junho 2005

Novos medicamentos: responsabilidade de quem?

2017-01-10T17:18:28-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

A produção de novos medicamentos para as chamadas doenças tropicais, ou de forma mais genérica, doenças negligenciadas é considerada insuficiente tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento. As indústrias farmacêuticas constituem um setor altamente monopolizado e lucrativo, que necessita de grande investimento em P&D. Seguindo a lógica empresarial, os altos investimentos implicam na produção de fármacos que ofereçam maior segurança de retorno financeiro. Como os atingidos pelas doenças tropicais vivem justamente nos países em desenvolvimento - mais pobres - não é difícil entender porque as doenças tropicais se tornam também doenças negligenciadas pelos grandes laboratórios farmacêuticos. Algumas estatísticas sobre o setor mostram que as grandes empresas farmacêuticas não apenas estão concentradas em países desenvolvidos, mas também vendem e produzem basicamente para esses países. Os maiores produtores mundiais de medicamentos são respectivamente América do Norte (50%), Europa (24%) e Japão (13%). Toda América Latina é responsável por apenas 5% dos medicamentos produzidos. De outro lado, 80% da população mundial é responsável pelo consumo de cerca de 20% dos remédios produzidos e apenas 10% das pesquisas de saúde são dedicadas a doenças negligenciadas. Segundo o documento Desequilíbrio Fatal produzido pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) e pelo Drugs for Neglected Diseases (DNDi) das 1393 novas drogas descobertas entre 1975 e 1999, apenas 15 destinaram-se a doenças negligenciadas - cerca de 1% - apesar de essas doenças representarem mais de 12% das enfermidades mundiais. Dentre os 13 medicamentos produzidos para doenças tropicais nesse período, 6 foram feitos com apoio do programa Treinamento para Doenças Tropicais (TDT) financiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), Banco Mundial e Organização Mundial de Saúde (OMS), que destinou U$ 30 milhões anuais para o TDT. Esse quadro deixa claro que dificilmente o setor privado vai resolver o problema de saúde que envolve a produção e melhora na eficiência de fármacos que combatem as doenças infecciosas tropicais. Por falta de remédios ou inexistência de tratamentos adequados, essas doenças matam, por ano, cerca de 14 milhões de pessoas no mundo. A solução, então, dependeria muito mais de esforços de laboratórios, institutos e entidades de caráter público, e também de ações públicas que incentivassem a produção desses medicamentos por empresas privadas. "Na parte de controle de vetores que transmitem doenças tropicais temos conseguido avançar, na parte de detecção dessas doenças também. Mas, a produção de novos medicamentos para doenças tropicais ainda constitui um grande hiato para o sistema de saúde brasileiro", confirmou Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, médico e superintendente da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). Para o médico, a emergência de doenças como hantavirose, febre maculosa e leishmaniose visceral - que voltaram a crescer em alguns locais do estado de São Paulo - reforçam a necessidade de fornecer tratamentos melhores e formas de detecção mais efetivas. "A tuberculose, por exemplo, é considerada uma doença negligenciada que atinge uma fatia importante da população mundial e mesmo assim não é produzida uma droga nova para seu combate há 30 anos. É lógico que se houvesse mais investimentos, poderíamos ter hoje uma vacina mais efetiva para tuberculose como já ocorre com o sarampo e outras enfermidades", analisou o médico (leia artigo que fala sobre nova vacina para tuberculose. Setores públicos ainda participam pouco Apesar de existirem hoje no Brasil inúmeras pesquisas em andamento sobre doenças tropicais em laboratórios, institutos e universidades públicas, quando o assunto é a produção de medicamentos para combate a essas doenças, as ações estão muito aquém do necessário. O único laboratório público que trabalha com pesquisa de novos fármacos no Brasil integra o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Far-Manguinhos), da Fiocruz. A produção de medicamentos neste laboratório é significativa, tendo proporcionado, apenas em 2004, uma economia de R$ 200 milhões ao Ministério da Saúde que adquiriu fármacos com preço em média 60% mais baixo que o do mercado. Mas, apesar de uma das missões do Far-Manguinhos ser a produção de fármacos para as doenças negligenciadas, a maior parte dos medicamentos produzidos no ano passado foi voltada para combate à hipertensão e diabetes - atendendo à demanda do Programa de Hipertensão e Diabetes do Ministério da Saúde - e medicamentos para o coquetel anti-aids. No que diz respeito a medicamentos para doenças negligenciadas, seguindo a tendência dos grandes laboratórios privados, a produção de novos fármacos é ainda incipiente. " O Far-Manguinhos possui várias linhas de pesquisa voltadas para essas doenças, mas ainda não produziu nenhum fármaco novo que já tenha chegado ao mercado ou às redes de saúde pública. O desenvolvimento tecnológico de um medicamento novo leva em torno de 10 anos. Nossas pesquisas são importantes justamente para que novos fármacos voltados a doenças negligenciadas possam estar disponíveis para a população em um futuro próximo ", explicou André Daher, médico da assessoria de planejamento de gestão tecnológica do Far-Manguinhos. Um dos projetos desenvolvidos pelo Far-Manguinhos em parceria com a DNDi e a empresa Sanofi-Aventis foi concluído em maio deste ano, e proporcionará o lançamento de um novo medicamento para o tratamento da malária. O produto não foi patenteado e poderá ser produzido por qualquer indústria de medicamentos genéricos. Para isso, a DNDi e a Sanofi-Aventis devem promover a transferência de tecnologia para os produtores de genéricos, de modo que o produto esteja disponível aos pacientes já em 2006. Entre as vantagens do novo medicamento estão a facilidade de uso e o baixo custo: 1 dólar por tratamento completo para um adulto. Apesar da importância desse primeiro passo da DNDi, a MSF ressalta que o parasita responsável pela malária se modifica freqüentemente em resposta a novos tratamentos, portanto, é essencial que a P&D de novos produtos seja contínua, dependendo de políticas públicas e comprometimento financeiro por parte dos governos e entidades internacionais para que novas soluções sejam apresentadas periodicamente. Ainda sobre ações voltadas para P&D de fármacos para doenças negligenciadas, algumas estatísticas da Coordenação de Programas de Pesquisa em Saúde do CNPq mostram que os investimentos em farmacologia, química e bioquímica têm crescido nos últimos anos no Brasil. Porém, é difícil saber, dentre os investimentos feitos, qual a quantia destinada especificamente para o desenvolvimento de novos fármacos, assim como, quais novos fármacos teriam relação com as doenças tropicais. No que diz respeito a linhas de financiamento ou incentivos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou recentemente um programa para financiamento à indústria farmacêutica nacional, o Pró-Farma, que não possui incentivos específicos para produção de fármacos voltados para doenças negligenciadas, o que poderia representar um estímulo para a indústria nacional produzir medicamentos para esse fim. "No entanto, pretendemos a curto prazo criar algumas diferenciações dentro do incentivo à indústria farmacêutica e dentre elas queremos contemplar as doenças negligenciadas", pontuou Pedro Palmeira, gerente de químicos para saúde do BNDES. Segundo documento produzido pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), a falta de opções terapêuticas ou tratamentos mais adequados para doenças como a do sono, leishmaniose, de Chagas, malária e outras classificadas como doenças negligenciadas, é resultado de falhas do mercado e das políticas públicas. " É preciso buscar estratégias para resolver essa questão, pois apesar do avanço no conhecimento das bases moleculares e celulares das patologias, o desenvolvimento de novas drogas para essas doenças avança a passos lentos ". Para os analistas, gerar novas drogas para doenças negligenciadas não tem como objetivo principal gerar uma nova patente, mas sim assegurar autonomia política para garantir o tratamento de patologias que não despertam os interesses econômicos das grandes corporações farmacêuticas. Para o DNDi, a mudança da situação atual exige dos governos ações que busquem estabelecer tratados globais que obriguem as empresas farmacêuticas a investir parte do seu lucro em pesquisas sobre doenças negligenciadas e que as drogas para tratamento dessas moléstias sejam consideradas bens públicos globais, passíveis de terem sua patente quebrada. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/04_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

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Políticas de C&T e Saúde Pública

