Governo faz acordo com fabricante de remédio do coquetel anti-Aids e reduz preço em 29,5%, após três ameaças de quebra de patente Depois de ameaçar quebrar a patente do medicamento Kaletra (Lopinavir/ritonavir) por três vezes, o governo brasileiro fez mais um acordo com o laboratório Abbott para reduzir os preços cobrados pelo anti-retroviral. O medicamento integra o coquetel utilizado por pacientes com o vírus HIV. Segundo o contrato assinado ontem entre Ministério da Saúde e o fabricante estrangeiro, o preço do Kaletra foi reduzido em 29,5%. Pelo acordo, o governo passará a comprar a nova apresentação do medicamento em comprimido. A versão anterior era em cápsulas e alguns pacientes encontravam dificuldades para engoli-lo. Segundo cálculos do governo, a previsão de redução de gastos, no primeiro ano do acordo, é de cerca de R$ 23 milhões. Atualmente, os recursos para a compra de medicamentos para pacientes com o vírus chegam a R$ 1 bilhão. "O governo está empenhado em reduzir o preço de outros medicamentos e está aberto a outras propostas dos laboratórios", anunciou o ministro da Saúde, José Gomes Temporão. Outra vantagem da compra, segundo Temporão, é que o novo medicamento não precisa ser armazenado em geladeira, como a versão em cápsula. A nova apresentação também permite ao paciente diminuir o número de doses, substituindo a ingestão de seis cápsulas por dia para quatro comprimidos. No acordo realizado em 2005, o preço da unidade seria de US$ 1,04, a partir da primeira compra, prevista para este ano. Com a assinatura do novo contrato, esse valor passa para US$ 0,73 até o fim de 2007. Em 2008, a unidade custará US$ 0,68, reduzindo para US$ 1 mil o custo do tratamento anual de cada paciente, segundo cálculos do governo. Como o laboratório estava irredutível nas negociações, a nova apresentação do Kaletra ainda não havia sido incorporada ao coquetel de medicamentos usados no tratamento da Aids. Como o contrato foi assinado ontem, a distribuição deve começar em setembro. Enquanto isso, os pacientes continuarão usando a versão em cápsula do medicamento. Em uso no Brasil desde 2002, o Kaletra é o segundo anti-retroviral importado mais consumido no país, depois do Efavirenz. Estima-se que 31 mil pacientes adultos e 1,2 mil crianças estejam usando o medicamento até o fim de 2007. Em 24 de junho de 2005, o governo brasileiro declarou interesse público do anti-retroviral e ameaçou adotar o licenciamento compulsório do medicamento, caso o produtor não atendesse às condições apresentadas para a garantia da sustentabilidade do Programa Nacional DST/Aids. Depois de quatro meses de negociação, foi fechado o acordo, em 2005, que garantiu redução de 47% no preço do medicamento, que passou de US$ 1,17 para US$ 0,63, a cápsula. Esse preço era relativo a uma versão antiga do remédio, já em desuso. Na nota divulgada pelo Abbott logo depois de selado o acordo, o laboratório diz que "o governo aceitou a oferta da Abbott em fornecer Kaletra comprimidos pelo preço equivalente a US$1 mil por paciente/ano, estabelecendo um novo acordo com a empresa". Segundo a nota, a negociação é resultado do anúncio feito pela empresa, em 10 de abril de 2007, de redução do preço de lopinavir/ritonavir em cápsulas e comprimidos para 45 países de baixa e médio-baixa renda. Os executivos da Abbott dizem ainda que, como o Banco Mundial classifica o Brasil como país de médio-baixa renda, o laboratório incluiu o país na lista de nações atendidas pela nova política da empresa. "Nós queríamos que o Brasil fosse beneficiado com o mesmo preço oferecido a outros países com o mesmo nível de desenvolvimento econômico", ressalta Heather Mason, vice-presidente para operações da Abbott na América Latina e no Canadá. Por mais de três anos, o governo tentou negociar com o laboratório Merck Sharp & Dohme a redução do anti-retroviral Efavirenz e não obteve sucesso. A saída foi iniciar os procedimentos de quebra de patente, que ainda estão em andamento. para saber mais Fortes efeitos colaterais O Kaletra é um medicamento que contém as substâncias lopinavir e ritonavir que, em combinação com outros agentes, são indicadas para o tratamento da Aids. O medicamento tem o objetivo de controlar a quantidade de vírus e promover a melhora do sistema de defesa do organismo da pessoa infectada pelo HIV. Mas o medicamento tem efeitos colaterais muito fortes. Durante o tratamento, os pacientes podem desenvolver outras infecções, que são conhecidas como oportunistas, e até mesmo outras complicações associadas com a Aids, como gordura localizada, diabetes e pancreatite.