junho 2005

Ativistas não se surpreendem com nota da Interfarma sobre Kaletra. Governo garante ter condições de produzir genérico de qualidade

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 29, 2005|Categories: Acervo|

Em nota divulgada ontem para a imprensa e publicada na edição desta quarta-feira, 29, do Correio Braziliense, o presidente executivo da Interfarma, Gabriel Tannus, lamentou a medida adotada pelo governo declarando o Kaletra, anti-retroviral usado no tratamento da Aids, de interesse público. Tannus afirmou que “o Brasil, ao desrespeitar patente do Kaletra, não vai favorecer os doentes de Aids. Sua visão chega ao futuro, e quem vai perder é o país, visto que, dentro de pouco tempo, o remédio estará ultrapassado. O resultado de novas pesquisas mostrará a ineficácia da licença compulsória. Acrescenta que os medicamentos pagos no Brasil são os mais baratos do mundo, perdendo para os países africanos e o Haiti. Nós da Interfarma, não conhecemos nenhum paciente no mundo que esteja em tratamento com uma versão não original de Kaletra. Portanto, os brasileiros serão os primeiros a testar este genérico, assumindo também seus riscos.” A declaração não surpreendeu o presidente do Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo, Rubens de Oliveira Duda. Duda afirmou que ficaria surpreso se os laboratórios dissessem o contrário e ressaltou que o objetivo do movimento social nunca foi quebrar as patentes dos remédios, mas sim garantir o acesso aos medicamentos. “Se o governo fechar um acordo para a compra do Kaletra com 70% de desconto por cinco anos, nós apoiaremos esta decisão. A gente não acredita que o preço cobrado hoje seja um preço justo”, declarou. Já o coordenador de projetos em DST/Aids do Instituto Viva a Vida, Davi Barros, não acredita que a indústria farmacêutica cessará os investimentos nas pesquisas de novos medicamentos. “Se o Brasil decretar a licença compulsória do Kaletra, os doentes de Aids do mundo inteiro vão pagar por isso?”, perguntou. Barros acrescentou que também não acha que o Programa Nacional de DST/Aids colocaria em risco a vida dos pacientes, nem a sua imagem de melhor programa de Aids do mundo, fornecendo aos soropositivos remédios de qualidade inferior. O ativista demonstra apenas preocupação com a capacidade do Programa Nacional continuar fornecendo o medicamento caso seja adotada a licença compulsória, uma vez que a produção do mesmo começaria no prazo de aproximadamente um ano, segundo o Ministério da Saúde. A assessoria de imprensa do Ministério da Saúde informou que existe um contrato com a Abbott para fornecimento do Kaletra até meados do ano que vem, tempo suficiente para que seja preparada e iniciada a produção do medicamento no país. Ainda segundo a assessoria, não há razão para que o laboratório quebre este contrato, porque a medida adotada pelo Brasil ao declarar o medicamento de interesse público é totalmente legal. Mesmo que haja uma quebra de contrato, não haverá desabastecimento pois, nesse caso, o Brasil estará respaldado para importar o genérico de outros países, garantiu a assessoria. O diretor adjunto do Programa Nacional de DST/Aids, dr. Ricardo Pio Marins, declarou que algumas empresas estrangeiras foram contatadas e possuem estoque do genérico do Kaletra. “Se existe estoque, é porque existe venda. E se existe a venda, é porque existem pessoas se tratando com o medicamento.” Marins ainda assegurou que o Brasil tem um histórico de produção de genéricos e não teria o sucesso que tem hoje no tratamento dos pacientes se os medicamentos não fossem de boa qualidade. “O Farmanguinhos realiza testes de bio-equivalência e bio-disponibilidade como qualquer laboratório dos Estados Unidos. Não tentaríamos fazer algo que não temos condições de fazer”, afirmou Marins. A assessoria de imprensa da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) considera equivocada a declaração de Tannus de que os brasileiros serão os primeiros a testar o genérico, assumindo também os riscos. Segundo a Agência, os testes realizados para a aprovação do genérico são laboratoriais e os pacientes só terão acesso a ele depois de totalmente aprovados, ou seja, se houver garantia de que ele tem a mesma eficácia do original. Fonte: http://www.sistemas.aids.gov.br/imprensa/Noticias.asp?NOTCod=65814 Consultado em 12/02/2007

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EUA “atentos” à quebra de patente de medicamento para aids

2016-02-02T20:46:04-03:00junho 29, 2005|Categories: Acervo|

WASHINGTON - O governo americano informou ontem estar "monitorando atentamente" a quebra de patente de medicamento para a aids decidida pelo Brasil. Segundo um integrante da área comercial do governo americano, "tanto a embaixada em Brasília quanto Washington estão monitorando o assunto de perto". Mas a fonte afirmou ao Valor que "os Estados Unidos são um líder não apenas no desenvolvimento de novos medicamentos, mas também assegurando que os países tenham flexibilidade para usar os instrumentos possíveis, dentro das regras, para combater crises de saúde pública". O governo americano vem recebendo pressão das companhias farmacêuticas para reagir à iniciativa do Ministério da Saúde brasileiro de quebrar a patente do medicamento Kaletra, do laboratório Abbott. Mas o fato de o Brasil estar usando a licença compulsória prevista num acordo aprovado pela OMC não deixa margens a retaliações comerciais diretas.  Fonte: http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISDA56F374ITEMID9AC4E75F8ADF4232AE26DDA3868AF2C6PTBRIE.htm Consultado em 12/02/2007

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G8 e ONU devem defender acesso a novas drogas anti-aids