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

Os avanços científicos na área biomédica da primeira metade do século passado, representados pelo desenvolvimento de antibióticos, de vacinas e de modernas tecnologias de saneamento, trouxeram como resultado o controle ou prevenção de diversas doenças infecciosas. Os esforços de vacinação coordenados em nível mundial levaram à eliminação ou drástica redução da incidência de doenças como a poliomielite, coqueluche, difteria e varíola. Os antibióticos permitiram o combate de infecções bacterianas, como meningite e pneumonia, que anteriormente eram quase sempre fatais. E pesticidas químicos auxiliaram na redução da incidência de doenças transmitidas por vetores como a malária, a doença de Chagas e a dengue. No entanto, as últimas décadas do século XX assistiram à emergência de novas doenças como a aids, hepatite C, ebola, encefalopatia espongiforme (“vaca louca”), a gripe do frango, a Síndrome Respiratória Aguda Grave (Sars), entre outras, e à reemergência ou recrudescimento de doenças que pareciam sob controle, como a dengue, cólera, malária, difteria, febre amarela e tuberculose. A crescente resistência bacteriana aos antibióticos também veio se somar às dificuldades para o controle dessas doenças e as ações e ameaças de bioterrorismo complicaram este quadro ainda mais. Diante deste panorama, o otimismo inicial do século passado teve que ser revisto, e a década de 1990 foi marcada por intensa mobilização internacional no sentido de estruturar e fortalecer a capacidade dos países para responder à "ameaça microbiana". Essa capacidade de reposta requer um sistema efetivo de vigilância e controle das doenças transmissíveis que depende essencialmente de uma infra-estrutura de pesquisa forte e estável. Estudos científicos dos agentes infecciosos e das doenças comporiam uma base de conhecimentos para o desenvolvimento ou aperfeiçoamento de testes diagnósticos para identificar as doenças, de medicamentos para tratá-las e vacinas para preveni-las. No entanto, os investimentos públicos e privados em pesquisa e desenvolvimento na área da saúde não estão direcionados para esses problemas. A maior parte desses investimentos – em torno de 90% – é utilizada para a pesquisa dos problemas de saúde de 10% da população mundial. Conseqüentemente, os restantes 10% são utilizados para pesquisar problemas que afetam 90% da população mundial. Essa disparidade tem sido designada de Desequilíbrio 10/90. Vale relembrar que as doenças infecciosas e parasitárias ainda permanecem hoje como a maior causa mundial de morbidade e mortalidade, e em muitos países concorrem como principal causa de sofrimento e morte prematura. Elas afetam desproporcionalmente os países em desenvolvimento e os segmentos populacionais mais pobres e, na maioria dos casos, as desigualdades econômicas e sociais são centrais para sua persistência e disseminação. Diante dessas constatações, iniciativas de políticas de C&T para enfrentamento desses problemas tiveram início naquela década [1990]. No plano internacional, a Organização Mundial da Saúde constituiu, em 1994, um Comitê ad hoc sobre a Pesquisa em Saúde para estudar as opções futuras da pesquisa, cujo relatório de 1996 recomendou a criação de um Fórum Global para a Pesquisa em Saúde, que teria como objetivo mobilizar forças para auxiliar na correção do Desequilíbrio 10/90. O Programa Especial para a Pesquisa e Capacitação em Doenças Tropicais – TDR, co-patrocinado pelo Banco Mundial, Organização Mundial de Saúde e pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, foi reestruturado para acompanhar as mudanças e avanços da pesquisa das doenças infecciosas e, a partir de 1998, passou a dar mais ênfase ao componente do programa que visava ao fortalecimento da capacidade de pesquisa, especialmente nos países em desenvolvimento. O Fórum Global para a Pesquisa em Saúde, criado em 1997 como uma entidade independente, elegeu o Desequilíbrio 10/90 como principal problema da pesquisa em saúde enfatizando a necessidade de fortalecer a capacidade de pesquisa nos países em desenvolvimento como uma das estratégias mais efetivas para a reversão do Desequilíbrio. Nesta nova perspectiva, formular políticas de pesquisa em saúde com o intuito de estruturar agendas de pesquisa, ou seja, de estabelecer mecanismos de priorização de áreas e temas a serem pesquisados, tornou-se imprescindível. Os processos de priorização foram considerados negligenciados até aquele momento e essa falha contribuiria para a perpetuação daquele desequilíbrio. Nesse sentido, o estabelecimento de prioridades da pesquisa em saúde em nível global, nacional e local seria o mecanismo mais fundamental para direcionar o fortalecimento da capacidade de pesquisa em saúde e para reverter o Desequilíbrio 10/90. As repercussões dessas diretrizes, no plano nacional, deram início a um amplo processo de discussão para prover o setor saúde de uma retaguarda científica e tecnológica sintonizada com as especificidades regionais e necessidades de saúde locais. O fortalecimento da articulação entre o sistema de saúde e o sistema de ciência e tecnologia seria central para esse propósito. Considerando a importância estratégica da pesquisa em saúde, processos de construção de agenda liderados pelo Ministério da Saúde e pelo CNPq, e apoiados pela Organização Panamericana de Saúde (OPAS), tiveram início em 1991, com a realização do seminário Ciência e Tecnologia em Saúde: Definição de Políticas, Necessidades e Possibilidades. A reunião promovida pela Academia Brasileira de Ciências em 1994, em que foram definidas as macrodiretrizes para uma política brasileira de ciência e tecnologia em saúde e a realização, nesse mesmo ano, da I Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia em Saúde marcaram a participação da comunidade científica e de usuários nesses processos. Como conclusão desses processos, considerados pelo CNPq como no âmbito do planejamento estratégico, foi instituído, em 1997, o Programa de Indução Estratégica à Pesquisa em Saúde (PIE/Saúde) como um instrumento de indução de pesquisas no setor. E, para sua implementação, optou-se por atender à temática das Doenças Infecciosas e Parasitárias Novas, Emergentes e Reemergentes. A criação de um departamento no Ministério da Saúde com a missão de desenvolvimento e apoio às políticas de C&T na área de saúde, as diversas reuniões promovidas pelo Ministério com a comunidade científica em 2003, a publicação da Agenda Nacional de Prioridades de Pesquisa em Saúde em 2004, e a realização da II Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação em Saúde, nesse mesmo ano, deram prosseguimento ao ordenamento dos esforços nacionais de C&T em saúde. Desse modo, o período introduziu uma política de indução de desenvolvimento de pesquisas em áreas estratégicas e as doenças transmissíveis compareceram como uma das áreas prioritárias desses esforços. Paralelamente, considerando a importância crescente da geração de inovações tecnológicas para o desenvolvimento econômico e a fragilidade das empresas nacionais neste quesito, as políticas de C&T formuladas no país ao final da década de 90 e nos anos 2000 apresentam o estímulo à inovação no setor privado como ponto central. Um conjunto de iniciativas que tinham como meta a promoção da inovação foi desenvolvido e/ou implementado nesse período. A criação dos Fundos Setoriais para financiamento da P&D, a realização da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação e novas leis de Informática, de Acesso à Biodiversidade e de Biossegurança, além da Lei da Inovação, são exemplos dessas iniciativas, que introduziriam mudanças tão significativas no arcabouço institucional e legislativo que chegaram inclusive a ser caracterizadas como uma reforma do setor de C&T. Com isso, algumas propostas mais recentes no âmbito do Ministério da Ciência e Tecnologia sinalizam uma reorientação da política de C&T em Saúde que expressa a perspectiva predominante na política nacional de C&T, ou seja, a constituição ou fortalecimento de um sistema nacional de inovação em saúde. Embora essa reorientação indique duas vertentes, forjar parcerias que visem ao fortalecimento da indústria nacional e realizar atividades de pesquisa e desenvolvimento dirigidas aos problemas de saúde do país, a ênfase tem recaído na primeira vertente, de promoção da articulação dos atores públicos e privados relevantes para a constituição de um sistema de inovação em saúde no país, com aproximação entre as atividades de pesquisa e a produção industrial. Os achados de investigação sobre as atividades e resultados da pesquisa biomédica, que conduzimos recentemente, evidenciaram que, além de produzir novos conhecimentos científicos acrescidos ao estoque de conhecimento, os laboratórios de pesquisa biomédica geram conhecimentos que são transferidos, sob diversas formas, a diversos usuários: a empresas e indústrias, a universidades, a outros institutos de pesquisa, a museus e escolas e, principalmente, ao Sistema Único de Saúde. Neste último caso, atividades de base científico-tecnológica secundárias à pesquisa biomédica são essenciais para o controle das doenças endêmicas, epidemias e para a vigilância das doenças emergentes e reemergentes, inclusive aquelas relacionadas com o bioterrorismo. A participação dos laboratórios do Instituto Oswaldo Cruz/Fiocruz na resposta imediata aos problemas emergentes como a SARS e o antraz fornecem a dimensão da importância das capacidades e competências técnico-científicas acumuladas pelos laboratórios de pesquisa biomédica no país para as estratégias de enfrentamento, não somente das doenças transmissíveis endêmicas, mas também de patógenos emergentes e ainda desconhecidos. Para finalizar, gostaríamos então de alertar que, a despeito da necessidade de incrementar pesquisa e desenvolvimento em saúde que produzam maiores aportes de conhecimentos ao setor industrial para a geração de novas tecnologias úteis ao setor, também é fundamental manter ou mesmo ampliar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento que servem de retaguarda ao SUS e, particularmente, ao sistema de vigilância epidemiológica. Deste modo, a tensão entre as vertentes de aproximação do empreendimento científico da saúde ao setor industrial e/ou ao sistema de saúde será resolvida em perspectivas integradoras de políticas de C&T em saúde, minimizando possíveis efeitos adversos para a saúde pública. Mariza Velloso Fernandez Conde é analista de C&T do Instituto Oswaldo Cruz / Fiocruz e doutora em Política Científica e Tecnológica (IG / Unicamp). Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/10.shtml Consultado em 23/02/2007

