junho 2005

As múltiplas frentes da batalha contra a malária

2016-02-02T20:46:04-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

A primeira vacina contra a malária pode estar disponível no mercado no ano de 2010, e diversas outras vacinas e medicamentos estão sendo investigados. Os remédios existentes enfrentam crescentemente o problema da resistência dos plasmódios, e uma vacina representará uma poderosa arma no combate à infecção. A doença mata anualmente cerca de 1 milhão de indivíduos, e entre 300 e 500 milhões são infectados, segundo a OMS, mas os números podem estar subestimados. Mulheres grávidas, que sofrem uma diminuição da resposta imunológica a substâncias e organismos invasores, e crianças, sobretudo as que têm menos de 5 anos, ainda não foram suficientemente expostas aos parasitas de modo a desenvolver uma defesa. As crianças representam o principal alvo da candidata a vacina mais promissora, atualmente na segunda fase dos testes clínicos, que é produzida pela Glaxo SmithKline (GSK) Biologicals, da Bélgica, e testada em parceria com a Malaria Vaccine Initative Programme for Apropriate Technology in Health (MVI-PATH). Essa organização-não governamental foi criada em 1999, com verba da Fundação Bill & Melinda Gates e objetivo específico de acelerar a pesquisa e desenvolvimento da vacina contra a malária. O alto custo do processo fez a GSK buscar parceria da MVI. Por outro lado, o mercado potencial é grande: em 2010, a equipe estima que 3,5 bilhões de pessoas habitarão áreas em que a doença é transmitida. Os resultados obtidos nos primeiros testes com crianças foram publicados na revista The Lancet, em outubro de 2004. O princípio ativo da vacina consiste no pedaço de uma proteína da superfície celular do esporozoíto, forma do Plasmodium falciparum, o mais letal dos plasmódios, que infecta o organismo humano - denominada proteína do circum-esporozoíto (CSP, sigla em inglês) -. Por meio de engenharia genética, uma parte da receita para a fabricação dessa proteína foi fundida com as instruções para produção de uma proteína de superfície do vírus da hepatite B, e a fusão foi inserida em leveduras (Saccharomyces). A substância formada, nas células das leveduras, a partir dessas instruções, se dobra de modo tal que forma partículas que geram muito mais resposta imune do que provocaria se não assumisse essa conformação. "A fusão é uma das razões, efetivamente, pelas quais obtivemos uma melhor resposta imunológica", diz Jean Stéphenne, presidente da GSK e que trabalha há mais de 20 anos nessa busca e viu muitas possibilidades serem testadas sem sucesso. Mas a vacina tem outro 'segredo': um novo adjuvante (substância que incrementa o efeito farmacológico de um medicamento ou as propriedades imuno-estimulantes de um antígeno), de propriedade da GSK, que contém na fórmula o monofosforil lipídio A (MPL) e o QS-21. "Essas substâncias estimulam diferentes aspectos do sistema imunológico, em particular, respostas humorais - produção de anticorpos -, e respostas celulares, por meio do linfócito T", explica Stéphenne. Recrutado, o linfócito ataca as células que hospedam o parasita, o que, tudo indica, é necessário para que haja, de fato, proteção, com a eliminação dos reservatórios da doença. "Para que uma vacina seja efetiva, deve ser composta de antígenos do protozoário que sejam relativamente invariáveis e essenciais para sua sobrevivência", acrescenta Shirley Longacre, pesquisadora do Instituto Pasteur, na França. Outro requerimento a ser preenchido: os antígenos têm de ser apresentados à defesa humana de modo que sejam reconhecidos como 'estranhos' e 'perigosos', provocando uma resposta imune efetiva que não resulte numa toxicidade inaceitável para o paciente. Longacre e sua equipe acreditam ter encontrado na MSP1p19, ou proteína de superfície 1 do merozoíto - forma do plasmódio que infecta as hemácias -, uma candidata com as características desejadas: para invadir as células vermelhas do sangue, o plasmódio precisa dela, que mostra pouca variação de uma linhagem a outra. Modelos animais Antes de avaliar os efeitos dos antígenos sobre o organismo humano, os cientistas lançam mão de modelos animais. No Centro Médico da Universidade Leiden, na Holanda, Andy P. Waters é membro da equipe que estuda os genes do Plasmodium berghei, que infecta ratos e camundongos de laboratório, e apresenta entre 4500 e 5500 genes equivalentes aos do P. falciparum. "Muitos genes que codificam equivalentes de antígenos candidatos a vacina contra o P. falciparum foram encontrados: CS, LSA-1, MSP-1, Pfs28, Pfs25, a lista é longa", diz. Segundo Waters, o modelo reproduz virtualmente todos os aspectos da biologia dos parasitas humanos, permite estudar as interações com o hospedeiro in vivo e representa um sistema seguro, uma vez que o plasmódio do roedor não infecta o homem. Sobre os alvos que seu grupo investiga, Waters faz segredo e diz apenas que tenta compreender os mecanismos que regem o desenvolvimento do plasmódio e a forma como ele percebe o ambiente. A partir desse conhecimento, devem desenvolver novas terapias. "Quando injetado em macacos, com os imuno-estimulantes adequados, o pedaço do MSP induz a produção por anticorpos que protegem os animais numa subseqüente exposição ao plasmódio", conta. Provavelmente, de acordo com Longacre, os anticorpos atuam de duas maneiras distintas. A primeira, ligando-se ao antígeno de superfície do merozoíto, impedindo-o de funcionar corretamente, o que inibe a invasão da hemácia. A segunda seria uma colaboração com outras células de defesa, os macrófagos; que seriam induzidos a destruir os merozoítos. O Instituto Pasteur planeja iniciar a primeira fase de testes clínicos em 2006. Entretanto, em que medida as reações imunológicas dos animais se assemelham às reações humanas? A resposta a essa questão permanece em aberto, tornando necessário o teste de antígenos candidatos diretamente em voluntários. Em laboratório, sob condições controladas, os indivíduos que se dispõem a tal são submetidos à picada do anófeles e, conseqüentemente, à infecção pelo plasmódio. Assim, os cientistas podem estudar em que consiste exatamente a resposta imunológica do organismo humano e se a imunização contra o plasmódio, de fato, requer o estímulo a respostas celulares. Corrida armamentista É comum aos protozoários se multiplicarem, atingindo a ordem de dezenas de milhares, muito rapidamente. O plasmódio, como outros protozoários