Unidas para luta contra Aids, afirma que existem entre 24 e 29 milhões de pessoas com HIV/Aids na região subsaariana. No mundo, a Aids representa a quarta causa de morte. Na África, é a primeira. Enquanto prevenção e terapias estão conseguindo controlar a doença na Europa ocidental, nos Estados Unidos, no Brasil, nos países mais pobres, e de forma particularmente desesperadora na África, tudo isso parece não estar funcionando. Por quê? Por que a difusão da Aids, na maioria dos países da região, não se reduz? Por que a doença ainda mata milhões? “É uma situação que permaneceu quase inalterada nos últimos anos”, explica Stefano Vella, médico do Instituto Superior de Saúde italiano e ex-presidente da International Aids Society (IAS). “Recentemente, novidades sobre a difusão da epidemia vieram da Ásia e do leste europeu: em países como China, Índia e Rússia, o HIV está crescendo num ritmo elevadíssimo, e a situação é de extrema gravidade. Mas na África, onde há países com prevalência da doença superior a 35%, a situação tem proporções catastróficas”. Até agora, 20,4 milhões de africanos morreram de Aids, deixando 12 milhões de órfãos. Em um total de 4,9 milhões de pessoas que, no ano passado, contraíram o vírus no mundo, 3,2 milhões vivem no continente. A difusão do HIV na região subsaariana é incomparável com a de qualquer outra parte do mundo. A porcentagem de pessoas com HIV/Aids é cerca de 7% (10 vezes a do Brasil), chegando acima de 20% em alguns países (como Zimbabwe e África do Sul), ou até acima de 30% (em Botswana ou Swaziland). “A dramática difusão da Aids na África é causada por vários fatores”, comenta Vella, que é também membro do Painel Técnico do Fundo Global, entidade criada em 2002 em busca de recursos para o combate aos três big killers no mundo. “Em primeiro lugar, o HIV é difuso no continente por uma razão óbvia: foi onde surgiu. É uma doença antiga para a África, e teve muitos anos para se espalhar, quando ainda era desconhecida. Como acontece com todas as epidemias, quando se supera um determinado limite de prevalência, a difusão se torna comum. Pensemos na gripe: se muitas pessoas ao nosso redor já pegaram, fica menos raro entrar em contato com o vírus. Outros fatores, na África, são a falta de informação e um número de relações sexuais elevado. Além disso, fatores econômicos que geram grandes migrações e prostituição nas cidades maiores, ou fatores políticos como os êxodos devidos às guerras, causam a difusão do vírus”. Mas por que a prevenção e os fármacos que estão permitindo controlar a doença em muitos países não conseguiram atacar a Aids no continente africano? Parte da reposta é simples, apesar de ligada a múltiplos fatores: remédios e prevenção não chegam à população. Valéria Almeida, médica infectologista do Centro de Referência DST/Aids de Campinas (SP), passou dois meses em Moçambique no âmbito de um projeto da Universidade de Columbia, financiado com dinheiro do governo dos Estados Unidos, e voltado à para instalação de estruturas e treinamento de recursos humanos. “É só chegar para se dar conta da dificuldade da situação: têm poucas escolas de medicina no país, muito poucos médicos e pouquíssima experiência com as terapias anti-retrovirais”. Paradoxal, num país onde 14% da população está contaminada pelo HIV. “Às vezes, falta simplesmente tudo: os médicos, as luvas, até a água”, acrescenta a médica. Almeida trabalha em Campinas numa estrutura que, graças ao trabalho conjunto de ONGs e prefeitura, mostrou uma atuação extraordinária na prevenção, acompanhamento e tratamento da Aids e das outras doenças sexualmente transmissíveis, e ficou impressionada com a situação africana. “Quando têm remédios”, continua, “faltam recursos para tratar as infeções oportunistas, ou faltam os instrumentos necessários para medir a carga viral e acompanhar a terapia. Quando se têm tais instrumentos, muitos médicos não sabem usá-los simplesmente porque nunca tiveram a oportunidade