Plano de Bush para combater o HIV/aids ignora vidas para proteger lucros dos laboratórios
Combinação tripla de anti-retrovirais genéricos em doses fixas é quatro vezes mais barata que os medicamentos de marca usados individualmente. Mesmo assim, governo dos EUA tenta impedir países de utilizarem essa importante ferramenta contra a aids. O tão esperado Plano Global dos Estados Unidos para combater o HIV/aids, divulgado no dia 23 de fevereiro, demostra claramente que a administração Bush é contra o uso de genéricos de qualidade, incluindo as combinações de doses fixas, que são remédios com dois ou três anti-retrovirais numa única pílula. Além disso, o coordenador do Plano, um ex-executivo da multinacional farmacêutica Eli Lilly & Co, Randall Tobias, já questionou publicamente, inúmeras vezes, a qualidade dos genéricos utilizados para tratar portadores do HIV/aids em países em desenvolvimento, ignorando os padrões de qualidade definidos pela OMS (Organização Mundial de Saúde) e acusando os fornecedores desses genéricos de colocar em risco a vida dos pacientes. MSF está bastante preocupada que a administração dos EUA não permita que países e programas interessados em financiamentos do Plano Global tenham acesso aos recursos do Plano para compra de remédios de qualidade a preços acessíveis, em particular em combinações de doses fixas. Essa combinação, até cinco vezes mais barata que os remédios de marca, já recebeu o certificado internacional de qualidade, segurança e eficácia da OMS, e é produzida pelos mesmos laboratórios farmacêuticos que fabricam centenas de genéricos usados pelos americanos diariamente. As combinações de doses fixas são amplamente reconhecidas como sendo um instrumento importante para se aumentar o uso de anti-retrovirais em países em desenvolvimento e, com base nas experiências de fornecer anti-retrovirais nesses países, MSF vem se tornando uma grande defensora da combinação tripla de doses fixas. Mais de 50% dos pacientes atuais de MSF e 70% dos pacientes mais recentes estão sendo tratados com base nas recomendações da OMS de se utilizarem as combinações triplas de doses fixas. Os resultados clínicos até o momento têm sido excelentes. Atualmente a OMS recomenda que a combinação tripla de doses fixas seja produzida por fabricantes de genéricos porque as patentes dos medicamentos usados na combinação são de diferentes indústrias. A combinação tripla, aprovada pela OMS, mais barata custa 140 dólares por paciente/ano e pode ser administrada na forma de uma única pílula duas vezes ao dia. No entanto, caso os mesmos remédios fossem adquiridos da indústria de marca, individualmente, o preço seria de 562 dólares por paciente/ano e o paciente ainda teria que ingerir seis pílulas por dia, o que dificulta a adesão ao tratamento. Em outras palavras, os programas de HIV/aids têm de fazer uma opção: para cada 500-600 dólares que eles gastam com anti-retrovirais, ou eles podem prolongar a vida de uma pessoa oferecendo medicamentos de marca que o paciente terá que tomar na forma de seis comprimidos, ou eles prolongam a vida de quatro portadores do HIV/aids, oferecendo uma única pílula duas vezes ao dia, produzida por fabricantes de genéricos. A administração Bush parece ignorar o fato de que essas ferramentas no combate ao HIV/aids existem hoje e estão sendo amplamente usadas em programas pelo mundo. MSF está preocupada que a Conferência sobre Combinação de doses fixas a ser realizada em Botsuana, entre os dias 29 e 31 de março, com patrocínio do governo americano, não leve ao desenvolvimento, ao estudo e à considerações sobre a segurança, eficácia e qualidade dessas combinações. Ao contrário, MSF acredita que esta conferência irá enfraquecer as recomendações da OMS e atrasar, impedir ou colocar em dúvida o uso de genéricos de qualidade a preços acessíveis. A administração Bush está isolada na sua visão sobre as recomendações da OMS já que não existe base médica ou científica para os ataques contra os medicamentos genéricos aprovados pela OMS. As recomendações da OMS têm o apoio de agências internacionais da ONU tais como a UNICEF, UNAIDS e UNFPA, assim como do Banco Mundial, do Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária, Universidade Columbia, Fundação Clinton entre outros. A única explicação plausível para a posição adotada pela administração Bush sobre as recomendações da OMS é que os EUA estão mais interessados em proteger as suas indústrias farmacêuticas do que em expandir o tratamento com anti-retrovirais para um número ainda maior de pessoas. MSF oferece atualmente anti-retrovirais para mais de 11.000 pessoas vivendo com HIV/aids em mais de 20 países da África, Asia, América Latina e Leste Europeu e espera que o número de pessoas que recebem os medicamentos nos seus programas chegue a 25.000 pessoas em 25 países até o final deste ano. Fonte: http://www.msf.org.br/noticia/msfNoticiasMostrar.asp?id=276 Consultado em 13/02/2007