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Sem lucro não há interesse

2017-01-10T17:18:28-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

A despeito da necessidade de investimento em pesquisa e desenvolvimento, sinalizada desde meados da década de 70 pela Organização Mundial da Saúde (OMS), e embora existam altos índices de ocorrência e mortalidade, doenças tropicais como malária, leishmaniose ou doença de Chagas não têm sido um alvo privilegiado pela indústria farmacêutica. ONGs, médicos e pesquisadores afirmam que o desinteresse ocorre porque doenças tropicais, recorrentes em países subdesenvolvidos, não representam um mercado lucrativo para as indústrias. A organização Médicos Sem Fronteira (MSF) revela que somente 1% dos 1393 novos medicamentos, registrados entre 1975 e 1999, destinava-se a doenças tropicais e tuberculose. Sérgio Queiroz, economista da Unicamp, concorda que a indústria farmacêutica não vê nas doenças tropicais uma fonte de lucro. “De modo geral, as empresas realmente não têm interesse em doenças tropicais. Esses mercados são pequenos ou inexistentes, o que não quer dizer que as pessoas que sofrem dessas doenças sejam poucas. A indústria está interessada no dinheiro”, afirma. O economista observa ainda que, se houvesse sistemas de saúde adequados e abrangentes nos países subdesenvolvidos, o governo pagaria pelos medicamentos que a população não pode comprar, criando o mercado que a indústria quer. Concordando com a idéia, o médico do Instituto de Medicina Tropical da USP, Heitor Franco de Andrade Júnior, salienta a importância de diferenciar as doenças tropicais e doenças mais recentes, como a aids, que recebeu consideráveis somas de investimento por afetar cronicamente grandes populações. Na opinião de Andrade Junior, a diferença ocorre porque doenças tropicais mais antigas não têm o impacto comercial significativo para as indústrias farmacêuticas que a aids tem. Queiroz complementa a informação dizendo que apesar do maior contingente de doentes de aids estar na África, a maior parte do lucro dos medicamentos vem dos países desenvolvidos: “Certamente a indústria vende medicamentos anti-aids para o Brasil, assim como para outros países do terceiro mundo, mas o que ganham aqui não é nada perto do que eles ganham lá. Essa possibilidade não existe com relação às doenças tropicais de uma forma geral”. Andrade Júnior explica que a lógica de funcionamento da indústria farmacêutica passa também pelo tempo de uso pelo do paciente: “Os medicamentos para a aids devem ser tomados por muitos anos seguidos, enquanto que para a malária apenas seis doses são suficientes para solucionar o problema. Isso também faz com que o investimento na aids traga maior retorno para a indústria farmacêutica e justifique investimentos maiores”, diz ele. De acordo com a organização MSF, medicamentos antigos e pouco eficientes ainda são muito utilizados no tratamento de doenças tropicais, três mil pessoas morrem por dia por não ter acesso a tratamentos mais efetivos contra, por exemplo, a malária. Enquanto isso, as indústrias farmacêuticas investem bilhões de dólares por ano em pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos concentram seus esforços em drogas para doenças ou necessidades típicas dos países mais ricos. Queiroz explica que as doenças que mais atingem a população dos países desenvolvidos são as degenerativas, como problemas cardíacos ou mal de Alzheimer, enquanto que nos países pobres, incidem principalmente doenças infecciosas ou tropicais, sendo a aids, uma exceção nesse panorama. No rol das doenças que interessam à indústria, Andrade Júniorcoloca ainda as chamadas drogas recreativas. O maior exemplo é o Viagra, remédio para combater a disfunção erétil que os indivíduos utilizam voluntariamente e sem receita. “As drogas são desenvolvidas visando o mercado potencial delas e não as necessidades da sociedade, tanto é que se gasta muito mais com o marketing de um medicamento do que com a produção dos compostos em sua formulação”, diz ele. Sérgio Queiroz afirma que o interesse da indústria farmacêutica pela saúde é um mito, algo que faz parte do marketing, e explica as motivações: “Não estou dizendo que por conta disso a empresa não está nem um pouco interessada na saúde. Existem várias situações em que buscar a saúde é ao mesmo tempo buscar o lucro, há uma coincidência de objetivos sanitários e econômicos. Isso ocorre freqüentemente, mas a empresa não está orientada por motivos de saúde, e sim pela lucratividade. Se resolver o problema de saúde, mas não resolver o problema do lucro, ela não fará”, conclui Queiroz. Responsabilidade social absorve a crítica Contudo, a imagem negativa da indústria junto ao público também não faz bem aos negócios. Por esse e outros motivos, algumas empresas têm procurado se aproximar de iniciativas voltadas para os países subdesenvolvidos.Esse é o caso da empresa Novartis que criou, em 2003, em Cingapura, o Instituto Novartis de Pesquisa em Doenças Tropicais. Mais recentemente, a mesma empresa criou um portal voltado para pesquisadores e centros de pesquisa, que visa agilizar a troca de informações e conhecimento a respeito do tema. O projeto é uma parceria da Novartis com a Fapesp, Instituto de Medicina Tropical, da Faculdade de Medicina da USP, Sociedade Brasileira de Medicina Tropical e a ONG Médicos sem Fronteiras. Sálvio Di Girólamo, diretor de relações externas da Novartis afirma que a empresa assumiu de forma muito intensa os princípios e compromissos com o movimento sustentável, em resposta a questionamentos que estavam sendo feitos há muitos anos à indústria farmacêutica. “De fato, a indústria não estava se ocupando de desenvolver ou pesquisar sobre doenças presentes principalmente nos países em desenvolvimento. A iniciativa em Cingapura foi uma resposta a esta verdade”, declarou Di Girólamo. Para o diretor, as acusações contra a indústria farmacêutica de uma maneira geral são justas e é importante assumir essa questão para que o problema seja revertido. “Não dava mais para fazer de conta que não estava acontecendo nada. Os meios de comunicação hoje estão publicando críticas de forma instantânea no mundo inteiro. Isso está criando condições para que nós tratemos de coisas que até então não estavam sendo tratadas”, diz o diretor. Di Girólamo reconhece que, com a idéia cada vez mais presente de responsabilidade social, empresas podem ser penalizadas por atitudes que não são consideradas dignas. “Isso pode fazer com que o valor da ação da empresa caia. Não é só uma questão de responsabilidade social, é uma responsabilidade com o acionista. É um conjunto de fatores que estão empurrando - felizmente - as organizações numa direção muito mais humana.”, comemora Di Girólamo. Mas a iniciativa da indústria farmacêutica com relação às doenças tropicais traz mais mensagens. Daniel Vasella, presidente mundial da Novartis, em visita ao Brasil em janeiro deste ano, criticou a política brasileira relativa às patentes de certos medicamentos, afirmando que ela gera desconfiança, o que afasta os investidores estrangeiros. Na mesma oportunidade, Vasella criticou ainda a rigidez de regras para a pesquisa. Terceiro mundo como foco para pesquisas clínicas e regulação de patentes Falando pela Novartis, Sálvio Di Girólamo afirma que a crítica do presidente da empresa refere-se à fase de desenvolvimento dos medicamentos. Nessa fase, estão as pesquisas clínicas 2, 3 e 4 (a 1 é com animais). “Muitas vezes exige-se das indústrias estudos com 40 ou 50 mil pacientes. Dificilmente uma empresa na Suíça vai conseguir 50 mil pacientes que tenham aquela doença. Então, montam-se vários centros de estudos pelo mundo afora. Ao fazer isso, a indústria está investindo em cada um desses centros, trazendo recursos ou comprando equipamentos. O que nós queríamos é que o Brasil pudesse atrair essa área de desenvolvimento da indústria farmacêutica”, esclarece Di Girólamo. O diretor da Novartis afirma que, enquanto as comissões de ética no mundo aprovam as pesquisas da fase 4 em 90 dias e já montam os grupos de pacientes, o Brasil demora nove meses para aprovar e montar esses grupos: “Como o fator tempo é um fator crítico de sucesso, o Brasil acaba ficando fora de muitos estudos que poderiam ser feitos aqui. A nossa estimativa é de que o Brasil deixa de arrecadar algo em torno de US$ 300 milhões todos os anos para pesquisas clínicas. Imagine o que esse dinheiro poderia fazer pelo desenvolvimento do Brasil.” Di Girólamo explica a fala de seu chefe afirmando a necessidade do Brasil competir com esses outros países na atração dos investimentos, que podem ajudar a desenvolver conhecimento e gerar empregos. “O que Vasella diz é que o Brasil não é o único país do mundo. Existem muitos países querendo crescer e se desenvolver, posicionando-se como excelentes áreas de oportunidade para os investidores internacionais”. Sérgio Queiroz afirma que todas as empresas farmacêuticas importantes, que têm atividades de pesquisa, apresentam esse argumento de que a política de ameaça de quebra de patentes brasileira gera um clima de instabilidade. “Um país com proteção de patentes inadequada é um país que elas vão boicotar, pois ninguém investe em P&D sem ter perspectivas de se apropriar dos ganhos. Por outro lado, o ponto de vista do Brasil é que essas empresas reduzam o seu poder de monopólio. O governo também está certo em defender seu ponto de vista e barganhar com essas empresas condições e preços melhores”, diz o economista. Para Queiroz, além do fator marketing, as indústrias farmacêuticas estão atentas para o momento em que há, nos países pobres, um crescimento de renda suficiente para aumentar o consumo de medicamentos, ou o início de programas governamentais de atenção à saúde, que incluam pacotes de medicamentos para a população. “As empresas monitoram tudo isso. No momento em que isso começa a acontecer - e talvez haja algum sinal de que isso já está acontecendo - então começam a investir em doenças tropicais. Certamente elas não vão ser pegas de surpresa. Vejo o investimento da Novartis já como uma sinalização nesse sentido”, diz o economista. O médico Andrade Júnior acredita que o crescimento da atenção das indústrias farmacêuticas sobre o terceiro mundo não pode ser desvinculado de seus interesses, seja pelo marketing, para se firmar diante de mercados potenciais que países como Brasil, Índia ou China representam, ou ainda, pelas vantagens econômicas existentes na realização das pesquisas nesses países, com menor custo de mão de obra. Apesar disso, Andrade considera que essa atenção da indústria farmacêutica pelas patologias tropicais deve ser valorizada. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/03.shtml Consultado em 2302/2007