que causam doença, passa grande parte de seu ciclo de vida, dividido entre três formas (esporozoíto, merozoíto e gametócito), no interior das células do hospedeiro. No homem, invade as células do fígado e os glóbulos vermelhos do sangue. Além disso, o plasmódio tem mecanismos para mudar constantemente as características que, diante da defesa do organismo, lhes servem como credenciais: os antígenos de superfície. A variação genética existente nas populações selvagens do protozoário é outro fator que dificulta o reconhecimento do 'inimigo'. "Assim, o sistema imunológico tem dificuldades em reconhecer a maioria das linhagens ou todas aquelas com que um indivíduo pode deparar, particularmente numa região de alta transmissão", explica Longacre. Outra conseqüência do polimorfismo genético do plasmódio é que ele pode proporcionar o desenvolvimento rápido de resistência contra remédios. Karen Hayton, do Laboratório de Pesquisa da Malária e Vetor, dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, EUA), estuda as mutações genéticas que conferem resistência à cloroquina, atribuídas ao gene que seria de uma proteína transportadora, a PfCRT. "A identificação dos genes envolvidos na resistência aos medicamentos é importante para compreender e prever como a resistência a um certo remédio aparece, abrindo caminho para que os inibidores serem redesenhados", diz Hayton. Para lidar com a resistência, no Brasil, pesquisadores do Centro de Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas e Biológicas (CPQBA), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aclimataram às condições locais o arbusto Artemisia annua. Essa planta é usada na China há milhares de anos contra a febre e representa um recurso importante contra as linhagens resistentes do plasmódio. De acordo com Adilson Sartoratto, pesquisador do CPQBA-Unicamp, um convênio deve ser assinado com a empresa Labogen, e o remédio com base na artemisinina e seus derivados pode estar disponível dentro de um ano, mas somente para campanhas de saúde pública - não será vendido em farmácias. Outro grupo que trabalha contra a resistência do plasmódio é coordenado por Luiz Hildebrando Pereira da Silva, no Centro de Pesquisa em Medicina Tropical (Porto Velho, RO), desenvolvendo pesquisas em colaboração com outros centros como a USP, a Fiocruz e o Pasteur. "Neste momento, desenvolvemos estudos e projetos ligados à resistência de antimaláricos (in vivo e in vitro) dentro de um grupo multicêntrico, ligado ao Ministério da Saúde e a OPAS", conta o pesquisador Mauro Shugiro. Outras frentes de pesquisa envolvem a busca de inseticidas ou repelentes mais eficazes, ou, por meio de engenharia genética, a criação de mosquitos incapazes de transmitir a doença. Essa última abordagem encontra um empecilho nos riscos associados à introdução deliberada de um organismo transgênico no ambiente. Diversos laboratórios no mundo se dedicam ao trabalho de prospecção de alvos potenciais, por meio da genômica e da proteômica - estudos, respectivamente, de genes e proteínas em larga escala -. "A seqüência genômica fornece informações que ajudam a identificar vias bioquímicas que não existem em humanos e poderiam, portanto, servir de alvo para drogas", afirma Malcolm Gardner, biólogo molecular do Instituto para Pesquisa Genômica (TIGR), nos Estados Unidos. Seqüências completas ou incompletas foram obtidas para os parasitas de: humanos - Plasmodium falciparum e P. vivax; roedores - P. yoelii, P. chabaudi, P. berghei; e macaco (P. knowlesi). Em 2001, foi concluído o seqüenciamento do genoma humano e, no ano seguinte, foi a vez do mosquito Anopheles gambiae. De acordo com Gardner, são diversas as aplicações potenciais. "Acreditamos poder utilizar os dados do genoma para acelerar a pesquisa e alcançar uma compreensão melhor e mais detalhada das interações hospedeiro-parasita-vetor", conta. Em relação ao mosquito, novos repelentes serão desenhados com o entendimento molecular sobre como ele encontra as vítimas a serem picadas. Quanto ao parasita, novas drogas e vacinas terão como alvo moléculas essenciais de seu metabolismo. Para os humanos, testes diagnósticos ajudarão a identificar os pacientes sob maior risco de desenvolver as formas severas da doença, como a malária cerebral. A análise das proteínas tem indicado outros alvos. "Nenhum pode, a essa altura, ser descartado", afirma H. Stunnenberg, do Centro Molecular de Ciências da Vida da Radboud University Nijmegen, Holanda. "Os estudos que realizamos vão colocar no cenário as deacetilases (HDACs, que removem grupamentos acetil) de histonas (proteínas que fazem parte da estrutura do DNA) e outras enzimas que fazem modificações epigenéticas". A epigenética é uma área florescente que investiga alterações na expressão dos genes que não estão codificadas nas quatro letras (A, T, G e C) do código genético: metilação do DNA, interferência de RNA e acetilação de histonas, por exemplo. No Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz, de acordo com a pesquisadora Maria de Fátima Ferreira da Cruz, do Laboratório de Pesquisa em Malária, sua equipe tem usado os dados da proteômica e também os relativos à variação genética (polimorfismo) do plasmódio para desenvolver candidatas a vacinas. Na busca de novos medicamentos, merecem destaque os projetos que a fundação Medicines for Malaria Venture (MMV) e a MVI realizam em colaboração com empresas (não somente do setor farmacêutico), laboratórios militares, universidades e instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os parceiros da MMV vêm investigando o potencial terapêutico de diversas substâncias: falcipaína, piridonas, peróxidos sintéticos, derivados do antibiótico tetraciclina, terapias que combinam diversos derivados da artemisinina e a DB289, que atualmente passa pela primeira fase dos testes clínicos. No portfólio da MVI, entre os antígenos, encontram-se: LSA-1, MSP-1, AMA-1, MSP-2, MSP-4, MSP-5, RAP-2, FMP-1 ? os dois primeiros estão em desenvolvimento pré-clínico. A lista é grande e promissora. No entanto, da identificação de moléculas potencialmente úteis ao mercado, o caminho é longo e, muitas vezes, tem de ser interrompido porque a promessa não se realiza. Como há diversas frentes de investigação, segundo os cientistas, é preciso haver também uma combinação de estratégias para haver um combate efetivo da malária. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/16.shtml Consultado em 23/02/2007