2016-02-02T20:46:04-03:00junho 29, 2005|Categories: Acervo|

Os países ricos e a Organização Mundial da Saúde (OMS) devem adotar providências rápidas para garantir que os medicamentos mais recentes contra a Aids cheguem a preços baixos aos países pobres, disse na quarta-feira a organização Médicos Sem Fronteiras (MSF). O grupo afirmou que medidas como a quebra de patentes de grandes laboratórios é vital para impedir uma crise de oferta e preços. "O acesso às drogas mais novas é cada vez mais importante, pois um crescente número de soropositivos atualmente sob tratamento irá inevitavelmente desenvolver resistência aos tratamentos de primeira linha", disse o MSF em nota divulgada em Genebra. O grupo sugere ainda que os líderes do G8 (clube das nações industrializadas mais ricas), que se reúnem na próxima semana na Escócia, apóiem a idéia do licenciamento compulsório das patentes, o que permitiria que os governos dos países mais pobres fabriquem versões genéricas dos medicamentos. O texto foi divulgado no momento em que a OMS, agência da Organização das Nações Unidas (ONU), informa que, apesar de milhões de pessoas dos países desenvolvidos estarem recebendo medicamentos contra a Aids, é improvável que o mundo atinja sua meta de triplicar o alcance dos tratamentos até o final de 2005. O MSF, que atualmente fornece drogas anti-retrovirais a 35 mil pessoas de cerca de 30 países, disse que está pagando "preços exorbitantes" a empresas que detêm as patentes dos medicamentos mais recentes. Na última edição do seu guia sobre preços dos medicamentos para Aids, o MSF disse que os medicamentos de segunda linha estão custando de seis a 12 vezes mais do que os tratamentos mais antigos nos 49 países menos desenvolvidos do mundo e em toda a África subsaariana. O grupo disse que, entre os 1 milhão de pacientes atualmente sob tratamento e os 5,5 milhões ainda não tratados atualmente, muita gente precisará ter acesso aos medicamentos mais novos nos próximos anos. "É urgente decidir qual será o preço final das drogas nos próximos anos e quem vai arcar com isso", disse Felipe García de la Vega, especialista em Aids do MSF. Embora os países do G8 estejam discutindo como garantir o acesso universal aos anti-retrovirais, "isso continuará sendo uma meta impossível caso os preços continuem a subir", disse ele. "É vital que governos e organizações internacionais como a OMS adotem e encorajem medidas imediatas -- como o licenciamento compulsório -- que permitam aos países produzirem ou importarem genéricos mais acessíveis." O Brasil, que tem um importante programa de tratamento contra a Aids e uma crescente indústria farmacêutica, anunciou a primeira licença compulsória, de uma patente do laboratório norte-americano Abbott, para a produção do anti-retroviral Kaletra. O ministro da Saúde, Humberto Costa, disse que o medicamento será distribuído gratuitamente, como ocorre com outros tratamentos contra a Aids, e poderá ser produzido a 68 centavos de dólar por comprimido, quase metade do 1,17 dólar hoje pago à Abbott. O MSF disse que o atual sistema de preços dos anti-retrovirais, pelos quais os laboratórios dão descontos voluntários aos países mais pobres, "não é suficiente para garantir o acesso aos remédios agora ou no futuro". A entidade afirma ainda que os laboratórios não produzem medicamentos adequados a crianças, que alguns tratamentos são monopólio de um só laboratório e continuam muito caros, apesar dos descontos, e que muitas drogas não são distribuídas em todos os países que delas necessitam. Fonte da notícia: http://www.sistemas.aids.gov.br/imprensa/Noticias.asp?NOTCod=65817 Consultado em 15/02/2007

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Costa assume unaids e reforça pressão por quebra de patentes

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 28, 2005|Categories: Acervo|

Ministro diz que discussão com fabricantes de anti-retrovirais prosseguirá, mesmo com reforma ministerial. O ministro da Saúde, Humberto Costa, assumiu ontem em Genebra a presidência do Conselho da Unaids, agência da ONU para o combate à aids. O Brasil deve usar a presença no cargo, durante os próximos 12 meses, para fortalecer sua estratégia de luta contra a doença e influenciar políticas para melhorar o acesso a remédios por países em desenvolvimento. Costa aproveitou sua passagem pela Suíça para garantir que a quebra de patentes anunciada na sexta-feira em relação ao remédio Kaletra, do laboratório Abbott, será mantida mesmo diante de uma reforma ministerial e o prazo dado à empresa de dez dias começou a correr ontem. "Se outras empresas não atenderem aos nossos pedidos, vamos emitir as licenças compulsórias", afirmou o ministro, que garante ter apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da própria Unaids em sua decisão de quebrar a patente. O governo optou por essa estratégia depois de meses de negociação sobre os preços de remédios. Brasília solicitou que a Abbott, além de duas outras companhias, emitissem licenças voluntárias para que o governo pudesse produzir os remédios para o coquetel antiaids. A Abbott se recusou e agora poderá perder sua patente. Apressado para voltar ao País para acompanhar a reforma ministerial, Costa permaneceu pouco mais de cinco horas presidindo o conselho da Unaids e, no fim da tarde de ontem, retornou ao Brasil. Ele fez questão, porém, de chamar a mídia internacional para explicar a quebra da patente do Kaletra. "Trata-se da primeira licença compulsória emitida no mundo para remédios contra aids. Nossa decisão é legal", afirmou. NOTIFICAÇÃO Ontem, um advogado do Ministério da Saúde foi a São Paulo entregar a notificação à Abbott. Costa ainda afirmou estar aberto para dialogar com a empresa, mas apenas se ela aceitar as condições do governo: emitir a licença voluntária e reduzir seus preços de US$ 1,17 por unidade para US$ 0,68 enquanto ocorra a transferência de tecnologia para a fabricação do remédio no Brasil. "Se não aceitarem as condições, emitiremos licenças compulsórias", afirmou Costa, que deixou claro que o País pagará, ainda assim, US$ 1,5 milhão em royalties pela quebra de patentes. Costa espera que as demais empresas que são alvo de uma negociação com o governo, a Merck e a Gilead, entendam o recado do governo. "Esperamos que a decisão sobre a Abbott estimule as outras empresas a negociar de um forma mais rápida." Segundo ele, uma dessas empresas já aceitou dar a licença voluntária, mas não ficou acertado como ocorreria. O diretor da Merck, João Sanches, afirmou estar "frustrado" com a atitude do governo em declarar interesse público para o medicamento da Abbott. Sanches disse que a medida trará impacto negativo nas negociações sobre uma eventual licença voluntária do Efavirenz. "Qualquer medida que traga instabilidade para o ambiente regulatório dificulta as negociações", completou. Sanches sustentou ainda que os gastos para a compra de medicamentos foram reduzidos nos últimos anos. Ele disse que em 1999 o Brasil gastou R$ 620 milhões na compra de anti-retrovirais para o tratamento de 78 mil pacientes. Em 2004, para tratar 154 mil, desembolsou R$ 570 milhões. A Associação Brasileira de Indústria de Pesquisa (Interfarma) emitiu nota em que afirma não acreditar que a licença compulsória seja o caminho apropriado para a ampliação do acesso a medicamentos. A medida poderia resultar na suspensão de investimentos dos laboratórios em pesquisa. "Num prazo aproximado de dois anos, devido à mutabilidade do vírus, os atuais medicamentos não terão mais a mesma eficácia", informa a nota. O ministro ainda espera que a medida tenha outro efeito: incentivar outros países a usar mecanismos legais para ter maior acesso aos remédios. Ainda assim, Costa alerta que o Brasil não tomou uma posição política, mas, sim, uma posição de saúde pública. "Poderíamos ter problemas de sustentabilidade do programa de combate à aids no Brasil em dois anos", justificou. Segundo ele, o País gasta por ano US$ 100 milhões apenas com o Kaletra, que, se produzido no Brasil, teria metade desse custo. Se a decisão sobre a quebra de patente for tomada, Costa acredita que o remédio produzido no País levará um ano para chegar aos pacientes. Mas ele não teme um desabastecimento. "Temos um acordo com a Abbott até maio e seria um crime não cumpri-lo. Se houver problemas, podemos importar remédios genéricos", ameaçou. Fonte: http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISDA56F374ITEMID8375F57A7A30498CBD67C54ACE3BB021PTBRIE.htm Consultado em 12/02/2007

