junho 2007

Roche iniciará cadastro de usuários do Viracept

2017-01-10T17:18:15-03:00junho 22, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

A companhia farmacêutica Roche anunciou ontem que iniciará um processo de registro dos brasileiros que usaram o medicamento Viracept, anti-retroviral que faz parte do coquetel para pacientes com HIV, distribuído pelo governo brasileiro. Eles podem ter sido expostos à substância química ácido etil éster metanossulfônico. A licença de comercialização foi suspensa na Europa, pela autoridade européia de saúde EMEA, onde o medicamento foi recolhido. A medida é resultado de reclamações de que lotes de Viracept 250 mg estariam com odor estranho. No Brasil, a produção está suspensa desde o dia 6 de junho. Em nota, a Roche anuncia que o cadastramento dos usuários no Brasil "faz parte de uma série de ações de acompanhamento dos pacientes estabelecida pela Roche imediatamente após o anúncio de recolhimento dos lotes de Viracept." O medicamento está no mercado nacional desde 1997. O laboratório afirma que está conduzindo estudos para avaliar os possíveis efeitos colaterais da impureza química encontrada no medicamento.A empresa reforça que os pacientes devem procurar os serviços de saúde onde é feito o acompanhamento, para que o Viracept seja substituído por outro medicamento anti-retroviral. A farmacêutica pôs à disposição o telefone 0800 7733 310 e o site para mais esclarecimentos.

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HPV: respostas de Temporão

2007-06-22T00:00:00-03:00junho 22, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

Ontem chamamos a atenção do ministro José Gomes Temporão para o exorbitante preço da vacina contra o HPV, que a rede pública não oferece ainda gratuitamente, como propõe, por exemplo, a senadora Patrícia Saboya (PSB-CE). O ministro e seu secretário de Vigilância em Saúde, Gerson Oliveira Penna, esclareceram a questão. — O HPV e o câncer de útero são prioridades do ministério, mas a solução ainda não passa pela distribuição da vacina — diz o ministro, explicando por quê. A vacina existente só funciona se aplicada nas jovens antes de qualquer contato com o vírus. Logo, antes do início da atividade sexual. Os estudos indicam que esta imunização duraria apenas cinco anos, e ainda cobriria apenas seis dos 18 tipos de vírus. O custo da vacinação anual de todas as meninas na faixa de 9 a 12 anos seria de R$ 1,8 bilhão. Com todas as outras vacinas, o ministério gasta cerca de R$ 750 milhões. De fato, a vacina do HPV representaria um gasto imenso e de baixíssimo benefício. Se ela imuniza por apenas cinco anos, até estimularia o sexo inseguro, pois as mulheres se achariam protegidas quando já não o fossem mais. — Nossa meta é ampliar ao máximo a oferta do exame de papanicolau, que permite a descoberta deste tipo de câncer ainda na fase inicial — diz o ministro. Mas ele concorda: as campanhas educativas põem muito mais foco na necessidade de evitar HIV do que HPV. Se o parceiro não é de grupo de risco para HIV, as pessoas se descuidam.

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Alô, ministro Temporão!

2007-06-21T00:00:00-03:00junho 21, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

Um vírus sexualmente transmissível, o HPV, afeta hoje cerca de 15% das mulheres e possivelmente o mesmo número de homens (por serem os homens quase sempre assintomáticos, a quantificação é mais complicada). Causador do câncer de útero, o vírus aparece na história de 90% a 100% das portadoras da doença, o terceiro tipo de tumor que mais atinge as mulheres no Brasil (depois do de pele e do de mama). Silenciosamente, o HPV vem se alastrando. Só muito recentemente passou a ser objeto de campanhas de esclarecimento. No ano passado, foi lançada a vacina contra o HPV. A rede pública ainda não a oferece gratuitamente. O laboratório fabricante de uma delas (Gardasil, patente da Merck Sharp & Dohme) foi autorizado a vendê-la por R$ 364,16. Como são necessárias três doses para se ter a imunização, o combate ao HPV custa perto de R$ 1.100. Já é caro, mas há farmácias e clínicas de vacinas tentando cobrar mais. A Radiobrás recolheu denúncias nesse sentido em sua coluna do consumidor. Postos de Saúde de Brasília também registram queixas contra o custo exorbitante da vacina. Poucos medicamentos são tão estratégicos neste momento como a vacina anti-HPV. Gastando com ela hoje, o Ministério da Saúde economizaria milhões, contendo o câncer e salvando vidas.

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O Brasil e o licenciamento compulsório de medicamentos

2017-01-10T17:18:15-03:00junho 21, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