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Doença de chagas: paradoxos e ilações

2016-02-02T20:46:05-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

Embora os surtos da doença de Chagas recentemente ocorridos em Santa Catarina e no Amapá fossem de curta duração, o seu tratamento pelas autoridades e pela mídia, e o seu efeito sobre a população dão vazão para ilações importantes. O surto em Santa Catarina parece ter começado quando, em meados de fevereiro, viajantes na BR-101 pararam em um quiosque perto de Navegantes, a 113 km de Florianópolis, e ingeriram caldo de cana contaminado com Trypanosoma cruzi. No início de março apareceram as primeiras notícias assustadoras do acometimento de dezenas de pessoas com doença febril, diagnosticada como doença de Chagas aguda; houve seis fatalidades. Os pronunciamentos pretensamente tranqüilizadores das autoridades sanitárias pouco esclareceram. “Há um clima de pavor sem necessidade." "Confirmada a doença, existe remédio, tem tratamento, não tem problema nenhum." "A situação está precisamente esclarecida, o que dá uma segurança maior para saber quais pessoas estariam expostas à contaminação" (Luis A.Silva, diretor da Vigilância Epidemiológica–SC). E, dentro de poucos dias, o silêncio. (Deve ser lembrado, porém, que, não fosse a coincidência desses noticiários com a doença e morte do Papa, que ofuscou todos os demais eventos do período, possivelmente o surto teria continuado por mais tempo a atrair a atenção da mídia e do público.) Mais notáveis ainda foram os comentários oficiais sobre o surto no Amapá, que antecedeu o de Santa Catarina. A Nota Técnica de 4/4/2005 da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS) informa que "em 3l de março recebeu relatório do Instituto Evandro Chagas/PA sobre a investigação de um surto de doença febril aguda, na localidade denominada Igarapé da Fortaleza/AP, ocorrido de 4 a 19 de dezembro de 2004..." Exames preliminares sugeriram doença de Chagas. "A coleta de sangue das pessoas contaminadas foi feita em fevereiro, mas o resultado dos exames estava sob sigilo da Secretaria de Saúde. Apesar do número elevado de pessoas contaminadas, a Divisão de Epidemiologia descarta a ocorrência de surto da doença no Estado... A epidemia não existe porque não foi encontrado o barbeiro. 'Por isso, afirmamos que esses casos são acidentais. A exemplo do que ocorre em Santa Catarina, no Amapá a contaminação não está acontecendo de forma clássica, ou seja, com o paciente sendo picado pelo mosquito" (sic).(Clóvis O.Miranda, chefe da Divisão Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde) (Itálicos R.L.) Note-se que só foi mencionado o número de pessoas acometidas (26); nada foi dito sobre a morbidade ou mortalidade do surto. Longe de tranqüilizar a população, essas afirmações, que beiram o grotesco, só serviram para aumentar a insegurança geral. Nem foi outro o efeito da declaração do Ministro da Saúde, doutor Humberto Costa, em Petrolina-PE a 8 de abril. Esses pronunciamentos e suas implicações são analisados no meu artigo "Do caldo de cana ao suco de açaí", publicado pelo Jornal da Unicamp em 11 de abril (parte I) e 9 de maio (parte II).[1, 2] Nele, critico a desinformação oferecida ao público, exemplificada pelos trechos citados, e questiono por que os resultados dos exames no Amapá foram mantidos sob sigilo da Secretaria de Saúde durante semanas. "Isso equivale a esconder da população o perigo iminente de contrair a doença de Chagas, ao passo que toda a região amazônica deveria ter sido alertada, em termos que não deixassem dúvida, do risco de ingerir polpa ou suco cru de açaí, mormente porque já era conhecida a transmissão por via oral, e pela contaminação da mesma fruta! Essa simples precaução de evitar a polpa e o suco crus teria sido mais eficaz do que qualquer outra medida ..." O artigo atendeu ao pedido de várias pessoas, preocupadas como eu com a quase total ignorância do público (e, diga-se de passagem, de muitos médicos) quanto aos fatos básicos da doença. Objetivando contrabalançar o "espúrio senso de segurança [criado] pelas afirmações das autoridades sanitárias...", enfatiza a necessidade e urgência de "esclarecimentos sobre (1) causas, transmissão e manifestações da doença, e sua prevenção; (2) as medidas de controle; (3) o significado e os limites do controle." Tentei preencher esses desideratos na medida do possível, mas o espaço reservado ao artigo só permitiu a abordagem de uma fração dos problemas. Ficaram em aberto questões cruciais: a inexistência de dados epidemiológicos sobre a doença, que impede um conhecimento mesmo aproximativo de suas dimensões; a assistência médica e social ao chagásico crônico sintomático, e a discriminação que sofre no mercado de trabalho; o desmantelamento das estruturas de vigilância e controle locais e intermunicipais e dos elos com as comunidades, e muitos outros problemas; além daqueles mais especificamente médico-científicos que ultrapassam o âmbito da divulgação geral. E uma dúvida recorrente: por que a doença de Chagas, numericamente muito mais importante do que a aids, só atrai a atenção da mídia e do público na iminência de um desastre que ameaça alastrar-se além das classes normalmente expostas ao contágio, e recai no esquecimento assim que o perigo parece ter passado? Em parte, esse estado de coisas pode ser visto como seqüela dos acontecimentos após a Segunda Guerra Mundial, quando as descobertas das sulfonamidas e sobretudo dos antibióticos pareciam prenunciar o fim de todas as doenças contagiosas. A euforia durou pouco, porém, e a explosão do conhecimento científico nas décadas seguintes transformou o mundo, e trouxe mudanças radicais na visão da sociedade sobre os problemas da saúde e doença. Encontram-se motivos de sobra, socioeconômicos e políticos, que explicam o subseqüente desinteresse das autoridades e da indústria farmacêutica pelas doenças endêmicas no terceiro mundo.[3] De outra parte, o vaivém do pêndulo entre expectativa e decepção, ambas exageradas, é um dos paradoxos que caracterizam a nossa sociedade e o nosso tempo, tal como o descompasso entre o potencial virtualmente ilimitado da ciência e tecnologia e a sua aplicação em benefício da humanidade.