Indústria reage à medida
Laboratórios reclamam de decisão e advertem: quebra da patente desestimula investimentos no país. Merck lamenta que governo suspendeu negociações A quebra da patente do medicamento anti-retroviral Efavirenz, um dos principais componentes do coquetel usado no tratamento da Aids, pode ter repercussões negativas sobre os investimentos estrangeiros no país, podendo elevar o risco-Brasil. A avaliação é de representantes da indústria farmacêutica. Eles consideraram grave o fato de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter ameaçado adotar medida semelhante para outros medicamentos. "Pode desencadear percepções negativas em relação ao ambiente de negócios no país", reagiu a Merck Sharop & Dohme, laboratório que produz o Efavirenz. Para a Federação Internacional de Indústrias Farmacêuticas, o governo brasileiro adotou uma postura de confronto, que dificultará o acesso a investimentos de empresas do setor farmacêutico para a produção de remédios. A decisão de recorrer à licença compulsória do Efavirenz "não é solução para garantir acesso aos remédios". O caminho, na visão das indústrias, é o financiamento adequado e colaboração com empresas inovadoras. Por meio de nota, a Merck Sharp&Dohme acusou o Ministério da Saúde de suspender as negociações "prematuramente". A empresa alega que o comprimido de Efavirenz custa menos do que em outros países em desenvolvimento, onde o medicamento é vendido a US$ 1,80. O preço cobrado do Brasil, segundo a empresa, é 86% inferior ao adotado nos Estados Unidos. Contradição "O marco regulatório tem que ser estável, senão o investimento vai embora. Você acha que a Petrobras vai colocar dinheiro na Bolívia?" provocou o presidente da Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma), Gabriel Tannus. O presidente da Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma), Ciro Mortella, considerou a medida contraditória em relação à política industrial brasileira e à proposta do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, de fortalecer o setor de saúde e novos laboratórios nacionais. Segundo Tannus, outra questão é que a validação pela OMS não assegura a qualidade dos medicamentos produzidos pelos laboratórios indianos, que vão fornecer o produto ao Brasil. Não há prova, segundo o representante da indústria farmacêutica, de que esses medicamentos tenham as propriedades exigidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para autorizar a comercialização de um remédio genérico. Ele lembrou que os produtos ainda sequer foram registrados na Anvisa. Tannun afirmou que o modelo de produção usado na Índia dificulta o controle de qualidade. "Não acho que a qualidade da Índia seja suficiente para atender às exigências do Brasil", comentou. Previsões A reação inicial, entretanto, ficou mais centrada no impacto sobre os negócios. No primeiro momento, na avaliação de Ciro Mortella, haverá uma paralisação nos investimentos, porque a quebra de patentes é uma medida a ser usada em "casos de extrema gravidade". "Qual é a dimensão de uma medida dessas?" questionou. Ele lembra que se trata de uma "medida nova" que vai exigir avaliação dos investidores: "Não temos experiência nisso". Ele pondera que a medida pode ser aplicada também a empresas nacionais. Na sua avaliação, o assunto deve dominar a reunião do Conselho Nacional de Saúde (CNS), marcada para a próxima semana. Para Gabriel Tannus, o governo está responsabilizando a indústria quando o problema real é a falta de recursos para a saúde. Ele disse que, nos últimos anos, os gastos do Ministério da Saúde com o programa de combate à Aids tem ficado entre R$ 500 milhões e R$ 600 milhões. De acordo com o ministério, o orçamento para 2007 é de R$ 960 milhões. Tannus afirma que o valor é irreal, por se tratar de uma estimativa do orçamento e não o que será efetivamente aplicado. O investimento tem se mantido constante, apesar do aumento do número de pessoas atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS), porque o ministério tem negociado com a indústria. "Houve redução de preços", afirma. Críticas nos EUA A Câmara de Comércio dos Estados Unidos reagiu com veemência à decisão do governo brasileiro de quebrar a patente do medicamento contra o HIV e Aids dos laboratórios Merck. Uma nota emitida pela entidade chega a insinuar que a troca do remédio Efavirenz por um genérico fabricado na Índia poderia ser encarada como contrabando ou pirataria. A Câmara reagiu dizendo que recebia "com alarme" a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva em decretar o licenciamento compulsório daquela droga. E que essa atitude "envia um sinal perigoso para a comunidade de investidores". A nota, assinada pelo tenente-general da reserva Daniel W. Christman, vice-presidente para assuntos internacionais da Câmara de Comércio americana, dizia que a quebra da patente significou "um grande passo atrás para o desenvolvimento do país" que vem tratando de atrair investimentos em indústrias que dependem da propriedade intelectual. "Isso provavelmente fará com que os investimentos sejam feitos em outros países", alertou Christman, que classificou como uma ironia o fato de o Brasil ter decretado o licenciamento compulsório poucos dias depois de receber um elogio do Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) por estar melhorando na proteção aos direitos de propriedade. O Escritório de Comércio dos Estados Unidos se declarou "desapontado" com o fracasso das negociações entre o governo brasileiro e a Merck a respeito da patente do Efavirenz. Memória Briga começou em 2001 Esta é a primeira vez que o governo brasileiro quebra efetivamente uma patente. Desde 2001, entretanto, o Brasil tem recorrido a ameaças para negociar preços com as indústrias de medicamentos. O primeiro medicamento a entrar na mira do governo foi o Nelfinavir, fabricado pelo laboratório Roche. Em agosto de 2001, o então ministro da Saúde, o tucano José Serra, chegou a anunciar o licenciamento compulsório da patente do medicamento, depois de nove meses de infrutíferas negociações. A medida foi suspensa no mesmo dia do anúncio, porque a Roche aceitou reduzir o preço em 40%. Em 2003, primeiro ano do governo Lula, o ministro da Saúde, Humberto Costa, anunciou que poderia decretar o licenciamento compulsório para fabricação do Nelfinavir no Brasil. Era uma estratégia para forçar o laboratório a negociar preços, o que possibilitou, em janeiro de 2004, um acordo de abatimento de 37% nos preços de quatro medicamentos, além do Neltinavir. Em junho de 2005, Humberto Costa, que ainda ocupava o cargo de ministro da Saúde, declarou o anti-retoviral Kaletra, fabricado pelo laboratório Abbot, de interesse público. Essa declaração é a primeira medida para a quebra da patente. Um mês depois do anúncio, porém, o Ministério da Saúde anunciou a celebração de um acordo com a Abbot, com redução do preço do medicamento por seis anos e ainda acesso à nova fórmula do Kaletra (Lopinavir mais Ritonavir) e transferência de tecnologia da formulação do produto. De acordo com o Ministério da Saúde, o preço do comprimido de Kaletra caiu de US$ 1,17 para US$ 0,63, o que vai representar economia de US$ 339,5 milhões até 2011. O licenciamento compulsório decretado pelo governo brasileiro é uma autorização para que outras empresas, além da Merck, possam explorar a patente sem o seu consentimento. O dispositivo está previsto no Acordo sobre os Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionadas ao Comércio da Organização Mundial do Comércio e na Lei de Propriedade Industrial Brasileira. Outros países que já decretaram licenciamento compulsório para produtos farmacêuticos foram Itália e Canadá. Especificamente para anti-retrovirais - caso do Efavirenz - saíram na frente Moçambique, Malásia, Indonésia e Tailândia.