de ver um. Além disso, a prevenção é difícil. Para dar um exemplo, não há distribuição gratuita de preservativos”. Não há prevenção sem diálogo “Sem o diálogo com as culturas locais, não há eficácia na prevenção e cura”, enfatiza Silvia Zaccaria, antropóloga italiana. “Por um lado, o problema de falta de estruturas e de acesso aos fármacos, é dramático. Mas um problema grave é também o do choque entre o saber ocidental e o conhecimento local”, acrescenta a voluntária, que trabalhou um ano em Malawi, num projeto de prevenção e sensibilização junto às comunidade locais, com a ONG italiana Movimondo. “Em muitas regiões”, continua, “as escolas islâmicas tendem a ser demonizadas e excluídas, pelos operadores internacionais, de qualquer forma de diálogo, impedindo assim seu envolvimento como possíveis lugares de difusão de práticas de prevenção. O mesmo acontece com figuras tradicionais tais como curandeiros ou lideranças religiosas. Como resultado, parte da população animista ou muçulmana se recusa a ir para as estruturas ocidentais de educação e prevenção, encarando-as como uma forma de chantagem cultural, um ataque à sua própria visão de mundo”. “A prevenção na África”, confirma Stefano Vella, “não pode funcionar do mesmo jeito que em países ocidentais. O preservativo, por exemplo, é instrumento fundamental, mas é sem dúvida ‘pouco africano’. Não é fácil que esse pedaço de borracha entre numa tradição como a africana, também porque é um instrumento de uso masculino. A condição feminina na maioria dos países torna muito difícil para uma mulher se proteger dessa forma. São importantes, então, também microbicidas vaginais”. Ainda segundo Silvia Zaccaria "muitas organizações estão finalmente abrindo o diálogo com os atores locais: é preciso recomeçar pelas formas tradicionais de cuidado do doente, valorizar as práticas de cura domiciliar. Não podemos construir um hospital a cada 30 km, nem chegar a padrões ideais que nem na Europa existem. É preciso reforçar as redes de solidariedade, utilizar as pessoas que, tradicionalmente, sempre praticaram o cuidado aos doentes”. “Obviamente”, continua Stefano Vella, “precisamos achar uma vacina. Mas devemos ser claros: a vacina não existe. E não existirá pelos próximos vinte anos. A prevenção então é absolutamente prioritária. E prevenção existe se é ligada aos costumes e à religião locais. Prevenção significa também enfrentar o problema da pobreza, da educação, da condição feminina”. Os preços da Aids O custo, para conseguir isso, é alto. Mesmo assim, não chega a 2% dos gastos militares anuais no mundo. O ataque ao Iraque custou cerca de um bilhão de dólares por dia. No mesmo período, para enfrentar a Aids nos países pobres, era necessário 10 bilhões por ano, que os governos do mundo não conseguiram fornecer. Hoje, um relatório da Unaids afirma que os recursos globais para enfrentar a doença em países pobres, incluindo prevenção, terapias, apoio e cuidado com órfãos, deveriam ser de cerca de 15 bilhões de dólares para 2006, 18 bilhões em 2007, 22 em 2008. Os governos dos países ricos até agora não conseguiram prometer a metade das cifras necessárias, e disponibilizaram menos ainda (cerca de 6 bilhões de dólares em 2004). Por outro lado, os antigos regimes coloniais de muitos países africanos têm responsabilidades gravíssimas. As ditaduras, guerras civis e corrupção, na maioria dos países do continente, fizeram com que os governos nada investissem em educação, saúde e infra-estrutura. O resultado é que o impacto da Aids na África está sendo avassalador, e vem abatendo inúmeros setores estruturais da sociedade. O sistema de saúde está em colapso. Nos hospitais, a Aids causou uma carência crônica de camas e vagas, fazendo com que possam ser internadas apenas pessoas em condições críticas, com pouca chance de cura. Já não há médicos e enfermeiros suficientes, porque a doença foi crescendo também entre os profissionais da saúde. Um número muito elevado de famílias