[4] Assim, o homem explora os mistérios do espaço cósmico, enquanto grande parte da humanidade vive ao relento; "1100 milhões de pessoas carecem de acesso a água potável;... 2400 milhões ... não têm acesso a serviços de saneamento adequados;... e morrem diariamente cerca de 6000 crianças devido a doenças ligadas à água insalubre e a... saneamento e higiene deficientes..."(OMS) Embora as técnicas modernas multipliquem a capacidade de produção agrícola, todo ano a fome e subnutrição fazem milhões de vítimas. A ciência e tecnologia parecem empenhadas em uma corrida desenfreada para encontrar novos apetrechos, novos botões a apertar, para aumentar o conforto de uma fração ínfima da humanidade, inacessível à imensa maioria, ao mesmo tempo que multiplicam de forma inconcebível o poder destrutivo dos armamentos. "O descompasso entre a pesquisa e a ação" [5] é apenas um dos paradoxos na medicina, de conseqüências trágicas para incontáveis milhões. A medicina preventiva, instrumento por excelência da Saúde Pública cuja importância Oswaldo Cruz e Carlos Chagas não se cansavam de ressaltar, é uma disciplina que atrai poucos candidatos à especialização. A glória (merecida) é da cirurgia, capaz de substituir órgãos deficientes, prolongando a vida de pacientes ainda há pouco sem qualquer esperança de tratamento. Também merecem destaque os avanços espetaculares na pesquisa médica, que capacitam o clínico a aliviar, se não curar, moléstias antigamente consideradas insuscetíveis de qualquer tratamento. Mas a vasta maioria dos males que acometem o homem não requer tratamentos sofisticados, e sim cuidados básicos e uma orientação dirigida à prevenção. Todavia, populações inteiras não têm acesso a assistência médica de qualquer espécie, nem se falando de água limpa e saneamento básico, problema não médico, senão socioeconômico e político (v.acima). O que falta sobretudo, porém, é informação adequada, isto é, educação sanitária. Ao invés disso somos bombardeados pela mídia com pretensos dados médicos, a maioria (com raras e honrosas exceções) mascarando um marketing importuno de procedimentos ou produtos descabidos, inócuos ou francamente nocivos. Inclui-se nesta categoria a propaganda de medicamentos de toda espécie ("Ao persistirem os sintomas..."). Dados não são informação; informação não é conhecimento; conhecimento não é sabedoria. Tais montes de dados desconexos não equivalem minimamente a informação, que dirá conhecimento. Mas essa glorificação do inútil, além de induzir à automedicação, ocupa um espaço importante: o da verdadeira educação sanitária. Além disso contribui para o descompasso entre o conhecimento médico e sua aplicação. Descompasso particularmente significativo na doença de Chagas, cujo descobridor foi um dos maiores cientistas do Brasil e do mundo. Porém, apesar de suas contribuições monumentais à ciência médica universal, ele é virtualmente esquecido no seu país. Eis outro paradoxo, cuja causa mais importante é, sem dúvida, a campanha difamatória deslanchada contra ele pelos seus colegas na Academia Nacional de Medicina e na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Liderados por Afrânio Peixoto e seus partidários, movidos por ciúme e ambições pessoais, profissionais e políticas, infernizaram a vida do genial cientista durante anos. Em dezembro de 1922 a polêmica chegou ao plenário da Academia, onde os debates se prolongaram durante um ano, terminando com a derrota da cabala; entretanto, os seus efeitos deletérios perduram até hoje. Em seu livro Meu pai, Carlos Chagas Filho analisa a campanha e suas conseqüências. A situação política e socioeconômica em que se desenrolou a contenda é descrita com vivacidade no livro de Benchimol e Teixeira, Cobras, lagartos & outros bichos, que ressalta a rivalidade entre os Institutos Oswaldo Cruz e Butantan, e os problemas homéricos criados aos cientistas e institutos pelas rixas entre oligarquias e governos, verdadeiras "guerras de foice" por verbas e poder. O resultado mais nocivo da campanha foi sem dúvida o seu efeito persistente sobre o ensino e pesquisa da doença de Chagas no Brasil. "Tanto Emmanuel Dias como Amílcar Vianna Martins sempre mantiveram que ... o oblívio se originou e se ampliou em um forte esquema de desconhecimento programado que as escolas de medicina passaram a adotar quanto à doença e seu descobridor, provavelmente em função de: (a) a influência direta de Peixoto e sua turma; e (b) o obscurantismo universitário e a falta de uma massa crítica com nível e coragem para ajuizar os fatos..." (J.C.Pinto Dias, comunicação pessoal) Embora a doença de Chagas passasse a constar dos mais importantes tratados de medicina nas línguas inglesa, alemã e francesa, e fosse ensinada nas mais importantes escolas de medicina do mundo, por incrível que pareça, no nosso país ela foi suprimida durante anos a fio, tanto nos livros quanto no ensino em sala de aula ou hospital, e, conseqüência inevitável, a sua pesquisa foi virtualmente paralisada.[3] O quadro só se reverteu muitos anos depois da morte de Chagas. Finalmente, é provável que a campanha contra Carlos Chagas tenha lhe custado o Prêmio Nobel.[3] [1] www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ jornalPDF/ju283pag02.pdf [2] www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ jornalPDF/ju287pag02.pdf [3] R.Lewinsohn, Três Epidemias: Lições do Passado.Campinas,Editora da Unicamp, 2003. [4] R.Lewinsohn, Medical Theories, Science, and the practice of medicine. Soc.Sci.Med. 10, 1260-1271. 1998 [5] J.C.P.Dias, Doença de Chagas e a questão da tecnologia. Bol. Of. Sanit.Panam.,.99/3, 244-257. 1985. Formada pela Faculdade Fluminense de Medicina, a autora fez pós-graduação nas universidades de Londres e Cambridge, Inglaterra. Pesquisou, lecionou e ministrou cursos de História da Medicina na FCM da Unicamp. Autora de livro (v.ref.3), aposentada, continua ativa como professora colaboradora voluntária da Unicamp. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/11_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

