Ativistas dizem que o acordo com o laboratório Abbott não é a solução para a acessibilidade aos remédios e para o programa de aids brasileiro. Seguem defendendo o licenciamento compulsório
O acordo fixado entre o Ministério da Saúde e o laboratório norte-americano Abbott, que reduz o preço pago pelo Brasil do anti-retroviral Kaletra, de US$ 1,17 para US$ 0,63, não agradou ativistas do país. Anunciado na última segunda-feira, 3, na entrega do Primeiro Prêmio Nacional CEN Aids pelo ministro Saraiva Felipe, o acordo diminui o preço em quase 50%, mas não prevê transferência de tecnologia para a produção nacional do medicamento. Os ativistas do movimento de luta contra a Aids não vêem o acordo como uma solução definitiva, mas sim, como uma ação paliativa. A presidente do Fórum ONG/Aids da Paraíba, Elaine Bezerra, acredita que o governo quer, com o acordo, agradar aos dois lados, tanto o movimento social quanto o governo dos EUA. “Foi uma boa solução no ponto de vista político e do governo, porém não faz enfrentamento com os EUA e tenta agradar o movimento social”, afirmou Elaine. Para a presidente do Fórum ONG/Aids do Espírito Santo, Hélia Mara de Deus, a medida é paliativa. Ela ressaltou que só o licenciamento compulsório seria a solução. “A gente luta pela quebra de patentes. Queremos acreditar que isso é só uma medida paliativa. Até quando temos que ver eles reduzindo preços, sem tomar decisões e ações diretas?”, indagou Hélia Mara. Não tão incisivo, o presidente do Fórum ONG/Aids de Pernambuco, Wladimir Reis, defendeu o licenciamento compulsório, mas afirmou que a redução do preço é importante. “Acreditamos que uma ação mais direta venha. O licenciamento compulsório impulsionaria mais ainda o programa de Aids brasileiro, tão famoso lá fora. Com o licenciamento poderíamos fazer com que países mais pobres tenham um acesso melhor aos medicamentos”, afirmou. Wladimir ressaltou ainda a necessidade de um monitoramento dos medicamentos anti-aids que tiveram suas patentes vencidas e que já são produzidos no país. Segundo ele, é preciso verificar a razão da diferença do preço entre os medicamentos brasileiros e indianos. “É necessária uma avaliação periódica e sempre analisando a qualidade dos produtos fabricados no Brasil e na Índia. Além de descobrir o porquê da diferença do preço”, disse. Para o presidente do Fórum de ONG/Aids do Estado de São Paulo, Rubens Duda, o ministro da Saúde deveria consultar a sociedade civil antes de fechar o acordo com o laboratório. Caso o acordo não seja satisfatório, Duda assegurou que o fórum entrará com ação no Ministério Público, pois "não vai admitir que a luta contra Aids seja prejudica", disse. E acresentou: "estamos apreensivos. O tigre, além de estar sem dente, está cego porque está com fumaça nos olhos". Quando questionados sobre a capacidade dos laboratórios nacionais de produzirem os medicamentos no país, os três presidentes do fórum, apesar de não serem especialistas no assunto, concordam que o Brasil tem capacidade de produzir os anti-retrovirais. “Pelos debates do movimento, existe condição do Brasil produzir os medicamentos”, afirmou Elaine Bezerra. Para Wladimir Reis, que faz parte do comitê da vacina, só vale a pena se os produtos forem de qualidade e com preços bem acessíveis. “Os laboratórios colocam-se capazes de produzir os medicamentos com a qualidade necessária, mas tem que ser com preços acessíveis”, concluiu. Fonte: http://www.agenciaaids.com.br/noticias-resultado.asp?Codigo=3733 Acessado em 01/12/2006