se dissolveram devido à morte de um ou ambos os pais. Muitas famílias têm hoje como chefe uma criança. A produção de comida também está caindo radicalmente, porque muitas famílias abandonam o cultivo da terra devido à doença. Os custos com saúde podem subir até 400% se um membro da família tem Aids. Inúmeras crianças devem abandonar a escola, criando uma espiral que causa ulterior aumento da difusão da Aids, sendo que acesso à educação representa um dos principais fatores de prevenção da doença. Ao mesmo tempo, muitos professores já adoeceram, e muitos morrem a cada ano. Enfim, a grande maioria das pessoas com HIV/Aids têm entre 15 e 50 anos de idade, e a doença afeta assim dramaticamente a força de trabalho, abalando parte da possibilidade de desenvolvimento econômico. O Banco Mundial estimou que em muitos países africanos o crescimento do PIB vai cair sensivelmente, nos próximos anos, por causa da Aids. E a expectativa de vida nos países subsaarianos teve um regresso nunca visto: sem Aids era de 62 anos. Hoje, caiu para 47. Salvar gerações “Se queremos evitar que desapareçam gerações inteiras”, comenta Vella, “prevenção não basta: é absolutamente necessário levar estrutura e remédios”. Os Médicos Sem Fronteiras (MSF) lutam há anos em prol do direito de acesso aos fármacos nos países pobres. A ONG, criada na França em 1971, para assistir populações vítimas de guerras, epidemias e fome, lançou em 1999 uma Campanha de Acesso a Medicamentos Essenciais, à qual destinou os recursos recebidos com o Prêmio Nobel da Paz. Segundo a organização, os preços continuam sendo um dos maiores obstáculos ao acesso aos medicamentos na África. Em 2000, por causa das patentes, uma terapia anti-retroviral custava 10 mil dólares por ano para cada paciente. Um custo impossível de enfrentar. Hoje, como se lê nos relatórios da MSF, graças aos genéricos (produzidos na Índia, China e Brasil), a terapia custa entre 200 e 600 dólares ao ano por pessoa, e, em alguns casos, pode chegar a menos de 150 dólares. “O problema das patentes”, comenta Vella, “foi, pelo menos parcialmente, atenuado graças aos genéricos. Além disso, as indústrias farmacêuticas começaram a entender que é conveniente vender drogas a preço reduzido na África. Mas o gasto continua sendo impossível para muitos países”. Médicos da MSF afirmam que o custo deve e pode baixar até 50 dólares por paciente ao ano. No final deste mês de abril, a ONG denunciou que a farmacêutica Abbot não disponibilizou para os países pobres, como prometido, uma nova versão do medicamento Kaletra (lopinavir/ritonavir), muito importante por sua estabilidade em altas temperaturas. “O Fundo Global”, diz Vella, “insiste em exigir os recursos prometidos pelos países ricos. O acesso aos fármacos é, simplesmente, questão de vida ou de morte. Também é crucial ter dinheiro para estruturas. O Brasil foi um dos primeiros países capazes de mostrar que acesso aos fármacos, apesar de caro, compensa, porque reduz radicalmente os custos hospitalares, evitando o colapso do sistema de saúde. Seria importante que os países ricos, que sempre encontram o dinheiro necessário para fazer uma guerra, percebessem a importância disso. Não é só um problema humanitário: a Aids ensina que doenças surgidas em países 'longínquos' não ficam muito tempo longe dos ricos”. Vivemos hoje num mundo dominado pelo apartheid da saúde. Quem não pode pagar, freqüentemente não tem direito à cura: “no cash, no cure”, sintetizou com amargura Gro Harlem Brundtland, ex-diretora da Organização Mundial de Saúde. Um provérbio africano diz: “o momento melhor para plantar uma árvore é 40 anos atrás. O segundo melhor momento é agora”. Agora, se for impossível, como parece, cortar centavos de cada dólar gasto no mundo para experiências militares (cerca de 750 bilhões de dólares em 1999, de acordo com a CIA) ou deixar intacto 99,95% do PIB mundial e destinar o resto à emergência da saúde na África, o continente parece destinado a sofrer um impacto de proporções nunca vistas. E o verdadeiro nome das doenças big killers continuará sendo: genocídio.  Fonte: http://www.comciencia.br/comciencia/handler.php?section=8&edicao=13&id=114 Consultado em 23/02/2007