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maio 2005

´Quebrar patentes não é solução a longo prazo´

2017-01-10T17:18:28-03:00maio 31, 2005|Categories: Acervo|

Para John Leonard, do laboratório Abbott, decisão brasileira poderia afetar novas pesquisas sobre a aids "A decisão do Brasil de quebrar a patente dos medicamentos para a aids pode resolver o problema dos seus pacientes por dois anos, no máximo. Depois disso, o vírus continuará lá e os remédios não estarão mais lá." A afirmação é de John Leonard, segundo homem do laboratório Abbott e seu principal pesquisador na área de aids. Casado com uma brasileira e pai de um filho brasileiro, Leonard, de 47 anos, pesquisa o HIV desde 1981, quando surgiram os primeiros os casos da doença. Com um faturamento de US$ 19,7 bilhões no ano passado, o Abbott é fabricante do Kaletra, um dos três anti-retrovirais do coquetel protegidos pela lei de patentes. Segundo o Programa Nacional de Aids, as três drogas representam 70% dos R$ 900 milhões que o Brasil está gastando este ano com a doença. A quebra das patentes e a produção delas como genéricos no País permitiriam uma economia de R$ 200 milhões anuais. OESP - Como o senhor vê uma possível quebra de patentes dos medicamentos para a aids pelo Brasil? Mesmo entendendo que essa decisão é por uma boa causa, trata-se apenas de uma solução de curto prazo. Posso garantir que as drogas que hoje estão em uso, e que o Brasil fabricará se quebrar a patente, não serão mais eficazes num futuro próximo. E não haverá mais ninguém trabalhando em drogas para o futuro. Quebrar patentes não é uma solução viável a longo prazo. Vai resolver um problema econômico, de saúde para os pacientes, mas por dois anos, no máximo. Depois disso o vírus continuará lá e os remédios não estarão mais lá. Por isso vejo a quebra de patentes como um tropeço. Até agora, os laboratórios vêm fazendo sua parte, investindo e pesquisando a doença. Temos condições científicas e tecnológicas de continuarmos esse avanço, melhorando a saúde das pessoas, mesmo que a aids não tenha cura. Mas se mais e mais países não pagarem pelos medicamentos, no futuro não haverá mais tantas novas pesquisas. OESP - A decisão brasileira de copiar e produzir os medicamentos pode levar a uma interrupção das pesquisas pela Abbott? E a produção do Kaletra no Brasil, anunciada para 2006, pode ser cancelada? Vamos tratar cada situação separadamente, mas posso dizer que a quebra de patentes trará graves conseqüências para todos. E todos teremos de assumir as escolhas que fizermos, laboratórios e países, com conseqüências para os pacientes, médicos, hospitais, etc. Mas a Abbott não tem uma decisão preestabelecida, vamos avaliar cada fato e ainda esperamos que o Brasil reveja sua posição. Por ora, todos os projetos que tínhamos, da produção do Kaletra no Brasil às novas pesquisas em aids, estão em compasso de espera. OESP - Mas e se pessoas e países não tiverem condições de comprar? Terá de haver uma solução de meio termo, porque a aids não é responsabilidade só dos laboratórios. Como afeta a todos, exige a participação de todos: indústria, países, organizações, escolas, hospitais, pacientes, familiares. Um laboratório não é um país. Ele pesquisa, produz e vende. Faz remédios por razões diversas, mas tem de haver viabilidade econômica. OESP - O Brasil alega que sem a quebra de patentes, ou grande redução no preço do Kaletra, o programa de acesso aos remédios terá de ser interrompido. A Abbott já fez tudo o que podia? Já fez. O Brasil paga pelo Kaletra o menor preço entre todos os países fora da África. Equivale ao preço de custo, cerca da metade do valor cobrado na Europa e EUA. OESP - Como se sente pesquisando drogas que poderiam salvar milhares de vidas, mas que não estão porque países e pacientes não podem pagar por elas? Não me sinto nada bem. Mas devolvo a pergunta a você e a todos os outros profissionais. Como você se sente escrevendo artigos sabendo que muitos não têm acesso a jornais? Vocês querem dizer que a responsabilidade de um pesquisador é maior, mas esta é uma forma de minimizar o problema. É fácil responsabilizar um laboratório, dizer que está ganhando muito dinheiro com a doença dos outros. Esse é um discurso que pega bem, mas na verdade a aids é um problema de todos. É como a fome - ela é também um problema de todos, mas ninguém fica dizendo que o McDonald''s deveria enviar cheeseburgers à Tanzânia.  Fonte: http://www.sistemas.aids.gov.br/imprensa/Noticias.asp?NOTCod=64694 Consultado em 12/02/2007

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CCJ da Câmara vota hoje sobre quebra de patentes

2016-02-02T20:46:05-03:00maio 31, 2005|Categories: Acervo|

VOTAÇÃO: O coordenador do Programa Nacional de DST - Aids, Pedro Chequer, promete ir novamente, hoje, à Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados para acompanhar a votação do projeto que acaba com o direito à patente para produção de medicamentos e matéria-prima de anti-retrovirais. A votação do texto, do deputado Roberto Gouveia (PT-SP), foi adiada na semana passada, sob protestos de organizações não-governamentais. "O projeto abre mais um espaço para discussão sobre patente de remédios usados em Aids", afirma Chequer. Desde que assumiu o posto de coordenador do programa, Chequer defende a necessidade de o País declarar a licença compulsória da patente de três medicamentos usados no coquetel anti-Aids. Para ele, a medida é o único caminho para tornar o programa sustentável. O projeto de lei que será submetido à votação hoje trata apenas de futuras patentes para medicamentos anti-retrovirais. Ele não interfere no direito concedido para remédios que já estão no mercado. A votação foi adiada a pedido do deputado Inaldo Leitão (PL-PB). O deputado Antonio Carlos Biscaia, deu parecer favorável ao projeto. Se aprovada, a proposta vai a votação em plenário.  Fonte: http://209.85.165.104/search?q=cache:gEYQTUwNiJkJ:www.anvisa.gov.br/divulga/imprensa/clipping/2005/maio/310505.pdf+pedro+chequer+CCJ+31/05/2005&hl=pt-BR&ct=clnk&cd=1&gl=br Consultado em 12/02/2007

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Cresce o peso da sociedade civil nas negociações da OMC