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Trabalho em rede: do desenvolvimento científico e tecnológico à mobilização social para o controle da Tuberculose

2017-01-10T17:18:28-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

A tuberculose (TB), que foi o desespero e a causa de morte de milhões de pessoas no século XIX, está novamente rondando o país. Após ter sido considerada sob controle, ressurgiu na década de 90 como uma das principais doenças infecciosas letais. A TB representa, atualmente, um sério problema de saúde pública envolvendo aspectos sociais e econômicos para o Brasil e o mundo. Aproximadamente, um terço da população mundial está infectada pelo bacilo da TB (Mycobacterium tuberculosis). Cerca de 54 milhões de pessoas se infectam anualmente; 9 milhões desenvolvem a doença e 3 milhões morrem de uma doença que tem cura. O bacilo da TB mata mais indivíduos que qualquer outro agente infeccioso sozinho. Os óbitos representam 25% de toda mortalidade evitável nos países em desenvolvimento, onde se registram 95% dos casos e 98% dos falecimentos causados pela doença. A maioria (75%) dos casos ocorre no grupo etário economicamente produtivo (15-50 anos) e é a principal causa de morte por infecção de mulheres, principalmente, de mulheres jovens. Entre as razões para tal cenário, deve-se assinalar a desigualdade social e suas implicações, como as más condições de nutrição, transporte, educação, moradia (por exemplo, os aglomerados populacionais); o advento da aids; os movimentos migratórios; o envelhecimento da população e a má qualidade dos programas de controle de TB sob a coordenação dos gestores públicos. O Brasil ocupa o 15º lugar no ranking dos 22 países onde se estima que ocorram 80% dos casos de TB do mundo. Estima-se que um terço da população brasileira também esteja infectada pelo bacilo da TB e os dados indicam a ocorrência de 128 mil casos da doença por ano, dos quais são notificados apenas cerca de 90 mil, em sua maioria, em grandes centros urbanos. Cinco estados brasileiros contribuem com dois terços de todos os casos no país. Na região Sudeste, os estados de São Paulo e Rio de Janeiro relatam 40% dos casos. Nos grandes centros urbanos, a ocorrência de TB cresceu significativamente; por exemplo, as taxas de TB na cidade do Rio de Janeiro cresceram de 80/100.000 habitantes em 1985 para 112/100.000 em 2000. O coeficiente de mortalidade, em 1998, foi de 3,5/100.000 pessoas; o percentual de detecção de casos foi igual a 67% e o percentual de curas, 72%. O percentual de abandono do tratamento está em torno de 12% no país, chegando, em algumas capitais, ao valor de 30 a 40%, o que pode resultar em elevadas taxas de resistência aos medicamentos. A avaliação do perfil de resistência aos medicamentos anti-TB é realizada em menos de 5% dos casos diagnosticados, sendo que, no momento, existem cerca de 1.200 casos de TB multi-droga resistente em tratamento no sistema de saúde, usando regime de tratamento com medicamentos de terceira linha com baixos índices de cura (<50%). Cerca de 90% desses casos são registrados nos estados do Rio de Janeiro e São Paulo. Ademais, a TB é a principal causa de morte em pessoas infectadas pelo vírus HIV. Pouca ênfase foi dada pelos gestores públicos, nas ultimas décadas, a estudos integrados capazes de envolver frentes de prevenção, quimioprofilaxia, diagnóstico, tratamento, aspectos operacionais e à formação de recursos humanos, segundo uma lógica de educação permanente, para enfrentar problemas como o da TB. A novidade ocorrida recentemente no Brasil foi a implantação do Instituto do Milênio Rede Brasileira de Pesquisas em Tuberculose – a Rede TB, aprovado em 2001 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia, e que pode, em médio prazo, contribuir para mudar o cenário tenebroso dessa doença. No momento de sua criação, a Rede TB tinha como objetivos fundamentais: (i) consolidar uma rede brasileira de pesquisas em TB de caráter inovador, transdisciplinar, interinstitucional, e constituída por pesquisadores de áreas básicas, tecnológicas, clínicas, epidemiológicas e operacionais, pertencentes às cinco macro-regiões brasileiras; (ii) estabelecer estratégias integradas para pesquisa, desenvolvimento e inovação, e obtenção de conhecimentos e produtos necessários ao controle da TB, como novas vacinas, medicamentos e testes de diagnósticos (iii) treinar e formar recursos humanos por meio de cursos de especialização, educação continuada e de treinamentos que permitam ao profissional de saúde se capacitar para metodologias apropriadas para a resolução de problemas identificados dentro de sua prática diária, seja nas Instituições de Pesquisa, na Comunidade ou em Unidade de Saúde de nível primário, secundário ou terciário. Para a consecução dos seus objetivos e realização das metas, a Rede TB promoveu, nos últimos três anos, uma mobilização intensa de pesquisadores das universidades e institutos de Pesquisas, assim como do setor empresarial, entidades governamentais, sociedade civil organizada, organizações não-governamentais e conselhos de saúde, visando maior integração entre os diversos setores envolvidos no controle dessa enfermidade. Nesse período, atuou como um fórum permanente de interlocução na antecipação de tendências, identificação de oportunidades, mapeamento de competências e construção coletiva de propostas de ações e estratégias em ciência, tecnologia e inovação. A experiência de criação da Rede TB se mostrou altamente positiva na articulação dos grupos de pesquisa e otimização e utilização de recursos humanos e de infra-estrutura. O projeto permitiu a consolidação efetiva de uma rede de pesquisas na área de uma doença negligenciada, congregando pesquisadores de todas as áreas afeitas a TB. A implantação da Rede TB está trazendo importantes contribuições com grande impacto para a área de ciência e tecnologia nacional. Dentre estes podemos destacar: (i) estruturação de rede de pesquisa na área de doenças infecciosas envolvendo grupos consolidados e emergentes das cinco macro-regiões brasileiras; (ii) inovação e desenvolvimento tecnológico de produtos e processos (vacinas, medicamentos, testes diagnósticos); (iii) estabelecimento de plataformas tecnológicas, inéditas no Brasil, para pesquisa, desenvolvimento e inovação de vacinas, medicamentos e testes diagnósticos, compreendendo pesquisadores e instituições envolvidas com pesquisa básica, desenvolvimento tecnológico, testes pré-clínicos em animais e clínicos em humanos; (iv) obtenção de patentes e divulgação do conhecimento por diferentes meios (mídia, publicações, livros, teses e dissertações); (v) formação de recursos humanos nos diferentes níveis: científico, tecnológico e serviços de saúde; (vi) criação de empresas de base tecnológica (spin-offs) e inserção de pesquisadores nas empresas; (vii) efetiva interação transdisciplinar e multi-institucional entre pesquisadores e instituições nacionais e internacionais; (viii) maior interação entre instituições de pesquisa/universidades (públicas ou privadas), gestores, trabalhadores e usuários do sistema de saúde, das diversas macro-regiões brasileiras; (x) fixação de jovens pesquisadores de reconhecido talento em instituições de pesquisa e empresas; (xi) transferência de tecnologia e conhecimentos para o setor produtivo estatal ou privado, e para instituições governamentais. Como a TB ainda constitui um sério problema de saúde púbica, essa doença foi incluída na lista de prioridades do Ministério da Saúde em 2004. Diante da necessidade de ampliar a atuação do Programa Nacional de Controle da TB em uníssono com a mobilização global em torno da luta contra essa doença (movimento Stop TB Partnership da OMS), foi proposta pelo Ministério da Saúde, a consolidação de um fórum de parcerias que coordenasse uma mobilização social efetiva nas ações de controle em âmbito nacional. Para essa parceria, foram convidadas pelo Ministério da Saúde, além da Rede TB, as instituições governamentais federais, estaduais e municipais; a sociedade civil organizada; as organizações religiosas; o setor privado; as organizações de educação, comunicação e divulgação; as associações técnico-científicas e as agências internacionais. A Rede TB foi eleita para participar da secretaria executiva desse fórum parceria brasileira pelo controle da TB, cujo objetivo geral é promover uma política de Estado capaz de congregar esforços e promover ações conjuntas e articuladas entre o governo e a sociedade civil organizada para o controle da TB. Essa iniciativa, ao se distinguir das propostas vinculadas a políticas de governo, caracterizadas por elevada instabilidade e ausência de sustentabilidade devido, principalmente, às mudanças dos gestores públicos, representa um momento histórico em plano nacional para o combate à TB e de consolidação da Rede TB junto aos parceiros que representam a sociedade civil e a academia, trabalhando em uníssono com o governo, ONGs e agências internacionais (Stop TB, WHO, IUATB). Célio Lopes Silva é bioquímico, biólogo molecular e imunologista da faculdade de medicina de Ribeirão Preto da USP Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/12_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

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As múltiplas frentes da batalha contra a malária