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abril 2006

Povo Katukina faz alerta contra uso indevido do kampô, a “vacina do sapo”

2017-01-10T17:18:26-03:00abril 27, 2006|Categories: Acervo|

Índios do Alto Juruá, no Acre, divulgam carta denunciando o uso não autorizado de seu nome na comercialização da secreção da perereca Phyllomedusa bicolor, cuja aplicação tem sido divulgada nas grandes cidades do País como uma terapia indígena milagrosa. Enquanto isso, a substância e suas moléculas são patenteadas no mundo todo e o governo federal tenta fazer do kampô um caso emblemático de repartição de benefícios associados aos recursos genéticos da biodiversidade brasileira. A popularização do uso da secreção da perereca kampô (Phyllomedusa bicolor) nas grandes cidades brasileiras começa a preocupar os mais antigos detentores deste conhecimento, os Katukina, povo indígena do Alto Juruá, no Acre. No começo deste mês, a Associação Katukina do Campinas (Akac) divulgou uma carta solicitando que as pessoas que fazem a prática comercial da “vacina do sapo”, como a substância é conhecida, não utilizem o nome da etnia como forma de “legitimar” a atividade. A carta é direcionada em especial a duas terapeutas, uma de São Paulo e outra de Belo Horizonte, citadas nominalmente no documento, que estariam valendo-se do nome da Akac para divulgar a aplicação da substância e lucrar com isso. No documento, os Katukina também afirmam que a comercialização do kampô trouxe problemas para a comunidade indígena e pedem que a prática seja encerrada. Leia aqui a carta na íntegra. A perereca kampô é um elemento importante na cultura dos índios do Alto Juruá, no Acre A associação indígena enviou cópias da carta aos escritórios da Polícia Federal e do Ministério Público Federal, em Rio Branco, e deu vinte dias para que o uso indevido do kampô em nome dos índios fosse abandonado. O prazo se encerrou ontem, 26 de abril. “Estamos preocupados porque não autorizamos ninguém a usar nosso saber. A polícia e o Poder Judiciário precisam saber disso”, afirma Fernando Katukina, vice-presidente da Akac. O líder indígena esclarece que a preocupação é em relação ao uso do nome de seu povo na venda das aplicações da secreção da jia. “Tem muita gente se promovendo em cima do nosso povo, mas nós queremos que o kampô seja utilizado de forma legal, com respeito ao nosso conhecimento e sem estimular a biopirataria”. Os Katukina utilizam a secreção principalmente como um estimulante capaz de aguçar os sentidos dos caçadores, para que a busca por alimento na mata seja bem-sucedida. Quem sofre de panema (azar na caça), portanto, é tratado com aplicações da substância. A antropóloga Edilene Coffaci de Lima, da Universidade Federal do Paraná, uma das maiores estudiosas da etnia, explica que, fora do contexto da caça, homens e mulheres Katukina também fazem uso do kampô. “Desde muito cedo, entre o primeiro e segundo ano de vida uma criança começa a receber o kampô, quase sempre por iniciativa dos avós”, descreve. O conhecimento tradicional dos índios faz da retirada da secreção da jia uma delicada operação A antropóloga afirma que “este uso moderado é feito para aliviar indisposições diversas, como diarréias e febres ou sonolência, que tiram o ânimo das pessoas para o desempenho das atividades mais simples. Mas, ainda que se queira debelar o incômodo físico que diversas patologias causam, o uso do kampô é determinado muito mais pela avaliação moral que se faz do desânimo que proporcionam. Afinal, depois de ser recomendado como estimulante aos caçadores, o kampô é recomendado àqueles que padecem de preguiça (tikish)”. Panacéia da floresta Nos últimos anos, o uso do kampô tem se popularizado entre a população das grandes