2017-01-10T17:18:28-03:00maio 25, 2005|Categories: Acervo|

São Paulo – Com a crescente participação do Brasil no âmbito da Organização Mundial do Comércio (OMC) – tanto nas mesas de negociações quanto no questionamento de posturas dos países desenvolvidos junto ao Órgão de Solução de Controvérsias da OMC -, cresce também a mobilização da sociedade. O tema OMC entra na pauta de especialistas em comércio internacional, acadêmicos, Organizações Não-Governamentais (ONGs) e movimentos sociais. "A sociedade civil tem que se apropriar deste assunto. A gente discute muito pouco um assunto que tem influência em todo mundo", alerta Fátima Mello, secretária-executiva da Rede de Integração dos Povos (Rebrip). O economista Mário Ferreira Presser, coordenador do Curso de Diplomacia Econômica da Unicamp, acredita que é necessário ampliar os fóruns de negociação. "A Rodada Uruguai mostrou para todos os cidadãos do terceiro mundo que nós devemos participar mais das negociações. Devemos segui-las com cuidado para evitar que sejamos surpreendidos, de novo pela assinatura de tratados tão desfavoráveis", destaca. O economista defende a incorporação de ONGs, empresários e congresso nas discussões sobre as posições negociadoras do governo brasileiro. "A única defesa que se tem é ampliar o número de pessoas que saibam o que está se passando e possam interferir no debate è desta forma que uma democracia pode criar anticorpos seja ao protecionismo, seja à liberalização excessiva", afirma. "Se o debate for seqüestrado por grupos de interesse, as decisões vão atender a seus interesses mais imediatos e não necessariamente aos interesses do país", alerta. Sem a participação intensa de todos os setores da sociedade, o economista acredita que as negociações vão ficar emperradas por interesses exportadores ou por interesses protecionistas na indústria. "É preciso reconhecer que o governo Lula abriu o debate mais do que os anteriores. Hoje o Itamaraty nos ouve antes de assumir as posições negociadoras, antes só se escutava os empresários", relata a secretária –executiva da Rede de Integração dos Povos (Rebrip), Fátima Mello. O problema, segundo ela, é que a posição negociadora brasileira acaba refletindo a "correlação de forças" na sociedade. "Por isso é importante ativar este debate nos movimentos sociais e nas ONGs. Enquanto o setor privado está tentando defender seu bolso, nosso interesse é o desenvolvimento do Brasil como um todo", justifica. "Nossa função principal é fazer educação popular sobre a OMC, pois muita coisa está em jogo", reitera a representante da Rebrip. Advogados, economistas e especialistas em relações internacionais também procuram se aprofundar nos temas da OMC de forma a subsidiar os debates e ampliar a participação do Brasil no órgão. "A OMC é complicada e o Brasil precisa de quadros nesta área", salienta a economista Vera Thorstensen, consultora da Missão do Brasil junto à OMC e presidente do Comitê sobre Regras de Origem da OMC. Vera integra o Grupo de Estudos sobre Negociações Comerciais (GNC), grupo informal multidisciplinar formado por 80 especialistas que há um ano discutem temas de comércio internacional. "Nos países desenvolvidos existem grupos que pensam OMC, e em países em desenvolvimento isto praticamente não existe", conta Vera. Como consultora da missão do Brasil junto à OMC há 10 anos, a economista garante que o Brasil é hoje "ator importante" na organização. E não disfarça o entusiasmo ao constatar o interesse da sociedade brasileira pelos assuntos relacionados à OMC. "A gente escutava, há 15 anos, que OMC era coisa de governo. Hoje já há consciência de que a OMC afeta as empresas, afeta as associações, afetas as pessoas. De que nada pode ser feito na área de comércio internacional sem as regras da OMC", conclui.  Fonte: http://www.radiobras.gov.br/materia_i_2004.php?materia=226642&q=1 Consultado em 16/02/2007

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Dez anos depois, países ricos tiveram 73% dos ganhos com livre comércio

2016-02-02T20:46:06-03:00maio 25, 2005|Categories: Acervo|

São Paulo – A caminho da 6ª Reunião Ministerial da OMC, que acontece em dezembro em Hong Kong, especialistas e organizações não-governamentais (ONGs) concordam que é necessário repensar o sistema idealizado pelas grandes potências há quase 50 anos e que hoje reúne 148 nações, responsáveis por 97% do comércio mundial. "A OMC representa o regime multilateral de regulação do comércio internacional. É importante, pois sem uma ordem jurídica internacional, seria o caos", afiança o advogado Durval Noronha de Goyos Jr., sócio do escritório Noronha Advogados e árbitro da OMC. "Todavia, a experiência da OMC para os países em desenvolvimento foi desastrosa", avalia. "Os países desenvolvidos impuseram esta ordem jurídica aos países em desenvolvimento e nós pagamos um preço altíssimo por esta ordem que nos é desvantajosa", reitera. O advogado comprova o que diz com números. "Segundo dados do FMI, em dez anos de OMC cerca de 73% dos ganhos obtidos com o comércio internacional estão com os países desenvolvidos", revela. Ao longo da década de 90, os países desenvolvidos aumentaram o valor de suas exportações per capita em U$ 1.938, enquanto os países em desenvolvimento incrementaram o valor em apenas U$ 98 e os países menos desenvolvidos, em U$ 51. Com 14% da população global, os países desenvolvidos mantêm hoje uma participação de 75% na renda mundial, mesmo percentual de 1990. "Os resultados da Rodada Uruguai foram desastrosos para os países em desenvolvimento e o regime jurídico da OMC, criada na Rodada Uruguai, também é desastroso", sintetiza. O economista Mário Ferreira Presser, coordenador do Curso de Diplomacia Econômica da Unicamp, diz que é importante lembrar, no entanto, que as regras negociadas na Rodada Uruguai, apesar de injustas, foram aceitas pelos países em desenvolvimento como receita para a globalização. "Há este sentimento de que as regras da Rodada Uruguai são injustas, mas não se pode esquecer que a rodada foi negociada num momento de grande otimismo com a globalização. Grandes países em desenvolvimento, como Índia, Brasil, Argentina e México, tinham governos extremamente neoliberais e os países socialistas estavam iniciando sua transição ao capitalismo monitorados pelo Banco Mundial e pelo FMI", recorda o economista. "A globalização a qualquer preço era a ordem do dia. Liberalizar unilateralmente e atrair as multinacionais era a receita única para o desenvolvimento. A verdade é que não resistimos e embarcamos na onda alegremente. A globalização ia ser nossa redenção", enfatiza. Foi na onda da globalização que a OMC acabou ampliando seu campo de atuação. "Com a globalização, que é a dissolução das fronteiras nacionais em matéria de produção, era quase inevitável que tantos setores fossem incorporados às negociações no âmbito da OMC", diz Ferreira Presser. A ilusão acabou no final dos anos 90, com as crises financeiras sucessivas – do México, da Ásia, do Brasil e Argentina e, finalmente, com a crise americana. "Caiu a ficha em todo mundo que a globalização era uma aventura cheia de perigos, que a liberalização tinha sido excessiva especialmente no campo financeiro", conta. Agora os países em desenvolvimento tentam corrigir, na Rodada de Doha, as regras negociadas na Rodada Uruguai. "É preciso abrir caminhos para o desenvolvimento econômico, mas há uma enorme resistência dos países desenvolvidos. Eles são ganhadores na Rodada Uruguai, construíram sua prosperidade baseada nestas regras e o mundo não está num momento em que solidariedade seja um ativo muito valorizado", diz Ferreira Presser.