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Editorial da Folha de S. Paulo reconhece a legalidade da quebra de patente de ARV, mas sugere que Abbott abaixe os preços

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 28, 2005|Categories: Acervo|

Legislação brasileira que assegura o direito do licenciamento compulsório está de acordo com as regras da organização Mundial do Comércio (OMC) e apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS). Não há dúvida de que o governo brasileiro tem o direito de quebrar a patente do medicamento Kaletra, uma das drogas usadas no tratamento da Aids, fabricada pelo laboratório norte-americano Abbot -conforme anunciou que o faria na sexta-feira. A maioria dos sistemas jurídicos do mundo preconiza que a vida deve prevalecer sobre a propriedade. Assim, em situações de grave risco à saúde da população, os direitos comerciais da Abbot subordinam-se ao interesse público. O licenciamento compulsório, que permite ao Brasil produzir o fármaco à revelia do laboratório, ainda que com o pagamento de royalties, é um mecanismo previsto pela legislação brasileira (lei nº 9.279/96), está de acordo com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e tem o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS). Praticamente todas as nações desenvolvidas contam com dispositivos semelhantes em sua legislação, a começar dos EUA. Washington já se utilizou da figura do licenciamento compulsório na agricultura. No campo da saúde, recentemente ameaçou fazer o mesmo contra o laboratório alemão Bayer, fabricante do antibiótico Cipro, droga de referência em intoxicações por antraz. Logo depois do 11 de Setembro, os EUA viveram uma onda de pânico devido às remessas pelo correio de cartas contaminadas com antraz. O fato de a quebra da patente ser justa e legal não significa que ela deva ser perseguida a qualquer preço. Até seria positivo para o mundo que o Brasil estabelecesse o precedente do licenciamento compulsório de uma droga anti-Aids no âmbito de um programa de distribuição universal de medicamentos, mas pensando exclusivamente nos interesses do país, o mais conveniente seria que a Abbot cedesse e aceitasse o preço que o governo está disposto a pagar. Para começar, entre a quebra da patente e o início da produção da droga por um laboratório oficial existe um intervalo de pelo menos um ano. Além disso, por mais razão que o país tenha, a medida traria ao Brasil o ônus -perfeitamente administrável, mas ainda assim um ônus- de ser visto externamente como uma nação que não respeita os direitos de propriedade industrial. As autoridades brasileiras parecem saber disso. Provavelmente não foi por outra razão que deram à Abbot dez dias para aceitar o preço do governo antes de ter a patente quebrada. Fonte: http://www.sistemas.aids.gov.br/imprensa/Noticias.asp?NOTCod=65727 Consultado em 12/02/2007

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Ex-diretor do Programa Nacional de Aids diz que quebra de patente é necessária

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 28, 2005|Categories: Acervo|