2016-02-02T20:46:04-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

A primeira vacina contra a malária pode estar disponível no mercado no ano de 2010, e diversas outras vacinas e medicamentos estão sendo investigados. Os remédios existentes enfrentam crescentemente o problema da resistência dos plasmódios, e uma vacina representará uma poderosa arma no combate à infecção. A doença mata anualmente cerca de 1 milhão de indivíduos, e entre 300 e 500 milhões são infectados, segundo a OMS, mas os números podem estar subestimados. Mulheres grávidas, que sofrem uma diminuição da resposta imunológica a substâncias e organismos invasores, e crianças, sobretudo as que têm menos de 5 anos, ainda não foram suficientemente expostas aos parasitas de modo a desenvolver uma defesa. As crianças representam o principal alvo da candidata a vacina mais promissora, atualmente na segunda fase dos testes clínicos, que é produzida pela Glaxo SmithKline (GSK) Biologicals, da Bélgica, e testada em parceria com a Malaria Vaccine Initative Programme for Apropriate Technology in Health (MVI-PATH). Essa organização-não governamental foi criada em 1999, com verba da Fundação Bill & Melinda Gates e objetivo específico de acelerar a pesquisa e desenvolvimento da vacina contra a malária. O alto custo do processo fez a GSK buscar parceria da MVI. Por outro lado, o mercado potencial é grande: em 2010, a equipe estima que 3,5 bilhões de pessoas habitarão áreas em que a doença é transmitida. Os resultados obtidos nos primeiros testes com crianças foram publicados na revista The Lancet, em outubro de 2004. O princípio ativo da vacina consiste no pedaço de uma proteína da superfície celular do esporozoíto, forma do Plasmodium falciparum, o mais letal dos plasmódios, que infecta o organismo humano - denominada proteína do circum-esporozoíto (CSP, sigla em inglês) -. Por meio de engenharia genética, uma parte da receita para a fabricação dessa proteína foi fundida com as instruções para produção de uma proteína de superfície do vírus da hepatite B, e a fusão foi inserida em leveduras (Saccharomyces). A substância formada, nas células das leveduras, a partir dessas instruções, se dobra de modo tal que forma partículas que geram muito mais resposta imune do que provocaria se não assumisse essa conformação. "A fusão é uma das razões, efetivamente, pelas quais obtivemos uma melhor resposta imunológica", diz Jean Stéphenne, presidente da GSK e que trabalha há mais de 20 anos nessa busca e viu muitas possibilidades serem testadas sem sucesso. Mas a vacina tem outro 'segredo': um novo adjuvante (substância que incrementa o efeito farmacológico de um medicamento ou as propriedades imuno-estimulantes de um antígeno), de propriedade da GSK, que contém na fórmula o monofosforil lipídio A (MPL) e o QS-21. "Essas substâncias estimulam diferentes aspectos do sistema imunológico, em particular, respostas humorais - produção de anticorpos -, e respostas celulares, por meio do linfócito T", explica Stéphenne. Recrutado, o linfócito ataca as células que hospedam o parasita, o que, tudo indica, é necessário para que haja, de fato, proteção, com a eliminação dos reservatórios da doença. "Para que uma vacina seja efetiva, deve ser composta de antígenos do protozoário que sejam relativamente invariáveis e essenciais para sua sobrevivência", acrescenta Shirley Longacre, pesquisadora do Instituto Pasteur, na França. Outro requerimento a ser preenchido: os antígenos têm de ser apresentados à defesa humana de modo que sejam reconhecidos como 'estranhos' e 'perigosos', provocando uma resposta imune efetiva que não resulte numa toxicidade inaceitável para o paciente. Longacre e sua equipe acreditam ter encontrado na MSP1p19, ou proteína de superfície 1 do merozoíto - forma do plasmódio que infecta as hemácias -, uma candidata com as características desejadas: para invadir as células vermelhas do sangue, o plasmódio precisa dela, que mostra pouca variação de uma linhagem a outra. Modelos animais Antes de avaliar os efeitos dos antígenos sobre o organismo humano, os cientistas lançam mão de modelos animais. No Centro Médico da Universidade Leiden, na Holanda, Andy P. Waters é membro da equipe que estuda os genes do Plasmodium berghei, que infecta ratos e camundongos de laboratório, e apresenta entre 4500 e 5500 genes equivalentes aos do P. falciparum. "Muitos genes que codificam equivalentes de antígenos candidatos a vacina contra o P. falciparum foram encontrados: CS, LSA-1, MSP-1, Pfs28, Pfs25, a lista é longa", diz. Segundo Waters, o modelo reproduz virtualmente todos os aspectos da biologia dos parasitas humanos, permite estudar as interações com o hospedeiro in vivo e representa um sistema seguro, uma vez que o plasmódio do roedor não infecta o homem. Sobre os alvos que seu grupo investiga, Waters faz segredo e diz apenas que tenta compreender os mecanismos que regem o desenvolvimento do plasmódio e a forma como ele percebe o ambiente. A partir desse conhecimento, devem desenvolver novas terapias. "Quando injetado em macacos, com os imuno-estimulantes adequados, o pedaço do MSP induz a produção por anticorpos que protegem os animais numa subseqüente exposição ao plasmódio", conta. Provavelmente, de acordo com Longacre, os anticorpos atuam de duas maneiras distintas. A primeira, ligando-se ao antígeno de superfície do merozoíto, impedindo-o de funcionar corretamente, o que inibe a invasão da hemácia. A segunda seria uma colaboração com outras células de defesa, os macrófagos; que seriam induzidos a destruir os merozoítos. O Instituto Pasteur planeja iniciar a primeira fase de testes clínicos em 2006. Entretanto, em que medida as reações imunológicas dos animais se assemelham às reações humanas? A resposta a essa questão permanece em aberto, tornando necessário o teste de antígenos candidatos diretamente em voluntários. Em laboratório, sob condições controladas, os indivíduos que se dispõem a tal são submetidos à picada do anófeles e, conseqüentemente, à infecção pelo plasmódio. Assim, os cientistas podem estudar em que consiste exatamente a resposta imunológica do organismo humano e se a imunização contra o plasmódio, de fato, requer o estímulo a respostas celulares. Corrida armamentista É comum aos protozoários se multiplicarem, atingindo a ordem de dezenas de milhares, muito rapidamente. O plasmódio, como outros protozoários que causam doença, passa grande parte de seu ciclo de vida, dividido entre três formas (esporozoíto, merozoíto e gametócito), no interior das células do hospedeiro. No homem, invade as células do fígado e os glóbulos vermelhos do sangue. Além disso, o plasmódio tem mecanismos para mudar constantemente as características que, diante da defesa do organismo, lhes servem como credenciais: os antígenos de superfície. A variação genética existente nas populações selvagens do protozoário é outro fator que dificulta o reconhecimento do 'inimigo'. "Assim, o sistema imunológico tem dificuldades em reconhecer a maioria das linhagens ou todas aquelas com que um indivíduo pode deparar, particularmente numa região de alta transmissão", explica Longacre. Outra conseqüência do polimorfismo genético do plasmódio é que ele pode proporcionar o desenvolvimento rápido de resistência contra remédios. Karen Hayton, do Laboratório de Pesquisa da Malária e Vetor, dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, EUA), estuda as mutações genéticas que conferem resistência à cloroquina, atribuídas ao gene que seria de uma proteína transportadora, a PfCRT. "A identificação dos genes envolvidos na resistência aos medicamentos é importante para compreender e prever como a resistência a um certo remédio aparece, abrindo caminho para que os inibidores serem redesenhados", diz Hayton. Para lidar com a resistência, no Brasil, pesquisadores do Centro de Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas e Biológicas (CPQBA), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aclimataram às condições locais o arbusto Artemisia annua. Essa planta é usada na China há milhares de anos contra a febre e representa um recurso importante contra as linhagens resistentes do plasmódio. De acordo com Adilson Sartoratto, pesquisador do CPQBA-Unicamp, um convênio deve ser assinado com a empresa Labogen, e o remédio com base na artemisinina e seus derivados pode estar disponível dentro de um ano, mas somente para campanhas de saúde pública - não será vendido em farmácias. Outro grupo que trabalha contra a resistência do plasmódio é coordenado por Luiz Hildebrando Pereira da Silva, no Centro de Pesquisa em Medicina Tropical (Porto Velho, RO), desenvolvendo pesquisas em colaboração com outros centros como a USP, a Fiocruz e o Pasteur. "Neste momento, desenvolvemos estudos e projetos ligados à resistência de antimaláricos (in vivo e in vitro) dentro de um grupo multicêntrico, ligado ao Ministério da Saúde e a OPAS", conta o pesquisador Mauro Shugiro. Outras frentes de pesquisa envolvem a busca de inseticidas ou repelentes mais eficazes, ou, por meio de engenharia genética, a criação de mosquitos incapazes de transmitir a doença. Essa última abordagem encontra um empecilho nos riscos associados à introdução deliberada de um organismo transgênico no ambiente. Diversos laboratórios no mundo se dedicam ao trabalho de prospecção de alvos potenciais, por meio da genômica e da proteômica - estudos, respectivamente, de genes e proteínas em larga escala -. "A seqüência genômica fornece informações que ajudam a identificar vias bioquímicas que não existem em humanos e poderiam, portanto, servir de alvo para drogas", afirma Malcolm Gardner, biólogo molecular do Instituto para Pesquisa Genômica (TIGR), nos Estados Unidos. Seqüências completas ou incompletas foram obtidas para os parasitas de: humanos - Plasmodium falciparum e P. vivax; roedores - P. yoelii, P. chabaudi, P. berghei; e macaco (P. knowlesi). Em 2001, foi concluído o seqüenciamento do genoma humano e, no ano seguinte, foi a vez do mosquito Anopheles gambiae. De acordo com Gardner, são diversas as aplicações potenciais. "Acreditamos poder utilizar os dados do genoma para acelerar a pesquisa e alcançar uma compreensão melhor e mais detalhada das interações hospedeiro-parasita-vetor", conta. Em relação ao mosquito, novos repelentes serão desenhados com o entendimento molecular sobre como ele encontra as vítimas a serem picadas. Quanto ao parasita, novas drogas e vacinas terão como alvo moléculas essenciais de seu metabolismo. Para os humanos, testes diagnósticos ajudarão a identificar os pacientes sob maior risco de desenvolver as formas severas da doença, como a malária cerebral. A análise das proteínas tem indicado outros alvos. "Nenhum pode, a essa altura, ser descartado", afirma H. Stunnenberg, do Centro Molecular de Ciências da Vida da Radboud University Nijmegen, Holanda. "Os estudos que realizamos vão colocar no cenário as deacetilases (HDACs, que removem grupamentos acetil) de histonas (proteínas que fazem parte da estrutura do DNA) e outras enzimas que fazem modificações epigenéticas". A epigenética é uma área florescente que investiga alterações na expressão dos genes que não estão codificadas nas quatro letras (A, T, G e C) do código genético: metilação do DNA, interferência de RNA e acetilação de histonas, por exemplo. No Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz, de acordo com a pesquisadora Maria de Fátima Ferreira da Cruz, do Laboratório de Pesquisa em Malária, sua equipe tem usado os dados da proteômica e também os relativos à variação genética (polimorfismo) do plasmódio para desenvolver candidatas a vacinas. Na busca de novos medicamentos, merecem destaque os projetos que a fundação Medicines for Malaria Venture (MMV) e a MVI realizam em colaboração com empresas (não somente do setor farmacêutico), laboratórios militares, universidades e instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os parceiros da MMV vêm investigando o potencial terapêutico de diversas substâncias: falcipaína, piridonas, peróxidos sintéticos, derivados do antibiótico tetraciclina, terapias que combinam diversos derivados da artemisinina e a DB289, que atualmente passa pela primeira fase dos testes clínicos. No portfólio da MVI, entre os antígenos, encontram-se: LSA-1, MSP-1, AMA-1, MSP-2, MSP-4, MSP-5, RAP-2, FMP-1 ? os dois primeiros estão em desenvolvimento pré-clínico. A lista é grande e promissora. No entanto, da identificação de moléculas potencialmente úteis ao mercado, o caminho é longo e, muitas vezes, tem de ser interrompido porque a promessa não se realiza. Como há diversas frentes de investigação, segundo os cientistas, é preciso haver também uma combinação de estratégias para haver um combate efetivo da malária. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/16.shtml Consultado em 23/02/2007