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Gatt, a pré-história da OMC

2017-01-10T17:18:28-03:00maio 25, 2005|Categories: Acervo|

São Paulo – A Organização Mundial do Comércio (OMC) tem sua origem no Acordo Geral Sobre Tarifas e Comércio (GATT, pela sigla em inglês) assinado em 1947, no pós-guerra, com o objetivo de diminuir as barreiras ao comércio e tornar o mundo um único mercado. "O GATT é uma reação ao protecionismo e à fragmentação do comércio internacional ocorrido no período entre as duas grandes guerras mundiais", sintetiza o economista Mário Ferreira Presser, coordenador do Curso de Diplomacia Econômica da Unicamp. Havia consenso sobre a necessidade de liberalização do comércio. Mas se num primeiro momento os maiores interessados eram as grandes potências, hoje quem luta contra o protecionismo são os países em desenvolvimento. A OMC foi idealizada em 1944, simultaneamente à criação do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird) – as chamadas instituições de Bretton Woods, concebidas pelos Estados Unidos e pela Inglaterra. Com FMI e BIRD, a então denominada Organização Internacional do Comércio (OIC) formaria o tripé do sistema econômico multilateral. Além de estabelecer disciplinas para o comércio de bens, o projeto de criação da OIC continha normas sobre emprego, práticas comerciais restritivas, investimentos estrangeiros e serviços. Diante da oposição do Congresso americano a tais regras, 23 países, incluindo o Brasil, assinaram o GATT – um tratado teoricamente provisório que estabelecia um conjunto de concessões e normas para a liberalização do comércio internacional. "Havia o diagnóstico de que uma das causas da II Guerra Mundial havia sido o protecionismo vigente entre 33 e 39 devido à grande depressão", lembra o professor da Unicamp. A crise econômica a partir de 1929 resultou em uma queda de 40% na produção mundial e grande desemprego nos países industrializados, que adotaram políticas protecionistas na tentativa de salvar seus mercados internos. A institucionalização do GATT como um foro de negociações comerciais resultou em uma primeira rodada de negociações ainda em 1947 e são as grandes potências que definem as regras do comércio internacional para produtos manufaturados. Neste momento é criada a cláusula central do Acordo – a chamada cláusula de nação mais favorecida, que determina qualquer concessão feita por uma nação a um parceiro comercial deve ser estendida a todos os países signatários do GATT. Esta cláusula impedia as chamadas preferências na abertura comercial. "O principal objetivo do GATT é abrir o mercado preferencial da Inglaterra, o seu império, às exportações americanas. Além de ser o vencedor da Segunda Guerra, os Estados Unidos era o país mais avançado tecnologicamente, com os bens de consumo e de capital mais avançados, queria exportar para o resto e queria os mercados abertos", explica o economista.  Fonte: http://www.radiobras.gov.br/materia_i_2004.php?materia=226621&q=1 Consultado em 16/02/2007

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OMC, das ruas de Seattle ao deserto de Doha

2017-01-10T17:18:28-03:00maio 25, 2005|Categories: Acervo|

São Paulo – A Organização Mundial do Comércio (OMC) é instituída no final da Rodada Uruguai, em 1994, e começa a funcionar oficialmente a partir de janeiro de 1995, com sede em Genebra. Na mesma época é instituído um órgão para solução de controvérsias entre os países-membros da organização. A partir daquele momento, passam a existir regras e disciplinas que todos devem seguir. "Do ponto de vista jurídico, fica muito mais fácil enquadrar quem não cumpre as regras de comércio internacional", avalia Mário Ferreira Presser, coordenador do Curso de Diplomacia Econômica da Unicamp. Por outro lado, as regras estabelecidas – e que hoje, ditam o jogo do comércio internacional – são iguais para todos os 148 países-membros, independentemente de seu grau de desenvolvimento e competitividade. "Os EUA chamavam isto de nivelar as regras do jogo, mas o que aconteceu é que a Rodada Uruguai tratou de forma igual os desiguais e tornou as regras injustas", destaca o economista. A implementação dos acordos da Rodada Uruguai foi tema da 1a Conferência Ministerial da OMC, em 1996 em Cingapura/Cingapura. Nova Rodada de negociações – a Rodada do Milênio - seria lançada na conflituada 3ª Conferência Ministerial , realizada em Seattle/Estados Unidos em 1999. A Conferência acabou sendo suspensa por impasses nas negociações e por intensas manifestações contra a OMC por parte da sociedade civil. Ferreira Presser lembra que foi um momento de avaliação dos primeiros cinco anos da OMC: "O diagnóstico era de que os mais ricos ficaram mais ricos e era necessário mudar as regras para evitar a concentração de riqueza no Norte", avalia. Poucos foram os países ganhadores no Hemisfério Sul, como a China e a Índia, lembra o economista - todos estavam do lado asiático e nenhum deles tinha adotado políticas liberalizantes. "Em Seattle houve a sublevação dos pobres, junto com a falta de consenso entre os ricos", resume o professor da Unicamp. Na sua avaliação, Seattle é o resultado dos conflitos entre Estados Unidos e União Européia sobre a continuidade ou não da abertura da economia internacional e em que setores e da "revolta dos pobres com os resultados pífios da globalização". O professor acredita que o ataque terrorista às torres gêmeas nos Estados Unidos, às vésperas da 4ª Conferência Ministerial, em Doha, capital do Catar, em 2001, influenciou os rumos da reunião ministerial. "Naquele momento, em Doha, tornou-se importante voltar a ter uma visão multilateral e reafirmar que estávamos todos no mesmo barco, íamos iniciar uma nova rodada e esta nova rodada iria corrigir algumas das iniqüidades presentes no sistema", avalia. Neste contexto é lançada a Rodada Doha, chamada de Rodada do Desenvolvimento pois nascia com a ambição de dar atenção especial aos direitos dos países em desenvolvimento. A nova rodada, que deveria durar 3 anos e foi prorrogada até 2007, estabeleceu uma agenda negociadora considerada ambiciosa – superando, inclusive, a cobertura de temas da Rodada Uruguai. Ferreira Presser destaca que por sugestão dos países em desenvolvimento entram em pauta questões referentes às responsabilidades corporativas das transnacionais, relações entre comércio e pobreza, relações entre comércio, FMI e Banco Mundial...Os europeus, por sua vez, querem discutir temas como comércio e meio ambiente e as questões de Cingapura (facilitação de comércio, leis de concorrência, liberalização de investimentos). E há, ainda, questões pendentes como liberalização de agricultura e serviços. "A agenda de Doha é extremamente ampla e complexa", diz o economista. A agenda não avançou na 5ª Reunião Ministerial, em 2003 em Cancun, no México. O economista lembra que Estados Unidos e Europa tentaram fazer o que sempre fizeram até então: se acertaram num manifesto sobre Agricultura e os países em desenvolvimento deveriam simplesmente aderir. "Pela primeira vez nós dissemos Não. Isto não serve aos países em desenvolvimento, não vamos assinar e temos outra proposta", explica. Desde então, Estados Unidos, União Européia, Brasil, Índia e Austrália vem comandando as negociações e influenciando os rumos da Rodada Doha. "Acho que vai levar um bom tempo para os países desenvolvidos conseguirem absorver nossas propostas. Esta é uma rodada para dez anos. Europa e Estados Unidos, através de acordos regionais, vão tentar cooptar muitos países. Tem muito chão pela frente", acredita.  Fonte: http://www.radiobras.gov.br/materia_i_2004.php?materia=226623&q=1 Consultado em 16/02/2007