Durante a 54ª Assembléia Mundial de Saúde da Organização Mundial da Saúde (OMS), 191 países votaram a favor — apenas os Estados Unidos votaram contra — de uma resolução proposta pelo Brasil. A proposta brasileira é uma estratégia ambiciosa de combate à AIDS que prevê o tratamento universal aos doentes e cujo aspecto mais polêmico é o licenciamento compulsório de medicamentos. A resolução aborda até ajuda técnica aos países pobres que lancem mão do licenciamento compulsório. A aprovação maciça foi uma vitória importante para o Brasil. Alguns dias antes de tomar a iniciativa na OMS, o Brasil deu outro passo ousado em relação à mesma questão: decidiu licenciar compulsoriamente o medicamento Efavirenz, produzido pelo laboratório Merck, após fracassadas tentativas de negociação com a empresa, nas quais tentou-se diminuir o preço do remédio. O Efavirenz compõe o coquetel antiretroviral utilizado no tratamento de portadores do vírus HIV. De acordo com dados do Ministério da Saúde, o montante economizado pelo Brasil com o licenciamento compulsório do medicamento seria de US$ 30 milhões. Pode-se dizer que o gesto é simbólico no que se refere a seu impacto financeiro, mas é de extrema ousadia política. Há suficientes argumentos para sustentar que a medida brasileira está em conformidade com as normas internacionais existentes. O Acordo sobre Direitos de Propriedade Intelectual relacionados ao Comércio (Acordo TRIPs, sigla em inglês) contém disposições que estabelecem as exceções aos direitos de exclusividade das patentes e a possibilidade de licenciamento compulsório. Essas mesmas exceções e essa mesma possibilidade são confirmadas por uma declaração emitida pelo Conselho TRIPs — órgão da OMC que analisa questões relacionadas à Propriedade Intelectual — em 2001, a Declaração de Doha sobre o Acordo TRIPs e Saúde Pública. Também a legislação brasileira prevê o licenciamento compulsório. Note-se que, contrariamente a outros países, o Brasil promulgou em 1996 sua Lei de Propriedade Industrial, que adequou nossa legislação aos padrões mínimos de proteção exigidos pelo Acordo TRIPs, apenas um ano após a celebração do acordo internacional, sem valer-se do prazo de cinco anos, facultado pelo próprio Acordo TRIPs, para proceder à atualização de sua legislação nacional. A Índia, por exemplo, fez uso dessa janela temporal, e fomentou uma indústria farmacêutica nacional competitiva. O Brasil, voluntariamente, abriu mão dessa vantagem e adiantou-se na proteção patetaria. Não obstante as autorizações legais, o licenciamento obrigatório é raramente utilizado pelos países e, neste caso, o Brasil valeu-se dele pela primeira vez em matéria de medicamentos. A razão disso está no custo político e, possivelmente também econômico, envolvido em um licenciamento compulsório de patente. O discurso dominante sustenta que as patentes são de fundamental importância para garantia dos investimentos privados em pesquisa e desenvolvimento. Assim, o licenciamento obrigatório passa a ser visto como um desestímulo ao investimento e estigmatiza o país que dele lança mão como um país que desrespeita o “mercado”.Apesar desse custo possível, e apesar de ter sido célere na adequação das normas nacionais relativas à propriedade industrial, o Brasil tem estado, há bastante tempo, à frente de um movimento que tende a flexibilizar os rigores da exclusividade patetaria, especialmente no que concerne aos medicamentos e à saúde pública. Há muito o Brasil utiliza-se da ameaça do licenciamento compulsório como instrumento de negociação com diversos laboratórios para levá-los a praticarem preços mais baixos. Ao finalmente licenciar compulsoriamente o Efavirenz, o país dá mais um passo importante, no qual firma sua posição internacional em relação a questão tão controversa. Dá outro, ainda, quando leva a questão das patentes e da saúde pública à OMS. Não resta dúvida de que a questão contrapõe dois valores distintos: a proteção do interesse privado e da propriedade intelectual sobre o produto do investimento em pesquisa; e a proteção do interesse do Estado de fazer valer meios que promovam a saúde pública. Em um cenário internacional no qual a lógica prevalecente é a da liberdade dos mercados e da proteção dos interesses econômicos e privados, o Brasil ousou ao levar o debate para uma arena na qual o foco é a saúde e os argumentos do interesse público podem mais naturalmente prosperar. E ao conseguir aprovação maciça da resolução que apresentou, conseguiu cercar sua posição de grande legitimidade.  * Com a colaboração de Mônica Guise

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Abbott rompe com a indústria e processa organização do movimento de AIDS na França

2017-01-10T17:18:15-03:00junho 21, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