cidades brasileiras como uma milagrosa terapia indígena. Em folhetos de divulgação, a substância é classificada como um poderoso energizante e fortalecedor do sistema imunológico, uma verdadeira panacéia, capaz de tratar doenças do coração em geral, hepatite, cirrose, infertilidade, impotência, depressão, entre outras enfermidades. De acordo com o material de divulgação, o kampô seria eficaz até mesmo no tratamento de câncer e AIDS. Cada aplicação da secreção do anfíbio – feita sobre pequenas feridas abertas na pele do usuário a partir de queimaduras - custaria até R$ 120,00. A popularização do kampô também se valeu de inúmeras reportagens em televisão e revistas, produzidas a partir da experiência de jornalistas que se submeteram aos efeitos da substância. A maioria dos narradores descreve que, após receber a aplicação do kampô, sente em poucos minutos um forte mal-estar, acompanhado geralmente de vômitos. Em seguida, o kampô provocaria uma sensação de revitalização de todo o organismo e aguçamento dos sentidos. Em 2004, o uso indiscriminado da secreção cresceu tanto que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) proibiu sua propaganda, que vinha sendo feita principalmente na internet. Meses antes, em abril de 2003, as lideranças da Terra Indígena Campinas/Katukina já haviam solicitado oficialmente ao governo federal que tomasse providências para proteger e valorizar o uso tradicional do kampô pelos índios. Além dos Katukina, os Yawanawá, Kaxinawá e Marubo, entre outros povos indígenas, também têm no kampô um elemento cultural importante. A demanda dos Katukina levou o Ministério do Meio Ambiente (MMA) a elaborar um projeto para, a partir do caso do kampô, aprimorar o acesso aos recursos genéticos da biodiversidade brasileira e a repartição de benefícios aos detentores dos conhecimentos tradicionais associados. Moléculas patenteadas O projeto conta com diversas parcerias governamentais e não-governamentais e também tem, entre seus objetivos, “contribuir para a estruturação sustentável da cadeia produtiva da ‘vacina do sapo’, promovendo estudos dos efeitos da aplicação da substância sobre a sustentabilidade sociocultural e ambiental, com vistas a se iniciar um processo que contribua para a análise da possibilidade de validação do uso não-tradicional e a proteção do uso tradicional desse etnofármaco”, conforme texto do próprio ministério. Em outras palavras, o projeto visa combater a biopirataria do kampô e desenvolver pesquisas que resultem em medicamentos a partir da secreção daquele anfíbio. Segundo levantamento feito pela ONG Amazonlink, existem dez pedidos de patentes sobre a Philomedusa Bicolor feitos por laboratórios, universidades ou centro de pesquisas em escritórios de patentes no exterior. Um dos coordenadores do projeto, Bruno Filizola, do Programa Brasileiro de Bioprospecção e Desenvolvimento Sustentável de Produtos da Biodiversidade (Probem), do MMA, afirma que a secreção da perereca tem cerca de 200 moléculas com potencial comercial e que existem pelo menos 80 pedidos de patente sobre o gênero Philomedusa, em escritórios de patentes no mundo todo. Os registros recaem principalmente sobre moléculas com potencial antimicrobiano. A própria Empresa Brasileira de Pesquisa e Agropecuária (Embrapa), que faz parte do projeto governamental sobre o Kampô, tem a patente de uma outra espécie de sapo, cuja secreção também tem propriedades com potencial para a produção de medicamentos. Alguns pesquisadores da Embrapa, inclusive, não reconhecem que existe conhecimento tradicional associado ao uso do kampô. Argumentam que a “ciência” já havia chegado ao conhecimento sobre as propriedades do gênero Philomedusa, independentemente do conhecimento dos índios do Acre. “Realmente muitos cientistas ainda não internalizaram os princípios da CBD (Convenção da Biodiversidade)”, reconhece Filizola. A CBD prevê a repartição de benefícios do acesso aos recursos genéticos da biodiversidade aos