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Rodada de Doha pode ser momento-chave para a negociação de novas regras na OMC

2016-02-02T20:46:06-03:00maio 25, 2005|Categories: Acervo|

São Paulo – Lançada na 4ª Reunião Ministerial da Organização Mundial do Comércio (OMC) em Doha/Catar em 2001, com a proposta de ser a rodada do desenvolvimento, a Rodada de Doha é considerada fundamental para a negociação de regras mais justas na OMC. "Temos que trabalhar dentro da OMC. Há muitas situações desvantajosas para os países em desenvolvimento que, espera-se, sejam revertidas no âmbito da Rodada Doha", diz o advogado Durval Noronha de Goyos Jr., sócio do escritório Noronha Advogados e árbitro da OMC. O advogado enfatiza que tais desvantagens são mais evidentes no setor agrícola, por ser um setor muito importante para o país. Mas as desvantagens também são grandes no setor de serviços, onde 70% das exportações estão nas mãos dos países do chamado QUAD (Estados Unidos, União Européia, Canadá e Japão). "Suas vendas de serviços crescem 10% ao ano, enquanto as dos países em desenvolvimento crescem por volta de 1% ao ano", destaca Noronha. Segundo dados da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento - Unctad, um ano antes do lançamento do Rodada Uruguai, os EUA respondiam por 21% em 1999 no internacional de serviços e hoje supera os 25%. Graças à formatação da definição dos serviços exportáveis, que é seletiva em favor dos países desenvolvidos. Serviços pessoais, de grande interesse dos países em desenvolvimento, estão excluídos. O economista Mário Ferreira Presser, coordenador do Curso de Diplomacia Econômica da Unicamp, concorda que a Rodada de Doha é importante para tentar atingir um conjunto de regras mais "eqüitativo", que atenda melhor aos interesses dos países em desenvolvimento, mas acredita que não será uma tarefa fácil. "A experiência desta rodada tem mostrado que isto é extremamente difícil. Talvez a OMC esteja se revelando um instrumento pouco flexível para atender as demandas dos países em desenvolvimento. Estamos testando isso e se ela se mostrar inflexível será ultrapassada", aposta. "Mas a intenção é tornar o sistema mais flexível para que não seja preciso abandonar a OMC", ressalva. Fonte: http://www.radiobras.gov.br/materia_i_2004.php?materia=226632&q=1 Consultado em 16/02/2007

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Rodada Uruguai, dez anos de gestação da OMC

2016-02-02T20:46:06-03:00maio 25, 2005|Categories: Acervo|

São Paulo – Criado originalmente para ser provisório, o Acordo Geral Sobre Tarifas e Comércio (GATT, pela sigla em inglês) acabou durando quatro décadas. Abrigou novas rodadas de negociação até a criação da Organização Mundial de Comércio (OMC), em 1995. Até meados dos anos 80, um número crescente de países aderiu ao Acordo – exceto os países da extinta União Soviética e, entre as nações capitalistas, os membros da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). O professor Mário Ferreira Presser, da Universidade de Campinas (Unicamp) avalia que houve uma significativa liberalização do comércio internacional, especialmente por parte dos países avançados e na área de produtos manufaturados. "No entanto, os produtos de interesse dos países em desenvolvimento, que eram Agricultura e têxteis, foram desde logo sujeitos a regras especiais e não foram liberalizados", enfatiza. Foi neste cenário que teve início a Rodada Uruguai - oitava e mais e ambiciosa rodada de negociações comerciais multilaterais promovidas pelo GATT, que começa em 1986 e dura até 1994. Os setores agrícola e têxtil não tinham sido liberalizados nos países avançados. E os países em desenvolvimento, por sua vez, aplicavam barreiras tarifárias elevadas se comparadas às das grandes potências. "Éramos bastante protecionistas. Em compensação, os países avançados já tinham abandonado a tarifa como forma de proteção do mercado e tinham adotado o que chamamos de novo protecionismo", destaca Ferreira Presser. Na prática, passaram a exigir padrões mais elevados de qualidade para produtos importados e, afim de evitar a entrada de produtos em mercados sensíveis, passaram a adotar mecanismos como o antidumping (sobretaxa imposta a produtos que entram no país a preços inferiores aos praticados no mercado interno). "O novo protecionismo é localizado contra os produtores mais competitivos", explica. A chamada terceira Revolução Industrial faz surgir novos setores na economia, incorporados ao GATT na Rodada Uruguai. "A revolução tecnológica traz, na percepção do conjunto dos países avançados, a necessidade de trazer para dentro do GATT regras mais severas sobre propriedade intelectual, por exemplo. E os países em desenvolvimento, por outro lado, reclamavam da falta de liberalização em Agricultura e Têxteis". A abertura em Agricultura também era uma demanda dos Estados Unidos, e tinha a resistência de Japão e Europa. A liberalização em Agricultura e Têxteis têm início com a criação da OMC, em janeiro de 1995.  Fonte: http://www.radiobras.gov.br/materia_i_2004.php?materia=226622&q=1 Consultado em 16/02/2007

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