Quebrando o que se tornou um tabu nas relações respeitosas entre a indústria farmacêutica e os ativistas de Aids, os laboratórios Abbott estão processando um grupo francês do movimento de Aids por ter arquitetado um ataque cibernético contra o website da empresa. O agressivo e incomum ato legal surge no topo de outras medidas controvertidas que o Abbott adotou, tais como a quintuplicar o preço de um de seus medicamentos para Aids nos Estados Unidos e descartar os planos de introduzir uma nova formulação de outro remédio, também usado no tratamento da Aids, na Tailândia. Com o processo, registrado em uma corte criminal francesa no dia 23 de maio, a companhia está violando uma prática não oficial, adotada pela indústria farmacêutica há muito tempo, de ter uma postura conciliatória com as organizações de Aids. Além de enfurecer a comunidade global de Aids, as atitudes do Abbott causaram consternação entre os outros fabricantes de medicamentos, que tiveram suas relações abaladas com os ativistas. “Bem cedo, nós percebemos que era importante trabalhar com os grupos de ativistas,” disse Justine Frain, vice-presidente de parcerias da comunidade global da GlaxoSmithKline PLC, relembrando as dores de cabeça em relações públicas provocadas por ativistas de Aids com suas ações no final dos anos 80, por exemplo, quando eles se acorrentaram aos edifícios da companhia britânica. A atual filosofia da Glaxo é “que os grupos comunitários são parte da solução”, declarou Frain. O Abbott chamou o seu processo contra o grupo Act Up-Paris de uma “ação de princípios”, justificada pelo fato de que o ataque ao seu website interrompeu algumas de suas atividades comerciais, tais como a venda de produtos nutricionais “online”. O laboratório afirmou que o grupo ativista violou dois artigos do código penal francês que proíbe a invasão de websites e também o fornecimento dos meios para que alguém possa efetuar a invasão. ”Nós respeitamos o direito de protestar e, mesmo que nossas organizações possam discordar em diversas questões, é importante transmitir esses desacordos de uma forma adequada, respeitosa e dentro da lei”, afirmou o porta-voz do Abbot, Scott Stoffel. A empresa não quis dar maiores explicações sobre a sua estratégia de relações públicas de quebrar as regras da indústria. Se a justiça condenar a Act Up-Paris, a organização será multada em uma quantia entre €75 mil e €100 mil, e deverá ser desativada. A Act Up-Paris é uma ramificação da organização Act-Up, sediada em Nova Iorque, que representa a AIDS Coalition To Unleash Power. A ramificação francesa da organização é conhecida por suas táticas provocativas, tais como destruir os estandes das empresas farmacêuticas em conferências e derramar sangue falso nas sedes dessas empresas. Ela tem despertado críticas de outras organizações de Aids por ser muito radical. ”Nós usamos violência simbólica para chamar a atenção para a violência real” praticada pelas companhias farmacêuticas contra os pacientes”, justificou o integrante da Act Up-Paris, Jerome Martin. Mas os ativistas do movimento de Aids se uniram a favor da organização e denunciaram o processo do Abbott como uma péssima tática de intimidação. “É a mais recente de uma longa série de ações infelizes do Abbott”, comentou Mark Harrington, diretor executivo do Treatment Action Group, um grupo de advocacy em Aids sediado em Nova Iorque. O Abbott iniciou esse comportamento mais agressivo em 2003, quando aumentou em 400%, nos Estados Unidos, o preço do medicamento anti-Aids Norvir, utilizado em combinação com pílulas de empresas rivais. A medida era parte de uma estratégia para persuadir pacientes a pararem de utilizar o Norvir e os medicamentos das concorrentes para começarem a usar a nova droga do Abbott, o Kaletra. Em um artigo de página inteira publicado em janeiro deste ano, The Wall Street Journal revelou que o Abbott considerou adotar ações ainda mais controvertidas nos meses que se seguiram ao aumento de preço. Dentro deste contexto, e-mails e documentos internos mostraram que a empresa aventou a possibilidade de retirar os comprimidos de Norvir do mercado norte-americano e vender somente a formulação líquida que, como um dos executivos do próprio laboratório admitiu, tem gosto de vômito. Para prevenir questionamentos de pacientes de Aids, o Abbott discutiu a utilização de uma reportagem de impacto dizendo que precisava dos comprimidos de Norvir para um esforço humanitário na África. O Abbott ressaltou que essas medidas foram consideradas por executivos que não têm poder de decisão e foram rapidamente descartadas. Além disso, o Abbott irritou a comunidade de Aids no começo deste ano quanto retirou todas as solicitações pendentes de registro de seus medicamentos na Tailândia, após o país anunciar que decretaria o licenciamento compulsório do Kaletra para importar ou produzir versões genéricas ou mais baratas da droga. Uma dessas solicitações retiradas pelo laboratório era de uma nova formulação do Kaletra resistente ao calor, particularmente mais adequada ao clima tropical da Tailândia. Os ativistas disseram que esta foi uma atitude sem precedentes e a compararam à “opção nuclear”. O Abbott deu um passo mais conciliatório em abril quando declarou que trabalharia com a Organização Mundial da Saúde para vender o Kaletra a várias nações em desenvolvimento, incluindo a Tailândia, por um preço menor que o dos genéricos. No entanto, recusou-se a voltar atrás em sua decisão de retirar as solicitações de registro de seus novos medicamentos naquele país. A empresa informou que manteve sua posição em relação às solicitações porque o governo tailandês ainda não tinha garantido respeitar a propriedade intelectual, embora as negociações tivessem continuado. Em 26 de abril, o Act Up-Paris respondeu a um apelo de grupos de pacientes para protestar contra as ações do Abbott organizando um ataque ao website da companhia. Clicando em um link postado no website do Act Up-Paris, entre 500 e mil ativistas da França, Canadá, Estados Unidos, Índia e Tailândia sobrecarregaram o servidor do Abbott. Martin disse que o ataque durou um total de quatro horas e desabilitou o site do laboratório por cerca de 30 minutos na véspera da reunião anual de seus acionistas. (Um porta-voz da empresa declarou que o site ficou desabilitado mais do que isso, mas não soube fornecer o tempo específico.) Após enviar uma carta de ameaça ao Act Up-Paris, o Abbott registrou o processo. Embora algumas ações anteriores do grupo tenham sido criticadas por outros organizações de Aids, ativistas saíram em sua defesa, expressando sua indignação com o fato de uma empresa farmacêutica processar manifestantes. Eles dizem que o ataque contra o website do Abbott foi uma forma legítima de protesto e que a resposta do laboratório foi exagerada. ”Você pode concordar ou não com o ato do Act Up-Paris, mas existe uma coisa chamada liberdade de expressão que diz que você pode ir ao quartel general do Abbott e você pode fazer o mesmo com um website”, comentou Joan Tallada, diretora da GTT, uma organização de Aids sediada em Barcelona. As táticas agressivas do Abbott causaram espanto na indústria farmacêutica. “Eu falei com executivos da area que consideram a postura do Abbot um desastre em relações públicas para a indústria”, declarou Michael Weinstein, presidente da Aids Healthcare Foundation, uma grande provedora de cuidados médicos para pacientes de Aids. O integrante da Act Up-Paris, Jerome Martin, informou que o grupo se defenderá contra o processo na justiça, mas pretende também utilizar a cobertura da mídia gerada pelo processo para chamar a atenção para as ações do Abbott. “Nós vamos usar o espaço que eles nos proporcionaram para falar novamente da Tailândia e das terríveis conseqüências que a decisão deles causou por lá,” acrescentou ele. (John Carreyrou and Avery Johnson) Tradução: Maurício Barreira – Agência de Notícias da AIDS

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Brasil precisa de regras mais claras para fornecimento de medicamentos

2017-01-10T17:18:15-03:00junho 20, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