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Doença de chagas: paradoxos e ilações

2016-02-02T20:46:05-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

Embora os surtos da doença de Chagas recentemente ocorridos em Santa Catarina e no Amapá fossem de curta duração, o seu tratamento pelas autoridades e pela mídia, e o seu efeito sobre a população dão vazão para ilações importantes. O surto em Santa Catarina parece ter começado quando, em meados de fevereiro, viajantes na BR-101 pararam em um quiosque perto de Navegantes, a 113 km de Florianópolis, e ingeriram caldo de cana contaminado com Trypanosoma cruzi. No início de março apareceram as primeiras notícias assustadoras do acometimento de dezenas de pessoas com doença febril, diagnosticada como doença de Chagas aguda; houve seis fatalidades. Os pronunciamentos pretensamente tranqüilizadores das autoridades sanitárias pouco esclareceram. “Há um clima de pavor sem necessidade." "Confirmada a doença, existe remédio, tem tratamento, não tem problema nenhum." "A situação está precisamente esclarecida, o que dá uma segurança maior para saber quais pessoas estariam expostas à contaminação" (Luis A.Silva, diretor da Vigilância Epidemiológica–SC). E, dentro de poucos dias, o silêncio. (Deve ser lembrado, porém, que, não fosse a coincidência desses noticiários com a doença e morte do Papa, que ofuscou todos os demais eventos do período, possivelmente o surto teria continuado por mais tempo a atrair a atenção da mídia e do público.) Mais notáveis ainda foram os comentários oficiais sobre o surto no Amapá, que antecedeu o de Santa Catarina. A Nota Técnica de 4/4/2005 da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS) informa que "em 3l de março recebeu relatório do Instituto Evandro Chagas/PA sobre a investigação de um surto de doença febril aguda, na localidade denominada Igarapé da Fortaleza/AP, ocorrido de 4 a 19 de dezembro de 2004..." Exames preliminares sugeriram doença de Chagas. "A coleta de sangue das pessoas contaminadas foi feita em fevereiro, mas o resultado dos exames estava sob sigilo da Secretaria de Saúde. Apesar do número elevado de pessoas contaminadas, a Divisão de Epidemiologia descarta a ocorrência de surto da doença no Estado... A epidemia não existe porque não foi encontrado o barbeiro. 'Por isso, afirmamos que esses casos são acidentais. A exemplo do que ocorre em Santa Catarina, no Amapá a contaminação não está acontecendo de forma clássica, ou seja, com o paciente sendo picado pelo mosquito" (sic).(Clóvis O.Miranda, chefe da Divisão Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde) (Itálicos R.L.) Note-se que só foi mencionado o número de pessoas acometidas (26); nada foi dito sobre a morbidade ou mortalidade do surto. Longe de tranqüilizar a população, essas afirmações, que beiram o grotesco, só serviram para aumentar a insegurança geral. Nem foi outro o efeito da declaração do Ministro da Saúde, doutor Humberto Costa, em Petrolina-PE a 8 de abril. Esses pronunciamentos e suas implicações são analisados no meu artigo "Do caldo de cana ao suco de açaí", publicado pelo Jornal da Unicamp em 11 de abril (parte I) e 9 de maio (parte II).[1, 2] Nele, critico a desinformação oferecida ao público, exemplificada pelos trechos citados, e questiono por que os resultados dos exames no Amapá foram mantidos sob sigilo da Secretaria de Saúde durante semanas. "Isso equivale a esconder da população o perigo iminente de contrair a doença de Chagas, ao passo que toda a região amazônica deveria ter sido alertada, em termos que não deixassem dúvida, do risco de ingerir polpa ou suco cru de açaí, mormente porque já era conhecida a transmissão por via oral, e pela contaminação da mesma fruta! Essa simples precaução de evitar a polpa e o suco crus teria sido mais eficaz do que qualquer outra medida ..." O artigo atendeu ao pedido de várias pessoas, preocupadas como eu com a quase total ignorância do público (e, diga-se de passagem, de muitos médicos) quanto aos fatos básicos da doença. Objetivando contrabalançar o "espúrio senso de segurança [criado] pelas afirmações das autoridades sanitárias...", enfatiza a necessidade e urgência de "esclarecimentos sobre (1) causas, transmissão e manifestações da doença, e sua prevenção; (2) as medidas de controle; (3) o significado e os limites do controle." Tentei preencher esses desideratos na medida do possível, mas o espaço reservado ao artigo só permitiu a abordagem de uma fração dos problemas. Ficaram em aberto questões cruciais: a inexistência de dados epidemiológicos sobre a doença, que impede um conhecimento mesmo aproximativo de suas dimensões; a assistência médica e social ao chagásico crônico sintomático, e a discriminação que sofre no mercado de trabalho; o desmantelamento das estruturas de vigilância e controle locais e intermunicipais e dos elos com as comunidades, e muitos outros problemas; além daqueles mais especificamente médico-científicos que ultrapassam o âmbito da divulgação geral. E uma dúvida recorrente: por que a doença de Chagas, numericamente muito mais importante do que a aids, só atrai a atenção da mídia e do público na iminência de um desastre que ameaça alastrar-se além das classes normalmente expostas ao contágio, e recai no esquecimento assim que o perigo parece ter passado? Em parte, esse estado de coisas pode ser visto como seqüela dos acontecimentos após a Segunda Guerra Mundial, quando as descobertas das sulfonamidas e sobretudo dos antibióticos pareciam prenunciar o fim de todas as doenças contagiosas. A euforia durou pouco, porém, e a explosão do conhecimento científico nas décadas seguintes transformou o mundo, e trouxe mudanças radicais na visão da sociedade sobre os problemas da saúde e doença. Encontram-se motivos de sobra, socioeconômicos e políticos, que explicam o subseqüente desinteresse das autoridades e da indústria farmacêutica pelas doenças endêmicas no terceiro mundo.[3] De outra parte, o vaivém do pêndulo entre expectativa e decepção, ambas exageradas, é um dos paradoxos que caracterizam a nossa sociedade e o nosso tempo, tal como o descompasso entre o potencial virtualmente ilimitado da ciência e tecnologia e a sua aplicação em benefício da humanidade.[4] Assim, o homem explora os mistérios do espaço cósmico, enquanto grande parte da humanidade vive ao relento; "1100 milhões de pessoas carecem de acesso a água potável;... 2400 milhões ... não têm acesso a serviços de saneamento adequados;... e morrem diariamente cerca de 6000 crianças devido a doenças ligadas à água insalubre e a... saneamento e higiene deficientes..."(OMS) Embora as técnicas modernas multipliquem a capacidade de produção agrícola, todo ano a fome e subnutrição fazem milhões de vítimas. A ciência e tecnologia parecem empenhadas em uma corrida desenfreada para encontrar novos apetrechos, novos botões a apertar, para aumentar o conforto de uma fração ínfima da humanidade, inacessível à imensa maioria, ao mesmo tempo que multiplicam de forma inconcebível o poder destrutivo dos armamentos. "O descompasso entre a pesquisa e a ação" [5] é apenas um dos paradoxos na medicina, de conseqüências trágicas para incontáveis milhões. A medicina preventiva, instrumento por excelência da Saúde Pública cuja importância Oswaldo Cruz e Carlos Chagas não se cansavam de ressaltar, é uma disciplina que atrai poucos candidatos à especialização. A glória (merecida) é da cirurgia, capaz de substituir órgãos deficientes, prolongando a vida de pacientes ainda há pouco sem qualquer esperança de tratamento. Também merecem destaque os avanços espetaculares na pesquisa médica, que capacitam o clínico a aliviar, se não curar, moléstias antigamente consideradas insuscetíveis de qualquer tratamento. Mas a vasta maioria dos males que acometem o homem não requer tratamentos sofisticados, e sim cuidados básicos e uma orientação dirigida à prevenção. Todavia, populações inteiras não têm acesso a assistência médica de qualquer espécie, nem se falando de água limpa e saneamento básico, problema não médico, senão socioeconômico e político (v.acima). O que falta sobretudo, porém, é informação adequada, isto é, educação sanitária. Ao invés disso somos bombardeados pela mídia com pretensos dados médicos, a maioria (com raras e honrosas exceções) mascarando um marketing importuno de procedimentos ou produtos descabidos, inócuos ou francamente nocivos. Inclui-se nesta categoria a propaganda de medicamentos de toda espécie ("Ao persistirem os sintomas..."). Dados não são informação; informação não é conhecimento; conhecimento não é sabedoria. Tais montes de dados desconexos não equivalem minimamente a informação, que dirá conhecimento. Mas essa glorificação do inútil, além de induzir à automedicação, ocupa um espaço importante: o da verdadeira educação sanitária. Além disso contribui para o descompasso entre o conhecimento médico e sua aplicação. Descompasso particularmente significativo na doença de Chagas, cujo descobridor foi um dos maiores cientistas do Brasil e do mundo. Porém, apesar de suas contribuições monumentais à ciência médica universal, ele é virtualmente esquecido no seu país. Eis outro paradoxo, cuja causa mais importante é, sem dúvida, a campanha difamatória deslanchada contra ele pelos seus colegas na Academia Nacional de Medicina e na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Liderados por Afrânio Peixoto e seus partidários, movidos por ciúme e ambições pessoais, profissionais e políticas, infernizaram a vida do genial cientista durante anos. Em dezembro de 1922 a polêmica chegou ao plenário da Academia, onde os debates se prolongaram durante um ano, terminando com a derrota da cabala; entretanto, os seus efeitos deletérios perduram até hoje. Em seu livro Meu pai, Carlos Chagas Filho analisa a campanha e suas conseqüências. A situação política e socioeconômica em que se desenrolou a contenda é descrita com vivacidade no livro de Benchimol e Teixeira, Cobras, lagartos & outros bichos, que ressalta a rivalidade entre os Institutos Oswaldo Cruz e Butantan, e os problemas homéricos criados aos cientistas e institutos pelas rixas entre oligarquias e governos, verdadeiras "guerras de foice" por verbas e poder. O resultado mais nocivo da campanha foi sem dúvida o seu efeito persistente sobre o ensino e pesquisa da doença de Chagas no Brasil. "Tanto Emmanuel Dias como Amílcar Vianna Martins sempre mantiveram que ... o oblívio se originou e se ampliou em um forte esquema de desconhecimento programado que as escolas de medicina passaram a adotar quanto à doença e seu descobridor, provavelmente em função de: (a) a influência direta de Peixoto e sua turma; e (b) o obscurantismo universitário e a falta de uma massa crítica com nível e coragem para ajuizar os fatos..." (J.C.Pinto Dias, comunicação pessoal) Embora a doença de Chagas passasse a constar dos mais importantes tratados de medicina nas línguas inglesa, alemã e francesa, e fosse ensinada nas mais importantes escolas de medicina do mundo, por incrível que pareça, no nosso país ela foi suprimida durante anos a fio, tanto nos livros quanto no ensino em sala de aula ou hospital, e, conseqüência inevitável, a sua pesquisa foi virtualmente paralisada.[3] O quadro só se reverteu muitos anos depois da morte de Chagas. Finalmente, é provável que a campanha contra Carlos Chagas tenha lhe custado o Prêmio Nobel.[3] [1] www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ jornalPDF/ju283pag02.pdf [2] www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ jornalPDF/ju287pag02.pdf [3] R.Lewinsohn, Três Epidemias: Lições do Passado.Campinas,Editora da Unicamp, 2003. [4] R.Lewinsohn, Medical Theories, Science, and the practice of medicine. Soc.Sci.Med. 10, 1260-1271. 1998 [5] J.C.P.Dias, Doença de Chagas e a questão da tecnologia. Bol. Of. Sanit.Panam.,.99/3, 244-257. 1985. Formada pela Faculdade Fluminense de Medicina, a autora fez pós-graduação nas universidades de Londres e Cambridge, Inglaterra. Pesquisou, lecionou e ministrou cursos de História da Medicina na FCM da Unicamp. Autora de livro (v.ref.3), aposentada, continua ativa como professora colaboradora voluntária da Unicamp. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/11_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