O ex-diretor do Programa Nacional de Aids, Alexandre Grangeiro, afirma que iniciativa do governo de quebrar patente só tem pontos positivos e pode ajudar o Brasil a incorporar tecnologia, incentivar novas pesquisas e capacitar profissionais para desenvolver novos medicamentos, além de reforçar a luta dos países em desenvolvimento para tratar 6 milhões de pessoas que vivem com aids e sem remédios por causa dos preços imorais cobrados pela indústria farmacêutica. A tomada de consciência de que nosso tempo é finito revoluciona. Na política não é diferente e, por vezes, em meio à crise, decisões por muito postergadas, acabam se concretizando. É o caso do anuncio da quebra de patentes do medicamento Kaletra. O ato, talvez um dos últimos do ministro Humberto Costa, atende a dois objetivos. O primeiro, mais nobre, a preocupação com 170 mil pessoas que precisam dos medicamentos de aids para viver. O segundo, a tentativa de tirar a marca negativa de uma gestão que desestruturou o Programa de Aids brasileiro. Mas, deixando de lado a dubiedade da decisão, a quebra da patente é digna de aplauso. Por todos os ângulos só há pontos positivos. Entre os 16 medicamentos do coquetel para aids, o Kaletra é um dos mais utilizados. Com a produção do genérico o Ministério da Saúde economizará R$ 130 milhões por ano. Dinheiro suficiente para duplicar o número de ONG que trabalham com aids e, ao mesmo tempo, aumentar em 25% a quantidade de preservativos distribuídos à população. Internacionalmente, reforça a luta dos países em desenvolvimento para tratar 6 milhões de pessoas que vivem com aids e sem remédios por causa dos preços imorais cobrados pela indústria farmacêutica. E nessa briga o Brasil tem um papel importante. Desde que começamos a negociar com os laboratórios e a produzir genéricos, o preço dos remédios despencou e, hoje, internacionalmente, custam 10 vezes menos do que nos anos 90. Com a decisão, o Brasil também rompe um tabu e abre o caminho para outros países implementarem os acordos internacionais que permitem a quebra de patentes e a produção de genéricos. E há mais pontos positivos. O Brasil tem a chance de incorporar tecnologia, incentivar novas pesquisas e capacitar profissionais para desenvolver novos medicamentos. É falsa a idéia de que a indústria de genérico simplesmente copia fórmulas. O desenvolvimento da droga requer estudos aprofundados e muitas vezes o ''genérico'' fica melhor que o original. Como é o caso do DDI, um dos medicamentos já produzidos pelo laboratório estatal Far-Manguinhos. Apesar disso, o Brasil deverá ser ameaçado pelo governo americano e pelos laboratórios internacionais. Mas sanções comerciais representam somente a defesa do lucro e não a preocupação com a vida e com o desenvolvimento científico. Ao contrário do que argumenta a indústria, as patentes não são essenciais para a elaboração de novos remédios, que sempre foram desenvolvidos sem títulos de propriedade. Patentes para medicamentos são recentes na história da humanidade e só foram adotadas depois que a indústria farmacêutica dos países ricos estava consolidada. Na Suíça, por exemplo, elas datam de 1977. Antes, os medicamentos eram considerados fundamentais para a vida, um bem social acima dos interesses comerciais. Portanto, a adoção indiscriminada da patente nos países em desenvolvimento é medida protecionista para indústria dos ricos. Há ainda duas preocupações. A primeira é a qualidade do medicamento que será produzido no Brasil. Se a lei for cumprida, não há problema. O laboratório Abbott é obrigado a repassar todas as informações para a fabricação da droga, treinar os profissionais brasileiros e supervisionar a produção. É ele o responsável pela qualidade do genérico que vai ser produzido. Caso o laboratório não cumpra a lei, o Brasil deve anular a patente e não pagar os royalties à empresa americana. Também é preciso vigiar para que a quebra de patentes, de fato, ocorra. Depois de anos negociando preços, o governo ainda concedeu dez dias para a Abbott reduzir o valor cobrado pelo remédio. É diplomático, mas o prazo deixa a licença compulsória para ser feita em meio às interrogações da reforma ministerial. Caso ela não aconteça, o ato fundamental para a saúde pública não terá passado de uma cena política. Fonte: http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISDA56F374ITEMIDFB13BC4BBFDA478A8672BBAB128B951CPTBRIE.htm Consultado em 12/02/2006

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Interfarma divulga nota lamentando decisão do governo sobre patente do Kaletra

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 28, 2005|Categories: Acervo|

A Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) divulgou nota lamentando a decisão do governo em declarar a patente do Kaletra, anti-retroviral usado no tratamento da Aid, de interesse público. Leia abaixo o texto na íntegra. Interfarma lamenta decisão do governo sobre patente do Kaletra® - medicamento para AIDS A Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) lamenta a medida adotada pelo Governo que resultou na Portaria nº. 985 anunciada na última sexta-feira, dia 24 de junho, declarando o Kaletra de interesse público. A Interfarma não acredita que a licença compulsória seja a melhor alternativa para a manutenção do Programa Nacional de DST/Aids, nem tampouco o caminho apropriado para a ampliação do acesso a medicamentos. Considerando a boa relação da indústria farmacêutica com o Governo brasileiro e as bem sucedidas negociações realizadas até o momento - que permitiram a manutenção do Programa e, sobretudo, quadruplicar o número de atendimentos e tornar-se referência mundial - a Interfarma crê que a continuidade das conversas entre Indústria e Governo, resultem na melhor solução para os portadores da doença, já que o objetivo de ambos é a contribuição para o aumento da qualidade e expectativa de vida destes pacientes, além da própria sustentabilidade do Programa. Além disso, a entidade não vê a necessidade da utilização do recurso de licença compulsória, uma vez que a indústria, até o momento, reduziu os preços dos medicamentos e colaborou ao máximo para o sucesso do programa. Vale ressaltar ainda que os custos dos medicamentos pagos no Brasil são considerados os menores do mundo, perdendo apenas para países como África e Haiti, que recebem ajuda humanitária. Outro aspecto importante é a possibilidade desta medida prejudicar a imagem do País no cenário internacional, bem como, resultar na suspensão de investimentos dos laboratórios de pesquisa no mercado local. Caso isso ocorra, num prazo aproximado de dois anos, devido à mutabilidade do vírus, os atuais medicamentos não terão mais a mesma eficácia, afetando diretamente a qualidade e expectativa de vida dos portadores da Aids. Como o próprio Ministério da Saúde afirmou em notas e entrevistas, esta medida não tem precedentes no mundo e, nós da Interfarma, não conhecemos nenhum paciente no mundo que esteja em tratamento com uma versão não original de Kaletra. Portanto, os brasileiros serão os primeiros a testar este genérico, assumindo também seus riscos. Fonte http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISDA56F374ITEMID4A01A24DA4AA4AB4BF127BA2E5A23DE9PTBRIE.htm Consultado em 12/02/2007

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“NYT” defende que Brasil quebre patentes de remédios anti-Aids