A necessidade da regulamentação do fornecimento dos medicamentos excepcionais em todo o Brasil foi defendida pelo presidente do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass) e secretário de Saúde do Rio Grande do Sul, Osmar Terra, e pelo do secretário da Saúde do Paraná, Cláudio Xavier, nesta terça-feira (19). “Este problema é de todo o Brasil. Estamos preocupados com a falta de critérios e de colocar em risco o investimento público”, afirmou Terra, durante entrevista coletiva no Palácio das Araucárias. Para ele a discussão tem que ser estabelecida com o Judiciário para que sejam estabelecidas regras claras em relação aos critérios de preços, eficácia dos medicamentos e prescrição de doses. “A preocupação é garantir os medicamentos para a população, mas em doses corretas e com eficiência comprovada”, declarou. O secretário da Saúde do Paraná, Cláudio Xavier, disse que metade do tempo das reuniões mensais do Conass com o Ministério da Saúde tem sido destinada a esta questão dos medicamentos. “A sustentabilidade do SUS corre risco se algumas medidas não forem tomadas”, alertou. No Paraná, segundo Xavier, o volume gasto com ações judiciais passou de R$ 200 mil, em 2003, para R$ 12 milhões, em 2006. “Queremos e vamos continuar fornecendo medicamentos. Mas é necessária uma regulamentação”, completou. Ele lembrou que o decreto 284 permitiu um sistema de controle mais avançado sobre a compra dos medicamentos e que, independente disso, continua a contar com o total apoio do governador Roberto Requião. “A partir de agora, nos casos de mandados judiciais com prazo determinado, passo a determinar as compras”, disse. Distorções – Durante a entrevista, Terra enumerou algumas distorções que vêm ocorrendo freqüentemente nos medicamentos distribuídos por meio de ações judiciais. Segundo ele, para o tratamento de Hepatite C, é utilizado o medicamento Interferon Alpha, mas os laboratórios aumentaram uma molécula na fórmula e o nome passou a ser Interferon Peguilado. De acordo com Terra, o efeito continuou o mesmo, mas o preço do medicamento subiu de R$ 3 mil para R$ 50 mil. “Hoje em dia praticamente não temos mais receitas para o Interferon Alpha”, disse Terra, completando que os laboratórios aproveitam da situação para vender até medicamentos experimentais. “Alguns laboratórios farmacêuticos estão aproveitando esta porteira aberta para obterem lucros aviltantes. De cada 100 medicamentos experimentais, apenas dois apresentam resultado, só que o laboratório cobra, no preço final, os investimentos feitos sobre os outros 98. Estamos trabalhando numa área muitas vezes sem concorrência”, salientou o presidente do Conass. SUS – Terra lembrou que o Sistema Único de Saúde (SUS) avançou muito nos últimos 15 anos, época em que as pessoas não tinham direito a quase nada. Segundo ele, se alguém tivesse aids, por exemplo, e não pudesse custear o seu próprio tratamento não havia solução para o caso. “No Brasil, a população conquistou o direito ao atendimento básico, cirurgias e concessão de medicamentos, no entanto, à medida que o SUS avança surgem novos problemas. O maior desafio é garantir a continuidade”, lembrou. “No Rio Grande do Sul tivemos o caso em que o laboratório forneceu um medicamento experimental gratuitamente para um paciente durante dois meses. Depois, orientou que ele buscasse a Justiça para garantir a continuidade do tratamento, que custaria R$ 2 milhões ao ano”, frisou. Além disso, segundo Terra, em alguns casos são dadas doses dobradas, que inclusive especialistas internacionais não recomendam. Um destes casos ocorreu com a doença de Gaucher, muito rara, na qual médicos estavam prescrevendo o dobro da dose necessária. Um especialista internacional foi consultado e disse que o efeito seria exatamente o mesmo. “Estamos falando de dinheiro público, precisamos ter cuidados”, completou Terra. O secretário da Saúde, Cláudio Xavier, lembrou que este medicamento será produzido no Paraná, dentro de algum tempo, pelo Tecpar depois de convênio firmado com cientistas canadenses. O presidente do Conass continuou a coletiva dizendo que pedidos de prisão para secretários de saúde tem sido cada vez mais freqüentes em todos os Estados. “No Espírito Santo, o secretário foi preso por não fornecer um medicamento que o laboratório não tinha condições de entregar naquele momento. Esta é uma questão urgente e que precisa ser resolvida”, afirmou. Segundo Terra, mais de 20% dos medicamentos excepcionais distribuídos não servem para os devidos fins, o que significa gasto desnecessário. “Medicamentos são receitados, e o Estado é obrigado a comprá-los, mesmo que não se tenha resultado para os pacientes”, declarou. Xavier lembrou que os quatro pedidos de prisão que recebeu neste ano partiram do mesmo promotor e da mesma cidade. Solução - Segundo Terra, a solução do problema passa em primeiro lugar pelo projeto de lei do senador Tião Vianna que tramita no Congresso Nacional. O objetivo é regulamentar o fornecimento dos medicamentos excepcionais, que segundo ele, no Rio Grande do Sul, atendem 0,5% da população. “A maior parte do orçamento da saúde no nosso Estado é destinada para os medicamentos excepcionais e às vezes deixamos de investir em outros programas, como o Saúde da Família”, exemplificou. Outro ponto destacado por Osmar Terra é a necessidade da pronta atualização de alguns protocolos terapêuticos do Ministério da Saúde e também que os estados façam os seus protocolos, como já ocorre no Paraná. “O ideal seria a atualização semestral. A última foi feita em dezembro de 2002”, disse Terra. “Ao percebermos uma demanda judicial muito grande para determinado medicamento, criamos protocolos no Estado, como ocorreu com insulina glargina”, completou o secretário da Saúde do Paraná, Cláudio Xavier. Centralização - Sobre a centralização das compras de medicamentos, Xavier declarou que a ação foi solicitada pela Secretaria da Saúde ao governador Roberto Requião, já que o número de ações estava crescendo vertiginosamente. “Com isso passamos a ter o apoio da Procuradoria Geral do Estado (PGE) para a resolução das ações”, afirmou. Além disso, segundo o secretário, abriu-se mais possibilidades para negociar com os laboratórios e redução dos valores pagos, com base nas novas regras ditadas pelo Ministério da Saúde. “Fora que o reembolso que estamos tendo do ministério nestas compras está crescendo cada vez mais”, disse. Xavier também lembrou que com a centralização modificou os ritos para compra de medicamentos e que não é apenas a Secretaria da Saúde que compra remédios. As secretarias da Justiça, de Segurança Pública e de Ciência, Tecnologia e Ensino Superior, também realizam compras para atenderem unidades próprias. Sobre o desabastecimento temporário de alguns medicamentos, o secretário informou que o atraso de laboratórios para enviarem a cotação de preço para a Central de Medicamentos é uma das razões pela qual este incidente ocorreu. “Mas com o auxílio da PGE esta questão está sendo resolvida. E com o registro de preços que está ocorrendo, as compras se tornarão mais ágeis e baratas para o Governo”, analisou. “Este desabastecimento ocorreu não só no Paraná, mas em diversos estados pelos mesmos motivos”, afirmou o presidente do Conass, Osmar Terra. A diretora da Cemepar, Deise Pontarolli, disse que a mudança de rito na compra dos medicamentos também influenciou. “Queríamos que não faltasse medicamento algum para paciente nenhum e que nenhum paranaense precisasse ir à Justiça para conseguir remédio”, enfatizou Xavier.