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maio 2005

´Quebrar patentes não é solução a longo prazo´

2017-01-10T17:18:28-03:00maio 31, 2005|Categories: Acervo|

Para John Leonard, do laboratório Abbott, decisão brasileira poderia afetar novas pesquisas sobre a aids "A decisão do Brasil de quebrar a patente dos medicamentos para a aids pode resolver o problema dos seus pacientes por dois anos, no máximo. Depois disso, o vírus continuará lá e os remédios não estarão mais lá." A afirmação é de John Leonard, segundo homem do laboratório Abbott e seu principal pesquisador na área de aids. Casado com uma brasileira e pai de um filho brasileiro, Leonard, de 47 anos, pesquisa o HIV desde 1981, quando surgiram os primeiros os casos da doença. Com um faturamento de US$ 19,7 bilhões no ano passado, o Abbott é fabricante do Kaletra, um dos três anti-retrovirais do coquetel protegidos pela lei de patentes. Segundo o Programa Nacional de Aids, as três drogas representam 70% dos R$ 900 milhões que o Brasil está gastando este ano com a doença. A quebra das patentes e a produção delas como genéricos no País permitiriam uma economia de R$ 200 milhões anuais. OESP - Como o senhor vê uma possível quebra de patentes dos medicamentos para a aids pelo Brasil? Mesmo entendendo que essa decisão é por uma boa causa, trata-se apenas de uma solução de curto prazo. Posso garantir que as drogas que hoje estão em uso, e que o Brasil fabricará se quebrar a patente, não serão mais eficazes num futuro próximo. E não haverá mais ninguém trabalhando em drogas para o futuro. Quebrar patentes não é uma solução viável a longo prazo. Vai resolver um problema econômico, de saúde para os pacientes, mas por dois anos, no máximo. Depois disso o vírus continuará lá e os remédios não estarão mais lá. Por isso vejo a quebra de patentes como um tropeço. Até agora, os laboratórios vêm fazendo sua parte, investindo e pesquisando a doença. Temos condições científicas e tecnológicas de continuarmos esse avanço, melhorando a saúde das pessoas, mesmo que a aids não tenha cura. Mas se mais e mais países não pagarem pelos medicamentos, no futuro não haverá mais tantas novas pesquisas. OESP - A decisão brasileira de copiar e produzir os medicamentos pode levar a uma interrupção das pesquisas pela Abbott? E a produção do Kaletra no Brasil, anunciada para 2006, pode ser cancelada? Vamos tratar cada situação separadamente, mas posso dizer que a quebra de patentes trará graves conseqüências para todos. E todos teremos de assumir as escolhas que fizermos, laboratórios e países, com conseqüências para os pacientes, médicos, hospitais, etc. Mas a Abbott não tem uma decisão preestabelecida, vamos avaliar cada fato e ainda esperamos que o Brasil reveja sua posição. Por ora, todos os projetos que tínhamos, da produção do Kaletra no Brasil às novas pesquisas em aids, estão em compasso de espera. OESP - Mas e se pessoas e países não tiverem condições de comprar? Terá de haver uma solução de meio termo, porque a aids não é responsabilidade só dos laboratórios. Como afeta a todos, exige a participação de todos: indústria, países, organizações, escolas, hospitais, pacientes, familiares. Um laboratório não é um país. Ele pesquisa, produz e vende. Faz remédios por razões diversas, mas tem de haver viabilidade econômica. OESP - O Brasil alega que sem a quebra de patentes, ou grande redução no preço do Kaletra, o programa de acesso aos remédios terá de ser interrompido. A Abbott já fez tudo o que podia? Já fez. O Brasil paga pelo Kaletra o menor preço entre todos os países fora da África. Equivale ao preço de custo, cerca da metade do valor cobrado na Europa e EUA. OESP - Como se sente pesquisando drogas que poderiam salvar milhares de vidas, mas que não estão porque países e pacientes não podem pagar por elas? Não me sinto nada bem. Mas devolvo a pergunta a você e a todos os outros profissionais. Como você se sente escrevendo artigos sabendo que muitos não têm acesso a jornais? Vocês querem dizer que a responsabilidade de um pesquisador é maior, mas esta é uma forma de minimizar o problema. É fácil responsabilizar um laboratório, dizer que está ganhando muito dinheiro com a doença dos outros. Esse é um discurso que pega bem, mas na verdade a aids é um problema de todos. É como a fome - ela é também um problema de todos, mas ninguém fica dizendo que o McDonald''s deveria enviar cheeseburgers à Tanzânia.  Fonte: http://www.sistemas.aids.gov.br/imprensa/Noticias.asp?NOTCod=64694 Consultado em 12/02/2007

