Preparando se para uma semana agitada, o diretor geral da Organização Mundial do Comércio, Pascal Lamy, telefonou, de Genebra, na sexta feira, para Brasília. Mas boa parte de sua conversa com o ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, tratou de assunto diferente das delicadas negociações da chamada Rodada Doha, de liberalização comercial e derrubada de subsídios que distorcem o mercado internacional. Lamy insistiu para que Amorim participe da conferência " Mobilizando Ajuda para o Comércio " , que a OMC promoverá em Lima, na próxima semana. Lamy argumenta que o Brasil é " peça chave " no esforço da OMC para dar assessoria a países menores em matéria de comércio internacional. Com experiência reconhecida em matéria de comércio e negociações comerciais internacionais e em tecnologia de produção agrícola, o país já patrocina projetos de cooperação, ainda em seus primeiros passos, com países da África e América Latina, além de ações com ex-colônias no Caribe. Amorim, porém, não vai a Lima, pois acompanhará o presidente Lula aos países nórdicos. Prometeu mandar um representante de alto nível. O Brasil é visto como um potencial aliado estratégico por Lamy, em sua mobilização " Aid for Trade " , destinada a dar maior capacidade aos governos dos países menores para aproveitar a liberalização do mercado internacional (e, de quebra, fornecer uma resposta às organizações não governamentais que vêem na OMC um dos monstros defensores dos ricos no processo de globalização dos mercados). Enquanto espera dos países europeus e outras nações desenvolvidas o financiamento para essas ações, o diretor geral da OMC vê no Brasil um interessante aliado político da idéia de ajuda para o comércio e, principalmente, potencial fornecedor de experimentados técnicos e diplomatas para projetos de assistência e cooperação. O convite de Lamy deve envaidecer Amorim, por seu óbvio endosso à tese de que a provocadora participação do Brasil nos fóruns mundiais garantiu ao país um protagonismo nunca antes visto na história das negociações comerciais ainda que, é bom lembrar, foi no governo Fernando Henrique Cardoso que o Brasil obteve sua primeira grande vitória moral na OMC, ao garantir o acordo sobre Aids e patentes, que facilitou a licença compulsória de medicamentos em caso de ameaça à saúde pública. O Brasil, de fato, está nos cruzamentos das estradas por onde caminha a discussão multilateral de comércio. Lamy vê país como potencial aliado Lamy estará, nesta semana, em Sidney, Austrália, para a reunião dos governos da Apec - Cooperação da Ásia e do Pacífico - onde uma das principais discussões se trava por um importante movimento, à margem da OMC: a proliferação de acordos regionais e bilaterais de comércio. O Brasil, infelizmente, está à margem dessa discussão, e aparentemente ainda alheio às conseqüências da crescente integração dos mercados na Ásia e entre os asiáticos e países americanos com menores interesses defensivos na indústria, como o Chile e o México. Lamy e Amorim argumentam que alguns dos principais interesses do Brasil nas negociações não podem ser atendidos em acordos bilaterais. Potência agrícola, Brasil e seus sócios do Mercosul amedrontam potenciais parceiros em acordos de comércio, que costumam resistir a apelos por maior liberalização de seus mercados de alimentos em acertos bilaterais; além disso, são os bilionários subsídios dos países ricos a seus produtores rurais - não apenas tarifas de importação - que dificultam o acesso de mercadorias do agronegócio brasileiro a boa parte dos mercados mundiais. Essas questões, assim como regras menos arbitrárias para os mecanismos anti dumping (usadas pelos EUA contra produtos como o aço e o suco de laranja brasileiros), são tema a ser resolvido só em uma discussão multilateral, como a da OMC. Lamy, até por força do cargo, mostra otimismo. Em agosto, garantiu ter razões para crer no "necessário e factível" êxito da rodada Doha. Foi contestado pela ministra de Finanças da França, Christine Lagarde, e pela comissária européia para o comércio, Mariann Fischer Boel, que alertaram para divergências ainda inconciliáveis em matéria de redução de tarifas para produtos industriais e de queda de tarifas e subsídios agrícolas. Nesta semana, os negociadores em Genebra indicarão quem tem razão, ao começar o debate sobre os textos básicos sobre agricultura e indústria formulados pelos coordenadores das negociações. Há fortes resistências, contra ambos os textos, e, principalmente, enormes dúvidas sobre a disposição do governo dos Estados Unidos, especialmente do Congresso americano, em comprometer se com um limite aceitável para os subsídios à produção agrícola local. Além de ser um dos principais interlocutores nas negociações, o Brasil traz, sobre os ombros, uma responsabilidade perigosa: diplomatas e funcionários da OMC, em Genebra, acreditam na proclamada liderança brasileira na América do Sul, a ponto de depositar no governo de Lula a expectativa de que será capaz de controlar arroubos protecionistas em países como a Argentina e Venezuela. Um tropeço nas discussões com os vizinhos pode causar danos à imagem do país nessas negociações. Mais lisonjeira é a percepção dos negociadores sobre o papel decisivo do Brasil na afirmação do sistema de solução de controvérsias da OMC tema de discussão na rodada Doha, que vai além, no entanto, das atuais negociações. Até o fim do primeiro semestre de 2008, se decidirá o caso aberto pelo Brasil contra os subsídios ao algodão americano. Embora, contrariamente à percepção geral, os EUA tenham um bom histórico de cumprimento de acordos, esse é um dos primeiros casos que contestam no alicerce o distorcivo sistema de subsídios agrícolas locais, e, pela primeira vez, um país ameaça retaliar em uma área sensível aos americanos, a dos direitos de propriedade intelectual. É grande a expectativa sobre essa disputa. Mas não é possível garantir que a torcida esteja toda com o Brasil. Sergio Leo é repórter especial em Brasília e escreve às segundas feiras sergio.leo@valor.com.br