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Quebra de patente pode ameaçar novas pesquisas

2017-01-10T17:18:15-03:00junho 18, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

The Economist Ninguém pode culpar a Tailândia pela ambição. Na recente conferência Bio, maior encontro anual da indústria da biotecnologia, ela se colocou como uma potência farmacêutica emergente, com um pavilhão deslumbrante, celebridades e bebidas grátis para todos. Mas a argumentação com a Tailândia é sobre os meios, e não os fins. No fim do ano passado, o governo tailandês surpreendeu a indústria farmacêutica quando afirmou que iria quebrar a patente do Efavirenz, um medicamento anti-retroviral produzido pela Merck dos Estados Unidos, e mudar para um genérico fabricado na Tailândia e vendido pela metade do preço. O país havia assinado o Acordo sobre os Aspectos Comerciais dos Direitos de Propriedade Intelectual (Agreement on Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights, ou TRIPS), que protege as patentes dos medicamentos. Mas o acordo permite o "licenciamento compulsório" em condições especiais condições que, segundo alguns, a Tailândia não atendeu. Desde então, a Tailândia já informou que vai quebrar as patentes de mais dos medicamentos, e ela poderá em breve acrescentar mais dois à lista. Além disso, outros países vêm fazendo o mesmo. O Brasil declarou no mês passado que a Merck está cobrando muito caro pelo Efavirenz. Nas últimas semanas, os ministros da Saúde da Índia, Malásia e Quênia também fizeram comentários sobre o licenciamento compulsório. Tudo isso desencadeou uma grande disputa. Muitos defensores da saúde globalizada estão aplaudindo a tendência, afirmando que o acesso aos medicamentos genéricos baratos vai ajudar muito os mais pobres. No mês passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) aprovou uma resolução que apóia o licenciamento compulsório. Os Estados Unidos se opuseram furiosamente, mas outros países ricos apoiaram a moção. Os executivos do setor farmacêutico estão furiosos. Jon Pender, da britânica GlaxoSmithKline (GSK), insiste que o licenciamento compulsório deveria ser usado apenas como "último recurso". Ele afirma que embora o licenciamento compulsório seja legal, o TRIPS estabelece que deve ser aplicado sob circunstâncias limitadas, como emergências nacionais na área de saúde, e somente após amplos esforços de negociação de preços com as farmacêuticas. "É fácil ver as grandes companhias farmacêuticas como fonte de todo o mal", lamenta Daniel Vasella, presidente do conselho de administração da suíça Novartis. A empresa está envolvida em um caso de patente na Índia que está sendo observado atentamente, e que envolve o Gleevec, medicamento contra o câncer. Ele diz que sem inovação, as gerações futuras terão número menor de medicamentos capazes de salvar vidas. E conforme Fred Hassan, presidente da Schering-Plough dos Estados Unidos e do lobby farmacêutico internacional, "sem a propriedade intelectual não há inovação". À primeira vista, essa briga reflete um velho dilema que opõe os pacientes de hoje aos de amanhã. O licenciamento compulsório significa que mais tailandeses terão hoje acesso a drogas de combate ao HIV, mas também significa que as companhias farmacêuticas terão menos disposição para investir em medicamentos para a Tailândia no futuro. Mesmo assim, olhe com mais atenção e verá que isso é mais do que uma briga entre os doentes dos países pobres e as farmacêuticas. O que a torna diferente é a participação de dois novos atores: obstinados países de renda intermediária e a ascendente dos medicamentos genéricos. Essa controvérsia não foi desencadeada pelos países mais pobres, que já pagam preços menores, e sim pelas economias emergentes. Há muito tempo elas ameaçam partir para o licenciamento compulsório para obter descontos, mas na verdade, quando elas impõem esse licenciamento estão mudando o equilíbrio do poder. Um resultado perverso dessa tendência é que os países de renda per capita intermediária estão conseguindo medicamentos mais baratos, enquanto vizinhos mais silenciosos e talvez mais necessitados, não. Não há dúvidas de que os pobres da Tailândia merecem tratamento, mas o regime militar é rico o suficiente para gastar mais em saúde. Richard Epstein da Faculdade de Direito da Universidade da Chicago, observa que não há nada que possa impedir as organizações de combate à AIDS ou governos estrangeiros de comprar esses produtos a preços negociados e depois distribuí-los gratuitamente. Até mesmo especialistas dedicados à causa de ajudar os mais pobres a terem acesso a medicamentos, vêem a tendência como preocupante. "O Brasil não é Ruanda, que não pode pagar", diz Tadataka Yamada da Gates Foundation. Não se sabe se os pobres acabarão ou não sofrendo no longo prazo com a inovação reduzida, mas um vencedor claro da tendência do licenciamento compulsório é a indústria dos medicamentos genéricos. Sob uma cláusula do TRIPS, os países que invocam o licenciamento compulsório mas carecem de capacidade doméstica de fabricação, podem importar genéricos de outros países. Isso promete ser uma corrida do ouro para as fabricantes de genéricos. O Canadá encoraja as empresas domésticas a produzirem cópias de medicamentos justamente por esse motivo. Mas os custos dessas empresas são tão altos que suas exportações não têm como competir com os medicamentos mais baratos produzidos pela Índia, segundo afirma Amir Attaran da Universidade de Ottawa. Pouco surpreende que executivos da Cipla, uma das companhias indianas que já produzem versões genéricas de medicamentos de combate à AIDS, tenham aplaudido calorosamente a tendência e elogiam o apoio do Brasil ao licenciamento compulsório, que segundo afirmam eles, "ajuda a proteger os direitos dos cidadãos".

