Moçambique, retrato fiel da epidemia de aids – 29/11/2004
País africano tem 1,5 milhão de infectados. Expectativa de vida caiu de 45 para 39 anos MAPUTO - As rodovias que levam do Zimbábue e de Malavi ao porto de Nacala, na região central de Moçambique, formam o mais importante corredor de cargas e a principal porta de entrada da aids naquele país. Os caminhoneiros dormem nos vilarejos à beira da estrada, muitos trazendo algum dinheiro e o HIV. A pousada de Agnostino Santos, em Namialo, a 107 quilômetros de Nacala, é uma das últimas paradas antes do porto. As mulheres assistem a novelas brasileiras numa TV embaçada da pousada e se oferecem ao equivalente a R$ 10, o suficiente para a mandioca e o milho dos filhos no dia seguinte. No Estado de Gaza, no sul do país, os homens saem para trabalhar nas minas de ouro e diamante da vizinha África do Sul. Sem dinheiro, as mulheres trocam o sexo por qualquer quantia. Os maridos voltam com dinheiro bastante para dormir com mulheres em cada parada e levam para a casa o vírus da aids. Quando descobrem que sua mulher está doente, abandonam a casa e os filhos ou mandam a mulher de volta para os pais. Os homens se recusam a fazer o teste de HIV. Se fizerem, poucos terão acesso a um tratamento. Adoecem e morrem em algum lugar. Na periferia de Maputo, a Associação para o Desenvolvimento da Família (Amodefa) faz um trabalho de visita domiciliar a centenas de doentes. A quinta-feira era dedicada à região norte da capital, onde vivem quase mil órfãos, dezenas deles morando sozinhos. Camal Fernando Tila perdeu os pais há três anos, quando tinha 13 anos. Desde então, cuida dos sete irmãos - um já morreu de aids. Irene Naftal Buquê, de 67 anos, e Albertina Joaquim Machaila, de 51, levam o que podem, geralmente analgésico, antibiótico, gaze, luvas e uma ficha preparada com técnicos brasileiros. Cacilda Pedro Mandlate, de 27 anos, foi mandada embora pelo marido, que também levou os dois filhos, depois que descobriu que a mulher estava doente. Cacilda está há seis meses sem poder andar e é cuidada pela mãe. RETRATO DA EPIDEMIA Moçambique não é o país mais dizimado pela aids na África, mas é o retrato mais bem acabado da epidemia. Doença, desinformação, miséria e fome se misturam à corrupção que corrói as ajudas internacionais e alimenta uma elite que circula em caminhonetes com cabine dupla e ar-condicionado aos olhos de uma população que não ganha US$ 1 por dia. O país, com cerca de 20 milhões de habitantes, tem menos de 500 "médicos de hospital", como são chamados, ante mais de 72 mil curandeiros, os "médicos tradicionais". São 14 línguas e mais de 40 dialetos, uma infinidade de crenças e superstições. Boa parte da população só acredita naquilo que vê e, como o vírus HIV é invisível, acham que o mal é sobrenatural. Sendo assim, só o curandeiro pode curar. "As organizações internacionais que trabalham aqui se recusam a aprender e a aceitar essas culturas", diz Eduarda Cipriano, diretora da Fundação para o Desenvolvimento da Comunidade (FDC), uma das instituições mais poderosas do país, presidida por Graça Machel, viúva do herói Samora Machel e mulher de outro mito africano, Nelson Mandela. As dezenas de programas milionários de cooperação, que vão de fundos do Banco Mundial, Fundação Bill Clinton, dinheiro do governo americano, ONGs e grupos religiosos internacionais, estabeleceram ali uma nova espécie de colonialismo. "Ainda estamos tentando assumir o controle do dinheiro que entra e dos programas que essas organizações desenvolvem", diz Diogo Milagre, de 38 anos, secretário-executivo do Conselho Nacional de Combate à Sida (aids), organismo interministerial a quem cabe traçar as diretrizes do combate à epidemia. Segundo Milagre, o dinheiro do governo Bush, que chega por meio da Usaid, não pode ser empregado em campanhas