detentores de conhecimentos tradicionais associados a estes recursos. “A transformação deste bem cultural dos índios em bem de mercado certamente vai gerar impactos nas comunidades indígenas. Por isso queremos viabilizar a cadeia produtiva do kampô”, diz Bruno Filizola. O advogado do ISA, Fernando Mathias, questiona a eficácia do projeto do governo brasileiro em um caso no qual “a biopirataria já se consumou”. “O que o governo vai fazer em relação às patentes que já existem? Esse passivo vai ser objeto de negociação entre os índios e as empresas? Vai haver espaço para discutir a quebra ou ao menos a abertura das patentes já concedidas ou os índios vão apenas receber um troco em troca da privatização de seus conhecimentos e do patrimônio genético brasileiro?”, pergunta. “Se o que de fato prevalece neste e outros casos são os interesses das corporações transnacionais farmacêuticas, este projeto do governo corre o risco de não passar de uma cortina de fumaça no campo da repartição de benefícios”.  Fonte: http://www.socioambiental.org/nsa/detalhe?id=2247 Consulta em 17/11/2006

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Brasil ainda convive com doenças “antigas”

2017-01-10T17:18:26-03:00abril 12, 2006|Categories: Acervo|

País teve 591 mil casos de malária em 2005, igual a década de 70 A expansão da fronteira agrícola com o sucesso do agronegócio e o crescimento dos cinturões de pobreza em torno das cidades se somaram às deficiências do sistema de saúde pública para tornar mais difícil o combate às doenças transmissíveis no Brasil. Enquanto a aids é alvo de uma elogiada campanha no país, moléstias típicas do subdesenvolvimento resistem aos esforços e metas do governo. Doenças que se julgava controladas ameaçam até as capitais mais ricas, como a dengue no Rio de Janeiro. No ano passado, o Brasil registrou 591 mil casos de malária, doença extremamente concentrada na Amazônia. É irregular o quadro apresentado pelo Brasil em relação às chamadas doenças "negligenciadas", de pouco interesse para os laboratórios internacionais por afetarem principalmente os mais pobres. O país conseguiu reduzir o número de casos de algumas doenças, como difteria, que contaminava milhares de pessoas na década de 80 e hoje não chega a duas dezenas de casos por ano; ou o cólera, responsável por muitas epidemias - a de 1993 matou 670 pessoas. Desde 2001 não há mortes por cólera no país, e, nos últimos dois anos episódios isolados foram logo controlados, embora a presença do vibrião do cólera tenha sido constatada em fontes de água, o que preocupa os responsáveis pela vigilância. As campanhas contra doenças para as quais existem vacinas são elogiadas pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Mas mudanças no ecossistema, provocadas pela expansão da agricultura, ameaçam de retorno doenças já controladas. O caso mais exótico é o da raiva humana. Em regiões de pecuária, a retirada dos animais para abate leva os morcegos a atacar a população, que antes considerava esse bicho inofensivo ao homem. Em 2005, houve apenas um caso de raiva humana no país, mas os relatos de ataques de morcegos deixaram a vigilância sanitária em alerta. Especialistas temem que mudanças nas formas de transmissão de doenças como essa, somadas ao despreparo e falta de estrutura dos responsáveis pelo atendimento básico, provoquem casos não detectados pelo sistema de saúde, o que poderia levar a surtos no futuro. Um motivo sério de preocupação é a doença de Chagas: mal o Brasil pôde comemorar a extinção do principal vetor da doença, o barbeiro que infestava casas na zona rural, o sistema de saúde começou a receber pacientes contaminados por um parente do inseto, que vive em plantas como a palmeira do açaí na Amazônia. Durante a fabricação do suco de açaí, ou do caldo de cana, o bicho pode ser triturado, espalhando o protozoário causador da doença. Foi esse o processo que levou a um surto em Santa Catarina, por causa da preparação de caldo