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“A indústria está nos passando a perna´´

2017-01-10T17:18:15-03:00junho 17, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

Ex-editora do ‘New England Journal of Medicine’ faz duras críticas às companhias farmacêuticas A decisão do governo brasileiro, no início de maio, de quebrar a patente do medicamento antiaids Efavirenz deveria inspirar outros países a também adotar práticas de licenciamento compulsório. Só assim seria possível baixar os preços dos remédios e liberar as pessoas de serem reféns dos lucros da indústria farmacêutica. A sugestão é da americana Marcia Angell, da Escola Médica de Harvard. Ex-editora-chefe da revista New England Journal of Medicine, Marcia cansou de ver a influência da indústria sobre as pesquisas de novas drogas e largou o posto para sentir-se mais à vontade para denunciar. Em A Verdade sobre os Laboratórios Farmacêuticos, que acaba de ser lançado no Brasil (Ed. Record, 322 págs., R$ 45), ela alerta que é injustificada a alegação da indústria de que os altos preços do remédio são necessários para financiar pesquisa e desenvolvimento. Afirma que o maior gasto é com marketing e que muitos remédios anunciados como novidade são apenas reformulações de drogas antigas, sem maior eficiência. “A indústria está nos passando a perna.” Então a verdade do seu livro é: estamos comprando gato por lebre? Em grande parte sim, estamos. E são muitos gatos. Médicos e pacientes foram levados a acreditar que as drogas prescritas são melhores e mais seguras do que elas realmente são, porque a pesquisa é freqüentemente influenciada e os resultados negativos não são publicados. No seu livro, a senhora diz que a indústria nos fez acreditar que muitas doenças são comuns quando na verdade elas não são. Poderia dar alguns exemplos? As companhias freqüentemente vendem doenças que se encaixam em suas drogas em vez do contrário. Por exemplo, divulgam remédios para tratar algo que chamam de “desordem de ansiedade social”, que é apenas um medicinês para timidez. Mas todo mundo é tímido de vez em quando. Outras vezes a indústria expande a definição dos fatores de risco de uma doença. Todo mundo sabe que alto nível de colesterol pode ser perigoso e requer tratamento com drogas, o que pode ser bem efetivo. Mas aí os “especialistas” com conexões financeiras com a indústria ficam baixando o nível considerado “normal”. Alguns críticos acreditam que várias pessoas tomam remédio para baixar o colesterol sem necessidade. A senhora também denuncia que o investimento real em inovação é pequeno. É possível controlar a indústria farmacêutica? Há muitas reformas que eu poderia sugerir para que a indústria fosse mais bem regulada e juntas eu acredito que seria possível restabelecer o propósito original de fazer drogas inovadoras. Nos EUA, no entanto, o problema fundamental é o Congresso. As companhias farmacêuticas têm o maior lobby em Washington e dão grandes quantidades de dinheiro para financiar campanhas. Isso significa que pelo Congresso quase nunca passa uma lei que não esteja de acordo com os desejos da indústria. E o FDA (agência reguladora de drogas e alimentos dos EUA) é controlado pelo Congresso. Como podemos forçar a indústria a investir mais em pesquisa e desenvolvimento? O maior problema é que a indústria tem lançado muitas “me-too drugs” - variações triviais de remédios já existentes, com novas patentes. Recentemente, o FDA classificou que 80% das novas drogas provavelmente não apresentam desempenho superior aos remédios já existentes. Se fosse obrigatório que novas drogas fossem comparadas com as antigas antes de chegar ao mercado, essa onda iria parar. Então as indústrias voltariam sua atenção para a real inovação. Se os altos preços dos remédios têm afetado os americanos, os países pobres estão ainda mais vulneráveis. E a indústria nem olha para doenças tropicais, por isso chamadas de negligenciadas... Verdade. Mas isso é muito simples de entender. Companhias farmacêuticas são negócios de capital aberto e têm como uma de suas obrigações aumentar o valor das ações maximizando lucros. Não são de caridade e não têm interesse em fazer drogas que não rendam lucros. É óbvio que prefiram lançar mais um tipo de estatina para colesterol (já há seis no mercado) que tentar investigar uma nova droga para tratar, digamos, malária. Até porque, apesar de doenças tropicais matarem um grande número de pessoas, ocorrem em regiões que geralmente não podem arcar com as despesas de drogas de marca registrada. Recentemente, o governo brasileiro quebrou a patente do anti-retroviral Efavirenz. Esse é o caminho para países pobres obterem acesso a remédios caros e assim forçar a indústria a baixar seus preços? Deveria, sim, haver amplo uso de licenciamentos compulsórios. É errado manter as pessoas reféns dos lucros das companhias farmacêuticas, visto que elas estão entre as mais lucrativas do mundo, ano após ano. Só nos EUA vendem cerca de US$ 250 bilhões em drogas com prescrição médica. Sem contar o medicamento usado em hospitais. Então os países pobres têm mais é de usar esse recurso.