2016-02-02T20:46:04-03:00junho 23, 2005|Categories: Acervo|

Um editorial publicado na edição de hoje do "The New York Times" defendeu a quebra de patentes de remédios anti-Aids pelo governo brasileiro. A publicação elogia o programa do Brasil de combate à Aids e ressalta que as patentes devem ser respeitadas, mas que a justificativa brasileira tem respaldo legal nos acordos internacionais e merece o apoio de Washington. O programa, que fornece tratamento gratuito para quem precisar, é viável graças à fabricação dos remédios, a partir da cópia da fórmula original, por laboratórios brasileiros. No entanto, diz o editorial, novos remédios ainda são importados e custam muito caro. O governo estuda agora medidas que permitiriam que laboratórios brasileiros pudessem copiar a fórmula desses remédios, como o licenciamento voluntário. No entanto, segundo o texto, grupos de direita e a indústria farmacêutica nos EUA classificaram a atitude de roubo e congressistas americanos pediram sanções contra o Brasil. O "NYT" diz ainda que apenas um punhado de países quebra as patentes, pois os demais "são intimidados, principalmente pelos Estados Unidos". O editorial sugere, por fim, que as autoridades comerciais dos EUA declarem publicamente que o Brasil não sofrerá retaliações, ao quebrar as patentes, "por exercer o seu direito de salvar vidas". O posicionamento do jornal recebeu a aprovação da organização Médicos Sem-Fronteiras e foi considerado "importante" pelo Ministério da Saúde. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13326.shtml Consultado em 16/02/2007

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Leishmaniose Visceral Americana: doença emergente no estado de São Paulo