que pregam o uso do preservativo. "Para eles, a abstinência sexual e o retardo no início das relações são o mais importante." Num país de práticas sexuais liberais, tal pregação soa inútil. Ajudas de algumas organizações religiosas pregam a mesma prática. Somadas às novelas e às pregações dos bispos da Igreja Universal - presentes em templos e no canal internacional da Rede Record -, Moçambique se vê diante de uma nova colonização, dizem os especialistas. "Somos dependentes até na corrupção", diz Mia Couto, o maior escritor moçambicano. "A parcela corrupta da elite substituiu os colonizadores." PARTICIPAÇÃO BRASILEIRA O Brasil entrou em Moçambique com o Projeto Ntwanano, que em língua changana, a mais falada na região da capital, Maputo, quer dizer "aliança, entendimento". As promessas de ajuda internacional para o período 2003-2007 passam dos US$ 500 milhões. O Projeto Ntwanano significa US$ 300 mil para dois anos, financiados pela Fundação Ford. A diferença é que, em lugar de distribuir dinheiro que escapa ao controle do governo e determinar como e em que o dinheiro deve ser usado, o programa brasileiro se dedica a prestar assessoria. O projeto tem duas frentes. Uma de tratamento, em que o Brasil oferece medicamento a cem doentes e serve para ensinar médicos moçambicanos a lidar com o coquetel, um conjunto de drogas anti-retrovirais que requer monitoramento especializado. Rosana Del Bianco, de 47 anos, infectologista do Hospital Emílio Ribas, comanda esse treinamento. Entre as funções da equipe está a de decidir quem vai receber ou não o tratamento. Moçambique tem 300 mil doentes e infectados precisando do coquetel, mas apenas 5 mil recebem a medicação. É uma espécie de "escolha de Sofia", em que se decide quem terá chances de viver e quem certamente morrerá. "Trazemos para Moçambique as lições que aprendemos no Brasil", diz Rosana. Nestes dias que antecedem o 1.º de dezembro, Dia Mundial de Combate à Aids, o Brasil é citado pelos organismos internacionais como um modelo no combate à epidemia. A outra frente do Projeto Ntwanano é uma assessoria a organizações não-governamentais que trabalham com prevenção e cuidam de pacientes vivendo com HIV ou aids. O grupo de três profissionais - sociólogo, antropólogo e médico - está ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "Aqui em Moçambique, o portador do HIV ou doente de aids não tem uma identidade, como já se firmou no Brasil. Aqui eles não são pessoas vivendo com aids, são pessoas morrendo com aids", diz Fernando Seffner, educador, historiador e integrante do projeto. O objetivo é organizar a sociedade civil para que pressione o governo e os parlamentares a conceder direitos aos pacientes. E, enquanto o coquetel não chega a todos, garantir que morram com um mínimo de dignidade. DOENÇA PROLONGADA Para agravar a situação, a sociedade e a mídia escondem a doença. Nas páginas de necrologia dos jornais, diz-se apenas que as vítimas da aids morreram de doença prolongada. Moçambique tem 1,5 milhão de pessoas vivendo com HIV ou aids. Cerca de 14% da população está infectada. Em algumas regiões, a taxa chega a 35%. Estima-se que 100 mil pessoas devam morrer da doença apenas este ano, enquanto 500 novas infecções ocorrem todos os dias. Cerca de 80 crianças nascem com HIV transmitido pelas mães, diariamente. Entre 19 e 24 anos, há três mulheres infectadas para cada homem. Na população em geral, 60% dos infectados são mulheres. Por conta da aids, a expectativa de vida já caiu de 45 para 39 anos. No Brasil, são cerca de 600 mil portadores do HIV para uma população próxima de 180 milhões de habitantes. A taxa de infectados é de 0,34% e todos os que precisam de medicamentos estão, oficialmente, sendo tratados. Fonte: http://www.sistemas.aids.gov.br/imprensa/Noticias.asp?NOTCod=61213 Consultado em 13/02/2007