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Medicamentos, direitos humanos e patentes

2017-01-10T17:18:15-03:00junho 15, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

O caso brasileiro lança o desafio de redefinir o direito à propriedade intelectual à luz da prevalência dos direitos humanos EM DECISÃO inédita, em 4/5, o Estado brasileiro determinou o licenciamento compulsório do medicamento anti-retroviral Efavirenz para o tratamento da Aids, produzido por laboratório multinacional, com fundamento no interesse público. O medicamento é protegido por patente que permite ao laboratório o direito de excluir terceiros da produção ou venda da droga no Brasil, o que resulta em verdadeiro monopólio. Desde novembro de 2006, o Brasil negociava com o laboratório a redução de preços considerados injustos. Assim, a medida permitirá a economia de US$ 30 milhões em 2007 devido à importação da Índia da versão genérica a preços inferiores, bem como a fabricação do remédio no país. Em 23/5, foi aprovada na Organização Mundial da Saúde resolução apresentada pelo Brasil propondo estratégia internacional para garantir o acesso a medicamentos essenciais em países em desenvolvimento, bem como a criação de um fundo internacional para o financiamento de pesquisas de novos medicamentos. A Aids, a tuberculose e a malária matam, por ano, 6 milhões de pessoas, sobretudo nos países em desenvolvimento. Muitas dessas mortes evitáveis decorrem da falta de acesso a medicamentos essenciais e da omissão ou insuficiência de políticas públicas. Entre 1975 e 1999, dos quase 1.400 medicamentos produzidos, só 13 eram para doenças tropicais. Nesse contexto, indaga-se: como tecer um adequado juízo de ponderação entre o direito à propriedade intelectual e os direitos sociais, econômicos e culturais? O direito à propriedade intelectual é concebido como um incentivo para a criação de novos conhecimentos, sob a visão utilitarista de que beneficiarão a sociedade como um todo. Tendo em vista que a invenção de um novo medicamento custa de US$ 115 milhões e US$ 800 milhões, é preciso proteger os interesses do inventor e daqueles que exploram comercialmente a invenção, de modo a fomentar os investimentos. Contudo, o direito à propriedade intelectual não deve ser considerado ilimitado ou absoluto, na medida em tem uma função social. É preciso buscar um adequado equilíbrio entre a proteção dos direitos do inventor e de exploração comercial de um invento científico e os direitos sociais. Por força do Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, os Estados-partes assumem o dever jurídico de respeitar, proteger e implementar tais direitos, garantindo o seu núcleo essencial e promovendo sua aplicação progressiva, vedado retrocesso social. Os interesses privados do inventor e de exploração comercial, bem como as patentes, não podem impedir que os Estados implementem as obrigações internacionais decorrentes do pacto em relação ao direito à saúde e ao direito ao desfrute dos progressos científicos, como assinalou comitê da ONU sobre os direitos econômicos, sociais e culturais, em sua recomendação geral nº 17. O próprio acordo internacional sobre propriedade intelectual Trips (Trade-Related Aspects of Intellectual Property Rights) endossa essa necessária ponderação, ao estabelecer como objetivo "contribuir para a promoção da inovação tecnológica e para a transferência e a disseminação de tecnologia, para a vantagem mútua dos produtores e usuários do conhecimento tecnológico, de tal maneira que possa levar ao bem-estar econômico e social e ao balanço de direitos e obrigações" (artigo 7º). Nos termos do artigo 8º, cabe aos Estados-membros adotar medidas necessárias para proteger a saúde pública e a nutrição e para promover o interesse público em setores de vital importância para o desenvolvimento socioeconômico e tecnológico, desde que compatíveis com o acordo. A declaração de Doha sobre o acordo Trips e a saúde pública, adotada pela Organização Mundial do Comércio, em 2001, explicitou a gravidade dos problemas de saúde pública que afligem países em desenvolvimento, refletindo as preocupações desses países sobre as implicações do acordo Trips em relação à saúde pública. Representou, assim, uma mudança de paradigma nas relações comerciais internacionais, ao atestar que os direitos de propriedade intelectual não são absolutos nem superiores a outros direitos fundamentais. Pela primeira vez, a OMC reconheceu que o regime de patentes pode criar graves riscos ao sistema de saúde, por elevar o preço de medicamentos. Reconheceu, ainda, a importância dos mecanismos de flexibilização do regime de patentes previstos no acordo Trips -como o licenciamento compulsório- como uma medida legítima para enfrentar problemas de acesso a medicamentos. O inédito caso brasileiro lança o desafio de redefinir o direito à propriedade intelectual à luz da prevalência dos direitos humanos, em uma sociedade global cujo destino e futuro se mostram cada vez mais condicionados à produção, à distribuição e ao uso eqüitativo do conhecimento.   FLÁVIA PIOVESAN, 38, professora doutora de direito constitucional e direitos humanos da PUC-SP, é procuradora do Estado de São Paulo e autora do livro "Direitos Humanos e Justiça Internacional" (Saraiva, 2006). HOLGER HESTERMEYER, 32, doutor em direito pela Universidade de Hamburgo (Alemanha), é pesquisador sênior do Max Planck Institute for Comparative Public Law and International Law e autor do livro "Human Rights and WTO: Patents and Access to Medicines" (no prelo). Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br