2017-01-10T17:18:28-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

A leishmaniose visceral (LV) é uma doença infecciosa e originalmente uma zoonose que afeta animais e o homem. Tem como agentes causais espécies de protozoários do gênero Leishmania (ordem Kinetoplastidae, família Trypanosomatidae) dependendo da localização geográfica e, da mesma forma, tem como agentes transmissores diferentes espécies de insetos, denominados flebotomíneos, pertencentes à sub-família Phlebotominae, dos gêneros Phlebotomus sp e Lutzomyia sp. No Brasil a doença, também chamada de leishmaniose visceral americana (LVA) ou calazar neo-tropical, é causada pela Leishmania chagasi e as espécies envolvidas com a transmissão são a Lutzomyia longipalpis, o principal vetor, e L. cruzi. A LV está entre as seis doenças mais importantes causadas por protozoários no mundo dado a sua incidência, alta mortalidade em indivíduos não tratados e crianças desnutridas, e emergência em indivíduos portadores da infecção por HIV. Tem ampla distribuição geográfica ocorrendo na Ásia, na Europa, no Oriente Médio, na África e nas Américas. O número estimado de casos, por ano, é de cerca de 500 mil casos novos, sendo que 90% deles ocorrem em Bangladesh, Brasil, Índia e Sudão. Na América Latina a doença já foi descrita em pelo menos 12 países, sendo no Brasil aquele em que se registra o maior número de casos (cerca de 90% do total notificado). No Brasil, a LVA atinge 19 estados e anualmente são registrados cerca de 3.500 casos. Até a década de 90, a região Nordeste foi a que registrou os maiores coeficientes de incidência e contribuiu com 90% dos casos registrados no país. Ao final dessa década, observa-se além do aumento do número de casos, uma expansão da área de distribuição geográfica da doença para outras regiões brasileiras atingindo estados onde a doença era desconhecida, como o estado de São Paulo. Isto se deu em virtude da modificação do padrão de transmissão, antes uma enfermidade quase exclusivamente de ocorrência rural e, recentemente, a transmissão vem ocorrendo em zonas urbanizadas de grandes cidades como Fortaleza - CE, Teresina - PI, Campo Grande - MS, Belo Horizonte - MG, Araçatuba e Bauru no ESP. Entre os fatores que contribuíram para essa mudança de comportamento destacam-se as modificações sócio-ambientais como o desmatamento, que reduziu a disponibilidade de criadouros do vetor, fazendo que houvesse a sua adaptação para novos ecótopos e da oferta de animais que servissem como fonte de alimentação para o flebotomíneo, colocando o cão doméstico e o homem como alternativas mais acessíveis; e o processo migratório, que trouxe para as periferias das cidades populações humana e canina originárias de áreas rurais, onde a doença é endêmica, introduzindo o parasito em novas áreas receptivas para a ocorrência da doença. No estado de São Paulo, a espécie de flebotomíneo envolvida com a transmissão da LVA é a L. longipalpis, que já havia sido registrada em zonas rurais de municípios situados no Planalto Atlântico Paulista. Em zona urbana, a espécie foi registrada pela primeira vez em 1997, no município de Araçatuba, na região do Planalto Ocidental, onde até então sua presença era desconhecida. Desde então, verifica-se que a expansão e a adaptação do vetor aos ecótopos urbanos vêm ocorrendo lentamente, tendo sido registrado, inicialmente, em municípios contíguos à Araçatuba e, depois, naqueles que estabeleceram fluxo migratório de pessoas e mercadorias com os municípios da região de Araçatuba. Posteriormente, foi detectada em outras regiões administrativas, como Bauru, Marília e Presidente Prudente, seguindo pelos grandes eixos rodoviários e ferroviários. No início de 2005, a L. longipalpis foi detectada pela primeira vez em zona urbana de município situado na região Planalto Atlântico, com características macro climáticas diferentes, mostrando o alto potencial de adaptação do vetor à ambientes diversos. Até o momento, a L. longipalpis foi registrada em zona urbana de 56 municípios do estado (figura 1). Sendo essa a única espécie relacionada com os focos de transmissão da doença, embora na região metropolitana de São Paulo a ocorrência da enzootia canina leve a supor que haja outra espécie de flebotomíneo que possa estar envolvida com a transmissão ou mesmo a existência de outro modo de transmissão, o que ainda deve ser elucidado. Figura 1: Distribuição de Lutzomyia longipalpis no estado de São Paulo. No ambiente domiciliar, o peridomicílio destaca-se como o local onde o vetor é encontrado em maior densidade. Está relacionado à presença de animais domésticos, sendo os abrigos de animais considerados os locais mais importantes de criação e de repouso de L. longipalpis em área urbanizada. As fêmeas desta espécie têm demonstrado alta cinofilia, como também antropofilia, confirmando assim seu papel de vetor da LVA. Historicamente, no estado de São Paulo, a LVA era conhecida pela detecção de casos importados, oriundos de outras regiões endêmicas do país. Em 1998, a transmissão canina foi registrada pela primeira vez no município de Araçatuba. Posteriormente, em 1999, foi registrado o primeiro caso humano de LVA e, desde então, a doença vem ocorrendo em municípios situados na região do Planalto Ocidental Paulista, nos quais a transmissão tem feição exclusivamente urbana. A enzootia canina, desde a sua primeira detecção até maio de 2005, foi registrada em 41 municípios abrangendo as regiões de Araçatuba, Bauru e, mais recentemente, Marília, além da região metropolitana de São Paulo e a possibilidade de ocorrência de transmissão canina no município Espírito Santo do Pinhal, ainda em investigação. Desses, em 28 municípios a transmissão em seres humanos já foi notificada (figura 2), tendo sido notificados, ao Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, 534 casos humanos e 65 óbitos. Figura 2: Distribuição de municípios com transmissão de leishmaniose visceral americana canina e humana, no período de 1998 a 2005. Estado de São Paulo. No estado de São Paulo, observa-se que o maior número de casos ocorreu naqueles municípios com as maiores prevalências caninas, verificando-se uma relação espaço-temporal, na qual a doença em cães, na grande maioria das vezes, precedeu a detecção de casos humanos, principalmente em municípios onde o vetor já havia sido registrado anteriormente. Embora não se possa estabelecer uma relação causa-efeito, a ocorrência da LVA em seres humanos tem também como fator de risco a ocorrência da LVA em cães e esta à alta densidade da população canina. O programa de controle da LVA aplicado no Estado consiste nas ações de vigilância epidemiológica, na detecção e tratamento oportuno dos casos humanos; na vigilância entomológica e controle da população canina infectada e da densidade vetorial. No que se refere à vigilância entomológica, esta visa detectar a presença e dispersão de L. longipalpis, além de permitir conhecer sua distribuição nos centros urbanos e aglomerados rurais, monitorando, ainda, a variação sazonal dos níveis de infestação e adaptação do vetor. O controle da população canina consiste, principalmente, na eliminação dos animais errantes; na busca ativa e eliminação de cães infectados, detectados através de exame parasitológico ou sorologia positiva. As ações de controle vetorial vêm sendo realizadas por meio de atividades de saneamento ambiental, em todos os setores do município em que vetor já foi detectado. A fim de reduzir os locais prováveis de criação do vetor ou de repouso, está embasada no controle mecânico, a partir da retirada de matéria orgânica do peridomicílio e na poda de galhos e arbustos que possam fornecer condições de estabelecimento de locais para repouso e criação do vetor. O controle químico vem sendo realizado nos meses favoráveis ao aumento da densidade do vetor, restrito às áreas de ocorrência de casos humanos e que reúnam as condições que indiquem maior risco de manutenção do ciclo de transmissão da doença. Entre elas, alta densidade populacional de cães e prevalências caninas superiores a 2%, ocorrência de casos humanos há mais de dois anos e população com baixo nível sócio econômico. Apesar dos esforços para atingir os objetivos, a transmissão da LVA transcorre nas formas subclínicas com o registro de casos novos todos os anos. O município de Araçatuba é o que registra o maior número de casos. Entre os municípios investigados anualmente, observa-se que a expansão da doença vem se dando na medida em que vem ocorrendo a adaptação da Lutzomyia longipalpis em novos municípios, verificando-se que a epizootia canina, na maioria dos municípios, precedeu o aparecimento dos casos humanos. O risco de expansão aumenta a partir do momento em que grandes pólos de atração migratória passam a registrar a doença, como o município de Bauru e, mais recentemente, embora de pequeno porte, os municípios da região de Marília. Na grande maioria das vezes, a introdução do parasito ocorre pelo envio de cães assintomáticos, para outras áreas a fim de que estes não sejam eutanasiados pelos órgãos de controle ou mesmo pela doação de cães assintomáticos oriundos de áreas endêmicas, levando com isso ao estabelecimento de transmissão da doença entre os cães e, conseqüentemente, da transmissão para seres humanos. A LVA é uma doença de difícil controle, dado ao longo período de incubação tanto no reservatório doméstico como no hospedeiro humano, não se sabendo ao certo onde poderá vir a ocorrer. As ações de controle do vetor por meio de aplicação de inseticidas de ação residual, é uma medida de pouco impacto e deve ser aplicada em situações epidêmicas de modo a baixar a densidade vetorial rapidamente, já que esta alternativa atingiria apenas a forma alada do vetor, não extinguindo os criadouros. O tratamento de cães, também não é uma medida eficaz, uma vez que não redime o animal como fonte de infecção para o vetor. Portanto, as ações de controle, atualmente propostas devem ser contínuas e avaliadas a cada ano, para que os objetivos propostos possam ser atingidos, principalmente o de redução da mortalidade humana. A descontinuidade das ações de controle, tanto aquelas relacionadas ao reservatório doméstico como as relacionadas ao vetor, é um fator que favorece a manutenção da transmissão. Medidas alternativas como a utilização de mosquiteiros impregnados com inseticidas, a telagem de portas e janelas de domicílios situados em áreas endêmicas, pode minimizar o risco de transmissão. A utilização de coleiras impregnada com deltametrina, também vem a ser uma alternativa de proteção contra aplicada para o flebotomíneo e sua utilização em programas de saúde pública vem sendo avaliada com resultados promissores. Vera Lucia Fonseca de Camargo-Neves Superintendência de Controle de Endemias - Sucen, Coordenadoria de Controle de Doenças, Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/17_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

Comentários desativados em Leishmaniose Visceral Americana: doença emergente no estado de São Paulo

Novos fármacos para as doenças tropicais, a indústria farmacêutica, o Estado e nós