de cana em condições de higiene pouco recomendáveis. Neste mês, o Brasil conseguiu certificar o último município como livre do barbeiro, algo que a Argentina não conseguiu até hoje. Especialistas independentes, como Christina Zackiewickz, da organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras, temem, porém, que os novos vetores driblem o sistema de vigilância e espalhem a doença. Mais séria é a ameaça da malária, doença que já deu ao Brasil, nos anos 40, o recorde de casos - quase 6 milhões ao ano- e que no ano passado gerou um número de doentes semelhante ao do auge do expansionismo das estradas e garimpos na Amazônia dos anos 70. Em 1999, devido à excessiva centralização e à ineficiência dos métodos de prevenção - muito concentrados na dedetização de focos de mosquitos - o país chegou a ter mais de 635 mil casos. Isso exigiu um programa dirigido do governo, que reduziu o número a 348 mil em 2002. Desde então, a doença - concentrada na Amazônia - voltou a se alastrar. Em 2005, 591 mil casos foram identificados Nesses caso, além de condições de clima que facilitaram a proliferação dos mosquitos, três fatores principais podem ser identificados: o crescimento desordenado de cidades como Manaus, o fracasso de assentamentos rurais criados sem assistência (nem atendimento médico) às margens de florestas, e o fiasco do projeto de pequenos empreendimentos de pesca em criatórios, responsáveis por milhares de tanques próximos a cidades na região amazônica, hoje locais de proliferação do mosquito transmissor da doença. "O problema da malária não está no sistema de saúde, mas em questões econômicas", comenta o secretário de Vigilância de Saúde, Jarbas Barbosa. Manaus, lembra ele, cresceu a um ritmo quase cinco vezes superior à taxa média no Brasil. Barbosa espera ver, em 2006, uma queda nos casos da doença, hoje monitorada em quase 2 mil pontos de controle no país. Os dados do início do ano mostram redução dos registros da doença em todos os Estados da Amazônia, à exceção do Acre. Para o especialista Pedro Luiz Tauil, do Núcleo de Medicina Tropical da Universidade de Brasília, a malária é um exemplo de uma dificuldade recorrente no Brasil: o sucesso no combate a alguma doença costuma fazer com que se relaxe a prevenção (já constrangida habitualmente pelas restrições orçamentárias) e abre caminho para novo surto. Após 1999, quando o Brasil chegou a abrigar metade dos casos de malária nas Américas, o governo fez seguidas reuniões com governadores e prefeitos, para estimular campanhas contra a doença. "Com os planos intensos em 2001 e 2002 a incidência caiu pela metade, mas então o mal saiu da agenda política e o número de casos voltou a subir", diagnostica Tauil, que há 35 anos lida com doenças tropicais. Em 2002, com a mudança do governo, interrompeu-se o Programa de Intensificação das Ações de Controle da Malária, que articulava o governo e os responsáveis pelas ações, os Estados e municípios. O efeito foi imediato. Em 2004, os casos já subiram para cerca de 411 mil, com 90 mortes, bem mais do que as 77 de 2002. A malária e outras doenças transmissíveis nunca serão erradicadas do país, por se disseminarem entre animais dos reservatórios naturais da fauna nacional. Isso obriga o governo a campanhas freqüentes de prevenção e localização dos casos, para evitar a propagação da doença por pessoas infectadas. Melhor sucesso se conseguiu com a febre amarela silvestre, graças a uma campanha sistemática de vacinação que, após um surto em Minas Gerais, com assustadores 64 casos em 2003, levou o país a registrar somente cinco casos em 2004 e três em 2005. O ecoturismo ameaça trazer a doença de volta às cidades, o que exigiu das autoridades sanitárias campanhas de vacinação dirigidas aos visitantes da Amazônia e regiões de cerrado, como as chapadas do Centro-Oeste.  Fonte: http://www.camara.gov.br/ronaldocaiado/NG20060412.htm Consultado em 15/02/2007

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