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O Brasil e a cúpula do G-8

2007-06-14T00:00:00-03:00junho 14, 2007|Categories: Notícias Antigas ?|

Entre os resultados da cúpula do G-8 que se encerrou na última sexta-feira, é especialmente relevante para o Brasil o lançamento do chamado Heiligendamm Process, uma iniciativa que leva o nome do balneário alemão em que ocorreram as reuniões. Ele é definido como "um diálogo sobre temas-chave da economia mundial, com o objetivo de alcançar resultados concretos até a cúpula do G-8 de 2009, na Itália". O objetivo é manter, durante os próximos dois anos, discussões mais estruturadas em torno dos seguintes temas: promoção de investimentos internacionais, promoção e proteção de pesquisa e inovação (leia-se propriedade intelectual), combate às mudanças climáticas, cooperação no setor de energia, e desenvolvimento sustentável, com ênfase no combate à pobreza na África. Há várias leituras possíveis a respeito das implicações dessa iniciativa para o Brasil, desde as céticas às mais otimistas. Alguns dirão que se trata de mais uma iniciativa diplomática sem maior relevância prática. Para outros, este é o reconhecimento da liderança que o Brasil exerce no mundo em desenvolvimento. Uma análise mais pragmática, no entanto, tende a ser mais útil para entender como os interesses brasileiros serão afetados. Em primeiro lugar, o G-8 só tomou essa iniciativa porque ela é tida como do interesse dos seus integrantes. Ela reflete a percepção de que é preciso dar maior peso à participação, hoje apenas marginal, do Brasil e dos outros quatro grandes países emergentes (China, Índia, África do Sul e México) nas discussões do grupo. Não por cortesia, mas porque esses países respondem por uma parte substancial do PIB e da população mundiais. Assim, é cada vez mais difícil, tanto em termos de eficácia quanto de legitimidade, decidir sobre temas importantes sem o envolvimento deles. A questão da segurança energética e a busca de fontes de energia renováveis ilustram bem esse ponto. A liderança do Brasil na área de biocombustíveis o transforma em interlocutor necessário. O peso demográfico e o ritmo de crescimento da Índia e da China tornam essencial seus engajamentos em temas como mudanças climáticas e proteção da propriedade intelectual. Em segundo lugar, os países industrializados parecem ter decidido criar um foro mais restrito para discussão de temas que lhes são caros com países relevantes no cenário internacional. Isso é visto, provavelmente, como uma forma mais eficaz de obter avanços do que discuti-los em organismos multilaterais, como a ONU ou a OMC. Ainda mais quando se considera que a resistência mais eficiente a soluções desequilibradas parte sempre dos maiores países em desenvolvimento, como foi o caso do G-20, impulsionado e liderado por Brasil e Índia. Em se chegando a consensos com os maiores países em desenvolvimento, fica mais fácil estender as soluções ao resto do mundo. O Brasil não ratificou os acordos bilaterais que assinou, nem está disposto a assumir compromissos sobre o tema nas negociações comerciais de que participa Como exemplo, tome-se a questão dos investimentos internacionais. Os países mais ricos não conseguiram incluir o tema da promoção e proteção de investimentos na agenda da Rodada Doha. Tampouco conseguiram fechar, na década de 1990, um acordo sobre proteção de investimentos no âmbito da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE); contudo, eles têm acordos bilaterais de proteção de investimentos assinados com muitos países de pouco relevância econômica. Brasil e outros grandes países em desenvolvimento têm resistências históricas a regras excessivamente restritivas sobre esse tema. O Brasil não ratificou os acordos bilaterais que assinou, nem está disposto a assumir compromissos substanciosos sobre o tema nas negociações comerciais de que participa. Em propriedade intelectual, não é diferente. O Brasil se recusa, como ocorreu nas negociações da ALCA, a aceitar regras mais estritas sobre propriedade intelectual do que as previstas no acordo TRIPs da OMC. Além disso, acaba de usar o mecanismo de licenciamento compulsório da patente de um medicamento anti-aids, criando um precedente perigoso para os interesses dos países mais ricos. As reticências da Índia e da China nesse tema também são largamente conhecidas. A exemplo dos países do G-8, o Brasil deverá encarar esse processo como uma oportunidade de fazer avançar seus próprios interesses. O sucesso desse esforço dependerá da nossa capacidade de formular, internamente, políticas (de preferência, de Estado) claras a respeito dos temas envolvidos e de forjar, externamente, soluções que sejam vistas pelos demais participantes como mutuamente benéficas. Na questão dos investimentos internacionais, por exemplo, a participação no processo impõe que o Brasil defina quais tipos de regulação internacional (multilateral ou bilateral) está disposto a aceitar, levando em consideração que está se tornando também um exportador de investimentos. O país certamente será pressionado sobre este tema, mas não precisará ficar na defensiva. Uma análise das legislações dos países ricos mostra que possuem regras que restringem a "liberdade de investimentos" que os membros do G-8 querem ver difundida. O Canada Investment Act e o Committee on Foreign Investment in the US, por exemplo, são utilizados pelo Canadá e pelos EUA para analisar investimentos estrangeiros nesses países, e podem levar à imposição de restrições ou mesmo à rejeição de um negócio. Em suma, ao mesmo tempo em que este processo dá ao Brasil a possibilidade de se fazer ouvir e defender seus interesses em temas relevantes, deve servir de indutor para a definição de posições claras e bem informadas a respeito deles. Rabih Ali Nasser é doutor em Direito Internacional pela USP. Professor do Gvlaw (FGV/SP). Sócio de Albino Advogados Associados.

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