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CCJ da Câmara vota hoje sobre quebra de patentes

2016-02-02T20:46:05-03:00maio 31, 2005|Categories: Acervo|

VOTAÇÃO: O coordenador do Programa Nacional de DST - Aids, Pedro Chequer, promete ir novamente, hoje, à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados para acompanhar a votação do projeto que acaba com o direito à patente para produção de medicamentos e matéria-prima de anti-retrovirais. A votação do texto, do deputado Roberto Gouveia (PT-SP), foi adiada na semana passada, sob protestos de organizações não-governamentais. "O projeto abre mais um espaço para discussão sobre patente de remédios usados em Aids", afirma Chequer. Desde que assumiu o posto de coordenador do programa, Chequer defende a necessidade de o País declarar a licença compulsória da patente de três medicamentos usados no coquetel anti-Aids. Para ele, a medida é o único caminho para tornar o programa sustentável. O projeto de lei que será submetido à votação hoje trata apenas de futuras patentes para medicamentos anti-retrovirais. Ele não interfere no direito concedido para remédios que já estão no mercado. A votação foi adiada a pedido do deputado Inaldo Leitão (PL-PB). O deputado Antonio Carlos Biscaia, deu parecer favorável ao projeto. Se aprovada, a proposta vai a votação em plenário.  Fonte: http://209.85.165.104/search?q=cache:gEYQTUwNiJkJ:www.anvisa.gov.br/divulga/imprensa/clipping/2005/maio/310505.pdf+pedro+chequer+CCJ+31/05/2005&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br Consultado em 12/02/2007

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Cresce o peso da sociedade civil nas negociações da OMC

2017-01-10T17:18:28-03:00maio 25, 2005|Categories: Acervo|

São Paulo – Com a crescente participação do Brasil no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) – tanto nas mesas de negociações quanto no questionamento de posturas dos países desenvolvidos junto ao Órgão de Solução de Controvérsias da OMC -, cresce também a mobilização da sociedade. O tema OMC entra na pauta de especialistas em comércio internacional, acadêmicos, Organizações Não-Governamentais (ONGs) e movimentos sociais. "A sociedade civil tem que se apropriar deste assunto. A gente discute muito pouco um assunto que tem influência em todo mundo", alerta Fátima Mello, secretária-executiva da Rede de Integração dos Povos (Rebrip). O economista Mário Ferreira Presser, coordenador do Curso de Diplomacia Econômica da Unicamp, acredita que é necessário ampliar os fóruns de negociação. "A Rodada Uruguai mostrou para todos os cidadãos do terceiro mundo que nós devemos participar mais das negociações. Devemos segui-las com cuidado para evitar que sejamos surpreendidos, de novo pela assinatura de tratados tão desfavoráveis", destaca. O economista defende a incorporação de ONGs, empresários e congresso nas discussões sobre as posições negociadoras do governo brasileiro. "A única defesa que se tem é ampliar o número de pessoas que saibam o que está se passando e possam interferir no debate è desta forma que uma democracia pode criar anticorpos seja ao protecionismo, seja à liberalização excessiva", afirma. "Se o debate for seqüestrado por grupos de interesse, as decisões vão atender a seus interesses mais imediatos e não necessariamente aos interesses do país", alerta. Sem a participação intensa de todos os setores da sociedade, o economista acredita que as negociações vão ficar emperradas por interesses exportadores ou por interesses protecionistas na indústria. "É preciso reconhecer que o governo Lula abriu o debate mais do que os anteriores. Hoje o Itamaraty nos ouve antes de assumir as posições negociadoras, antes só se escutava os empresários", relata a secretária –executiva da Rede de Integração dos Povos (Rebrip), Fátima Mello. O problema, segundo ela, é que a posição negociadora brasileira acaba refletindo a "correlação de forças" na sociedade. "Por isso é importante ativar este debate nos movimentos sociais e nas ONGs. Enquanto o setor privado está tentando defender seu bolso, nosso interesse é o desenvolvimento do Brasil como um todo", justifica. "Nossa função principal é fazer educação popular sobre a OMC, pois muita coisa está em jogo", reitera a representante da Rebrip. Advogados, economistas e especialistas em relações internacionais também procuram se aprofundar nos temas da OMC de forma a subsidiar os debates e ampliar a participação do Brasil no órgão. "A OMC é complicada e o Brasil precisa de quadros nesta área", salienta a economista Vera Thorstensen, consultora da Missão do Brasil junto à OMC e presidente do Comitê sobre Regras de Origem da OMC. Vera integra o Grupo de Estudos sobre Negociações Comerciais (GNC), grupo informal multidisciplinar formado por 80 especialistas que há um ano discutem temas de comércio internacional. "Nos países desenvolvidos existem grupos que pensam OMC, e em países em desenvolvimento isto praticamente não existe", conta Vera. Como consultora da missão do Brasil junto à OMC há 10 anos, a economista garante que o Brasil é hoje "ator importante" na organização. E não disfarça o entusiasmo ao constatar o interesse da sociedade brasileira pelos assuntos relacionados à OMC. "A gente escutava, há 15 anos, que OMC era coisa de governo. Hoje já há consciência de que a OMC afeta as empresas, afeta as associações, afetas as pessoas. De que nada pode ser feito na área de comércio internacional sem as regras da OMC", conclui.  Fonte: http://www.radiobras.gov.br/materia_i_2004.php?materia=226642&q=1 Consultado em 16/02/2007

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Dez anos depois, países ricos tiveram 73% dos ganhos com livre comércio

2016-02-02T20:46:06-03:00maio 25, 2005|Categories: Acervo|

São Paulo – A caminho da 6ª Reunião Ministerial da OMC, que acontece em dezembro em Hong Kong, especialistas e organizações não-governamentais (ONGs) concordam que é necessário repensar o sistema idealizado pelas grandes potências há quase 50 anos e que hoje reúne 148 nações, responsáveis por 97% do comércio mundial. "A OMC representa o regime multilateral de regulação do comércio internacional. É importante, pois sem uma ordem jurídica internacional, seria o caos", afiança o advogado Durval Noronha de Goyos Jr., sócio do escritório Noronha Advogados e árbitro da OMC. "Todavia, a experiência da OMC para os países em desenvolvimento foi desastrosa", avalia. "Os países desenvolvidos impuseram esta ordem jurídica aos países em desenvolvimento e nós pagamos um preço altíssimo por esta ordem que nos é desvantajosa", reitera. O advogado comprova o que diz com números. "Segundo dados do FMI, em dez anos de OMC cerca de 73% dos ganhos obtidos com o comércio internacional estão com os países desenvolvidos", revela. Ao longo da década de 90, os países desenvolvidos aumentaram o valor de suas exportações per capita em U$ 1.938, enquanto os países em desenvolvimento incrementaram o valor em apenas U$ 98 e os países menos desenvolvidos, em U$ 51. Com 14% da população global, os países desenvolvidos mantêm hoje uma participação de 75% na renda mundial, mesmo percentual de 1990. "Os resultados da Rodada Uruguai foram desastrosos para os países em desenvolvimento e o regime jurídico da OMC, criada na Rodada Uruguai, também é desastroso", sintetiza. O economista Mário Ferreira Presser, coordenador do Curso de Diplomacia Econômica da Unicamp, diz que é importante lembrar, no entanto, que as regras negociadas na Rodada Uruguai, apesar de injustas, foram aceitas pelos países em desenvolvimento como receita para a globalização. "Há este sentimento de que as regras da Rodada Uruguai são injustas, mas não se pode esquecer que a rodada foi negociada num momento de grande otimismo com a globalização. Grandes países em desenvolvimento, como Índia, Brasil, Argentina e México, tinham governos extremamente neoliberais e os países socialistas estavam iniciando sua transição ao capitalismo monitorados pelo Banco Mundial e pelo FMI", recorda o economista. "A globalização a qualquer preço era a ordem do dia. Liberalizar unilateralmente e atrair as multinacionais era a receita única para o desenvolvimento. A verdade é que não resistimos e embarcamos na onda alegremente. A globalização ia ser nossa redenção", enfatiza. Foi na onda da globalização que a OMC acabou ampliando seu campo de atuação. "Com a globalização, que é a dissolução das fronteiras nacionais em matéria de produção, era quase inevitável que tantos setores fossem incorporados às negociações no âmbito da OMC", diz Ferreira Presser. A ilusão acabou no final dos anos 90, com as crises financeiras sucessivas – do México, da Ásia, do Brasil e Argentina e, finalmente, com a crise americana. "Caiu a ficha em todo mundo que a globalização era uma aventura cheia de perigos, que a liberalização tinha sido excessiva especialmente no campo financeiro", conta. Agora os países em desenvolvimento tentam corrigir, na Rodada de Doha, as regras negociadas na Rodada Uruguai. "É preciso abrir caminhos para o desenvolvimento econômico, mas há uma enorme resistência dos países desenvolvidos. Eles são ganhadores na Rodada Uruguai, construíram sua prosperidade baseada nestas regras e o mundo não está num momento em que solidariedade seja um ativo muito valorizado", diz Ferreira Presser.

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