2016-02-02T20:46:05-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

As doenças tropicais são marcadas pelo estigma do exótico e do grave. Quem não tem na mente a figura do paciente com elefantíase, o tremor do paciente com malária, ou as feridas imaginadas dos hansenianos? Nesse espectro folclórico, a origem dessas doenças está associada à pobreza ou à aventura. Se as pessoas viajam ou trafegam em regiões novas, podem contrair as doenças que lá ocorrem e que são diferentes das que estão habituadas em sua região. Com as grandes navegações, os europeus colonizadores foram expostos a doenças desconhecidas das regiões tropicais e associaram a estas regiões a medicina dos viajantes, criando uma medicina de portos ou medicina tropical, ou a medicina das doenças exóticas. Isto é uma meia verdade. Países desenvolvidos como o EUA e a Espanha convivem com doenças desse tipo e a aids veio dos países tropicais para o "mundo" sem haver relação com o clima. Em geral, as doenças tropicais desaparecem pela melhoria das condições sanitárias e higiênicas de uma população, o que explica em grande parte a sua aparente ausência em países desenvolvidos. A maioria dos pacientes dessas doenças vive nas regiões mais pobres do mundo, com Estados desorganizados, empobrecidos e em freqüente beligerância interna. Esse quadro é piorado pelas associações de doenças com a fome crônica, gerando um quadro caótico, com milhões de mortes anuais, como na África Sub-Saariana. Mesmo no Brasil, as doenças estão restritas a bolsões de pobreza e o número de casos caiu significativamente, mas ainda temos nilhões de pessoas em risco de contrair essas enfermidades. A preocupação com a prevenção e o tratamento dessas doenças sempre existiu, já que são de importância estratégica. A malária praticamente extinguiu a elite ateniense de Péricles no cerco a Siracusa e causou mais baixas americanas na Guerra do Vietnã que o exército Vietcong. Até hoje, missionários religiosos morrem nos países tropicais, sucumbindo a infecções e é freqüente a morte de viajantes em seu retorno, pelo desconhecimento dos médicos “desenvolvidos” sobre essas terríveis doenças exóticas. Nos últimos 30 anos, houve um aprimoramento das condições sanitárias mundiais, mas mantiveram-se bolsões de extrema pobreza não somente em países tropicais ou em desenvolvimento, mas também em desenvolvidos, em guetos e áreas empobrecidas. Nestas áreas, estão presentes as causas e crescem também os vetores de doenças infecciosas, como a dengue, encefalites e leishmaniose. Nos países em desenvolvimento, os centros urbanos mais ricos e áreas de agricultura intensiva, como ocorre no Brasil, afastaram a maioria das doenças tropicais das cidades e da sua população, restringindo-as às áreas menos favorecidas e de colonização mais recente. As equipes de saúde passam a ter menos experiência com estas doenças, pela distância dos focos de transmissão e pelo contato com um menor número de pacientes - e a vigilância cai. Se a montanha não vai a Maomé, vamos a montanha. O ecoturismo e as viagens turísticas ou privadas aumentaram muito e passaram a colocar em risco os turistas, atletas e técnicos. Recentemente pudemos acompanhar a febre amarela de um médico da mídia e a leptospirose em equipes de competição. Esse é um novo aspecto das doenças tropicais, uma verdadeira colonização da área desenvolvida sobre as áreas menos favorecidas, até mesmo de um único país, como no subcontinente brasileiro. Como é uma pandemia, a aids não será incluída nestas considerações, restrita às doenças tropicais mais conhecidas. Apesar de um quadro favorável de diminuição do número de pacientes, com as chamadas doenças tropicais a situação mantém-se perversa, porque estes estão entre os mais pobres e os excluídos sociais. Assim, somente o Estado pode prover os recursos para diagnóstico e tratamento. O conhecimento sobre o tratamento de uma determinada doença vem do próprio povo afetado e as doenças tropicais não são exceção. O quinino, que representou o marco de tratamento da malária, não foi encontrado na Europa, mas sim na Bolívia. O uso de antimoniais foi descoberto no Brasil para as leishmanioses. Muito do conhecimento foi adquirido pela pesquisa local no desenvolvimento de fármacos, mas isso praticamente parou nos últimos 20 anos, preferindo-se tentar associações de fármacos conhecidos. Excetuando-se a miltefosina, um potencial remédio para a leishmaniose, e os antivirais específicos para o HIV, o arsenal desenvolvido para as doenças tropicais tem mais de 20 anos. Ninguém se pergunta por que isso ocorreu, embora a OMS reclame e chame as doenças tropicais de negligenciadas. Realmente, não há um apelo econômico para o desenvolvimento de novos fármacos contra as doenças tropicais no modelo econômico prevalente nos últimos 30 anos. Nos conceitos neoliberais recentes, a produção está diretamente relacionada ao lucro e não ao bem-estar. Até os anos 60, havia uma preocupação real com a melhoria das condições sociais nos países. A idéia era ter uma população feliz, com uma boa casa e condições adequadas de vida. Lembra aqueles desenhos da Seleções do Readers’ Digest, a familia feliz lavando o carro na frente da casa, com as crianças brincando e o pai e a mãe abraçados? O modelo econômico mudou e a unidade econômica passou a ser o indivíduo isolado, cada qual cuidando do seu destino, mas também de sua saúde. Nesse contexto, cada indivíduo deve ser capaz de adquirir sua medicação, que passou a ser um importante item de avaliação de renda. Esse conceito gerou um aumento enorme no lucro da industria farmacêutica, criando nova ética para medicamentos. Hoje é muito freqüente o anúncio de medicamentos na mídia, para uso e depois consulta ao médico. Compre, teste e se não melhorar; a culpa aqui é sua; vá então ao médico. Isto é mercadológico e causou um impacto muito alto no custo final do medicamento. Hoje cerca de 90% do custo do fármaco é marketing e, na indústria privada, os centros de pesquisa e desenvolvimento são subordinados ao marketing. Nesse contexto, é lógico que teremos Viagras, Cialis e Prozacs e não fármacos para as doenças tropicais. Quem estará interessado em produzir para quem não tem como pagar? Ou produzir para um pequeno número de turistas infectados? Ou ainda