As conquistas brasileiras
Se o serviço brasileiro de combate à aids foi reconhecido como modelo pela Organização Mundial da Saúde (OMS) há algumas semanas, muito se deve ao trabalho de Paulo Roberto Teixeira, 55, coordenador de DST/Aids do Ministério da Saúde. Médico especializado em aids, Teixeira iniciou o primeiro programa da América Latina no Estado de São Paulo há exatos 20 anos, quando havia menos de dez casos da doença “ainda sem nome” identificados no Brasil. Como resultado das iniciativas ininterruptas e progressivas do pais, a Fundação Bill Gates premiou ontem o programa com US$1 milhão. O valor será dividido entre 60 ONGs brasileiras escolhidas por uma comissão da sociedade civil (maiores detalhes no site www.aids.gov.br ou pelo telefone 0800-611997). “O prêmio vem num momento apropriado, como consequência do debate e da divulgação de muitos anos do progresso do nosso programa nacional de combate à aids”, disse Teixeira ao Valor, por telefone, de Washington, onde recebeu a premiação. Mas Teixeira tem mais a comemorar. Na terça-feira, o Brasil conseguiu fazer com que a Organização Mundial da Saúde aceitasse sua proposta de quebra de patentes para o acesso universal de medicamentos. Por ter sido convidado pela OMS para elaborar o plano mundial de combate à aids, Teixeira não participou das quentes discussões em Genebra no inicio da semana. Mesmo assim, os efeitos colaterais de suas batalhas anteriores por essa medida foram sentidos na Casa Branca. Washington, que se opõe ao tema, reagiu negativamente à indicação de seu nome por Jong Wook Lee, diretor eleito da OMS e que assume o posto em junho. Mesmo assim, sua próxima parada será Genebra, sede da OMS, onde estará para desenvolver um programa de combate à aids à brasileira. Leia os principais trechos da entrevista a seguir. Valor: Como o sr. avalia a premiação que a Fundação Bili Cates concedeu ao programa brasileiro? Paulo Roberto Teixeira: É um endosso internacional da sociedade civil americana, o que tem relevância para a formação da opinião pública e influência nas próprias ações do programa americano e de outros países desenvolvidos. O prêmio vem num momento apropriado, como consequência do debate e da divulgação de muitos anos do progresso do nosso programa nacional de combate à aids. Isso confirma a noção internacional de que o Brasil foi o país em desenvolvimento que conseguiu obter as maiores vitórias por ter adotado uma estratégia abrangente em relação à aids. Valor: Como será aplicado esse dinheiro? Teixeira: Do ponto de vista financeiro, US$1 milhão é um volume grande. Vai significar uma ajuda adicional ao programa e nós vamos usá-los para ONGs de apoio e casas de passagem, que cuidam de pessoas em transição em algumas cidades ou outras que não têm casa nem família. Há uma grande quantidade de órfãos que são abrigados por essas instituições. São cerca de 60 iniciativas que poderão ser beneficiadas. Vamos constituir comissão com representantes da sociedade civil para publicar um edital com o objetivo de as ONGs apresentarem suas propostas. A Unesco se dispôs a administrar o dinheiro, sem qualquer custo e como forma de contribuição. Até o próximo ano, pretendemos mostrar os resultados. Vamos separar US$ 50 mil para fazer uma doação para o Fundo de Combate à Aids, Tuberculose e Malária. Valor: Esta semana, o governo brasileiro conseguiu fazer com que a Organização Mundial da Saúde (OMS) aceitasse a proposta elaborada pelo programa de combate à aids do país para avaliar o impacto das patentes nos sistemas de saúde. É uma vitória para o Brasil? Teixeira: Foi uma vitória importantíssima obtida pelo Brasil e pelos outros países que se associaram, principalmente as nações em desenvolvimento, para tirar a questão do medicamento no âmbito da OMS dos seus limites exclusivamente técnicos e fazer valer uma nova diretriz: a de que a OMS tem que se incorporar às discussões junto à Organização Mundial do Comércio (OMC) no sentido de tomar todas as medidas para garantir o acesso universal aos medicamentos. Essa postura, até então, nunca havia sido adotada pelas instituições das Nações Unidas. No âmbito internacional, esse processo foi marcado por uma série de batalhas lideradas pelo Brasil, que culminou na declaração de Doha, em 2001. No ano passado, um dos seus artigos deveria ser regulamentado, mas, por falta de consenso com países produtores de medicamentos e desenvolvidos, não foi. A questão ainda está em negociação. Demos um pequeno passo nessa estratégia. Queremos a consagração da declaração de Doha ainda este ano. Valor: O sr. foi indicado para elaborar o plano mundial para a nova administração da OMS, que tem o combate à aids como prioridade nos próximos cinco anos. Como será essa estratégia? Teixeira: Estamos numa fase preliminar de discussões com outras instituições parceiras, como o Banco Mundial, o Fundo GlobaL O que está claro é que o diretor eleito,Jong Lee, abraçou a luta contra a aids. E dentro disso, a promoção do tratamento anti-retroviral. A tarefa mais urgente é um plano para ampliar a terapia para os países pobres. A meta é de que, em dois anos, possamos incluir três milhões de pessoas. O foco será concentrado na África. O número de pessoas é grande, embora seja pequeno em comparação com as necessidades. Valor: Quanto o seu programa vai dispor para desenvolver esse plano? Teixeira: Não fiz o orçamento. Mas meu papel não é apenas verificar o que a OMS poderia fazer ou financiar. É principalmente mobilizar parcerias internacionais, até baseadas no que fazemos no Brasil. Precisaremos de ajuda dos governos dos países ricos, universidades e ONGs internacionais. Este trabalho é que vai balizar o programa. Dinheiro é importante, mas a OMS não é instituição de financiamento. Valor: O programa do Brasil é reconhecidamente um modelo internacional. Mas quais são os avanços que esse programa ainda precisa? Teixeira: São 20 anos de trabalho, o que explica os resultados positivos. Foi uma luta grande que envolveu vários segmentos da sociedade do Brasil. Com isso, alcançamos resultados equivalentes aos dos países desenvolvidos. Temos de avançar em vários pontos. Em primeiro lugar, há um grande número de pessoas que são soropositivas, mas não sabem. Para este ano, temos uma agenda para estimular as pessoas a fazerem o teste e, se necessário, usar os medicamentos o mais prontamente possível. Apesar dos esforços, também temos problemas no tratamento de grávidas para evitar a transmissão do HIV aos filhos. Não atingimos 50% das grávidas estimadas no Brasil. Isso está vinculado à questão estrutural geral e do Sistema Único de Saúde do Brasil. Temos ainda uma grande dívida em relação à saúde dos presidiários, onde a atenção no item HIV-aids é importante. Acho relevante, porém, dizer que, apesar disso, temos a convicção de que sabemos e podemos superar as barreiras existentes. É isso o que tem chamado a atenção mundial. Durante muito tempo, a maioria dos países em desenvolvimento era céticos em relação às suas possibilidades. Fomos corajosos. Valor: Como o sr. avalia a questão da prevenção da aids no Brasil? Teixeira: O Brasil se destaca pela integralidade das ações e muito na área de prevenção. Estimava-se mais de 1,2 milhão de infectados para o ano 2000. E o pais fechou o ano com menos de 600 mil infectados. Temos dados claros sobre a queda dos grupos mais vulneráveis, como profissionais do sexo, usuários de drogas injetáveis e de homossexuais. São resultados da campanha preventiva bem concretos. Valor: Em que situação estão as pesquisas para vacina contra a aids e de novos tratamentos? Teixeira: Em relação à vacina, não devemos ter um resultado eficiente nos próximos cinco anos, tanto para evitar o contágio como para neutralizar a infecção. Quanto ao tratamento, os progressos têm sido rápidos. A perspectiva de haver um controle medicamentoso cada vez com maior eficiência é nítida. Os tratamentos estão mais simples. De 30 comprimidos por dia, grande parte das pessoas passou a tomar apenas duas cápsulas diárias. Valor: Qual é a sua avaliação sobre os seus 20 anos de trabalho no combate à aids? Teixeira: Quando comecei, não havia a confirmação do isolamento do HIV. Até 1984, trabalhamos com muita sombra. Somente em 1985 passamos a contar com teste anti-HIV. Trabalhamos durante uns 12 anos de forma bastante difícil. Quando conseguimos a tratar as doenças oportunistas passamos a ter mais esperança. O AZT, em 1989, trouxe novas perspectivas. A virada veio em 1996, com o coquetel. Foi quando o otimismo tomou conta. Isso só ocorreu no Brasil porque se construía uma infra-estrutura havia 13 anos. Só hoje, a terapia tripla começa a se materializar na maioria dos países em desenvolvimento. Daí a importância de termos enfrentados questões difíceis, como drogas, sexualidade, estigma. O Brasil foi muito corajoso. Por isso, colhemos os melhores resultados. Olhando para trás, tenho alivio, o que faz minimizar os dez primeiros anos, que foram trágicos e as perdas imensas. Fonte: http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISDA56F374ITEMIDF14CAEDCE600421D941758AEB7792DB7PTBRIE.htm Consultado em: 13/02/2007