participar de licitações para vender uma única partida de medicamento por um ano, sem venda a varejo? Um exemplo triste é o da leishmaniose no Brasil. Temos 20000 casos por ano, que deveriam receber 20 ampolas de 5 ml do remédio, que dá um consumo real anual de 2000 litros ou duas toneladas,um processo industrial muito pequeno e um volume de comércio irrisório. Não há interessados na produção e o Ministério da Saúde tem que fomentar o fabricante. Não se sabe como isso evoluirá, mas explicar aos seus acionistas um prejuízo com fármacos para doenças tropicais é um problema. Os acionistas querem lucrar e jogar a culpa no Estado, ele que cuide dessas mazelas. Desde o princípio, era ainda mais complicado se o remédio tivesse algum tipo de segredo. Quando os jesuítas controlavam o uso da quina, o pó dos jesuítas, contra a malária eles usaram a sua difusão seletiva como elemento estratégico de controle de nações e governantes. A história da quebra do segredo é cheia de aventura e mortes e a própria agressão aos jesuítas mostra uma reação dos Estados nacionais contra a primeira multinacional farmacêutica, a Companhia de Jesus. Hoje não é muito diferente. Como não haverá retorno econômico, a indústria espera pelo menos um retorno político. Embora imensos mercados populacionais estejam se formando na Ásia, com China, Índia e vizinhos, e na América do Sul, com a urbanização dos países, esses mercados na realidade estão mudando de perfis de fármacos, passando daqueles específicos para as doenças tropicais para os convencionais e já desenvolvidos fármacos de doenças crônicas, da terceira idade e do prazer. A melhoria das condições sociais e a urbanização eliminam os ambientes de crescimento de vetores, em especial os Anopheles, da malária, e aumentam o de outros, como os Aedes, da dengue, alterando o perfil das epidemias esperadas. Além disso, o uso maior da água e dos recursos hídricos, com maior recirculação, favorece as doenças de transmissão oral como a cólera e os rotavirus. Nesse contexto, insere-se um novo risco ao desenvolvimento de fármacos, que é o risco individual. No modelo social, toda ênfase era dada à prevenção das doenças e ações de prevenção e higiene, com menor ênfase na terapia. No novo modelo, a segurança do uso do fármaco é garantida pela indústria e, se um fármaco tiver efeitos colaterais em poucos pacientes, mas com grande impacto econômico, processos reparatórios, etc., todo o eventual lucro pode desaparecer em instantes e um enorme problema para a indústria pode surgir. Isto foi recentemente realçado pelos processos contra a indústria fabricante de um anti-malárico usado na prevenção de malária em turistas, que causou psicose em um pequeno número, com vultosas reparações. Esse é o modelo da saúde individual, você compra um remédio seguro que deve resolver seu problema sem efeitos colaterais ou a empresa deve pagar por isso. Isso não é só para esses fármacos, mas para todos eles e virou uma nova maneira de compensação do lucro destas indústrias nos Estados nacionais com justiça e regulamentos fortes. Para se aprovar qualquer fármaco, um chá de erva cidreira em pó, são necessários todos os testes de segurança e toxicidade -- entre US$ 5-10 milhões de gastos. Apesar de existirem resultados adequados em outros países, cada Estado tenta controlar novos gastos com importação de fármacos, testando no país cada novo produto. A multiplicidade de países, as diferentes etnias, os hábitos culturais levam a diferenças entre as nações obrigam a estes testes mas aniquilam qualquer eficiência de custo de desenvolvimento de um fármaco para as nossas doenças. A nova droga precisa de uma venda e uma vida média que justifique o investimento e assegure o retorno, sem esquecer da concorrência. Nesse ponto, lembramos a importância da universidade pública e dos sistemas de saúde pública locais. No meu entender, só um pequeno número de fármacos para estas doenças foi desenvolvido pela industria farmacêutica privada. Um exemplo é a ivermectina para o tratamento da cegueira causada pela Oncocerca na África, mas a indústria preferiu transferir tudo para a OMS, para economizar no marketing e permitir a disseminação do produto. Na maioria dos casos, os produtos foram desenvolvidos nos próprios países interessados, quer sejam aqueles com grande número de casos, ou aqueles com interesses estratégicos. Apesar disso, os governantes assumem hoje posturas neoliberais, declinando do custeio da pesquisa para novas descobertas ou então com programas pouco eficientes de desenvolvimento de fármacos em cada país, geralmente vinculados a possíveis patentes. Embora existam, no Brasil, empresas governamentais capazes de produzir e distribuir fármacos, como a FURP e a FarManguinhos, a universidade não consegue transferir seus conhecimentos rapidamente para a produção e o impacto social, justamente devido a mecanismos de restrição de proteção individual, que afastam até as estatais da produção de novos fármacos. Essas empresas apenas se dedicam à produção de genéricos, que são fármacos testados por outros e que tem consolidada sua eficácia e segurança. Não é competência da universidade a produção e a toxicologia prospectiva de um fármaco. A pesquisa universitária é cientifica e aberta, disponível para a concorrência, sem uma proteção para o lucro, diferente da visão mais tecnológica e comercial necessária à indústria. Não adianta somente criar massa crítica adequada, como Cingapura tem proposto em joint-ventures com indústrias farmacêuticas ou nos nossos programas brasileiros de pós-graduação, para depois desempregá-los por razões de custo, num sistema industrial onde o vendedor é o chefe do cientista. Isto é tipicamente individualista e não voltado para o aprimoramento do bem estar da sociedade como um todo. Temos que definir o que queremos como sociedade para todos nós. É licito morrer de leishmaniose visceral por falta de fármaco? Será aceitável a morte por aids? Valemos o que somos ou o que temos? No atual modelo, o último homem herdará toda a Terra e seus bens. Faça bom proveito. Heitor Franco de Andrade Júnior é professor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/15_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

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