Gazeta Mercantil

Importações somaram US$ 3,64 bilhões em 2006, ante os US$ 755 milhões exportados. O Brasil bateu novo recorde nas importações de produtos farmacêuticos no ano passado. As compras no exterior somaram US$ 2,49 bilhões (FOB), um aumento de 30% quando comparado ao ano anterior, e quase US$ 1 bilhão a mais em relação a 2003, quando somaram US$ 1,41 bilhão. O destaque ficou com os medicamentos prontos, isto é, que já chegam ao País embalados, que responderam por US$ 1,71 bilhão do total importado em 2006, ante os US$ 1,32 bilhão do ano anterior e praticamente o dobro na comparação com 2003. Na área de farmoquímicos e adjuvantes farmotécnicos (matéria-prima utilizada na composição dos medicamentos) foram US$ 1,15 bilhão em importações, com leve alta de 1,8%, ante os cerca de 10% de crescimento tradicional, o que mostra a preferência das empresas para as compras de produtos acabados.

Os dados compilados pela Associação Brasileira da Indústria de Química Fina (Abiquif), baseados em informações da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), mostram o grande déficit da balança comercial do setor, que por sua vez afeta a balança comercial do País. No total, o setor farmacêutico brasileiro importou US$ 3,64 bilhões, ante os US$ 3,03 bilhões do ano anterior. As exportações somaram US$ 613,7 milhões em 2005 e US$ 755,8 milhões no ano passado. O déficit acumulado foi de US$ 2,88 bilhões em 2006 ante os US$ 2,41 bilhões do ano anterior.

O presidente do Conselho da Abiquif, José Correia da Silva, disse que o Brasil tradicionalmente é grande importador de remédios e insumos farmacêuticos. Mas o aumento verificado no ano passado o preocupa. Antes de ser apenas mais um indicativo da variação cambial, que favorece as importações em diversos setores da economia, Correia da Silva observou nos números uma decisão clara das indústrias de preferir as compras externas a ocupar o parque fabril, ocioso em cerca de 40%. Nesta entrevista, o presidente da Abiquif fala também sobre outros fatores que influenciaram os resultados.

Gazeta Mercantil – Esse aumento das importações já era previsto?
Correia da Silva – Se analisarmos a evolução dos últimos anos, estamos ano a ano sofrendo. Vimos um grande salto de 2003 para o ano passado, com as importações de produtos farmacêuticos saindo de US$ 1,41 bilhão para quase US$ 2,5 bilhões. Mas nesse período até 2005 o crescimento médio ficou um pouco acima de 10% ao ano no volume total. Os 30% de alta do ano passado surpreenderam apenas em parte porque o capítulo (3004) que agrega as compras de medicamentos prontos, de maior valor, já crescia acentuadamente nessa mesma base de comparação e parecia inevitável que puxasse todo o resultado. Em 2003, o Brasil comprou US$ 896,9 milhões de remédios acabados no exterior, valor que pulou para US$ 1,7 bilhão em 2006, quase o dobro. No ano anterior, foram US$ 1,32 bilhão. Uma elevação de US$ 400 milhões em um ano é muita coisa. Nos últimos dois anos, foram em média 25% de aumento nesse capítulo. No capítulo de vacinas e derivados (3002), tivemos crescimento de quase US$ 200 milhões, para US$ 656 milhões, o que também é bastante significativo. No item (3003) que agrega os produtos que são trazidos para ser envasados no Brasil, o que exige linhas de produção, houve queda de US$ 137 milhões para US$ 62,7 milhões, de 2004 para 2005. No ano passado, ficou perto de US$ 83 milhões, crescimento quase vegetativo e sem recuperar os níveis anteriores.

Gazeta Mercantil – Como o senhor analisa esses números?
Correia da Silva – O que é mais doloroso é que o mercado brasileiro não cresceu na mesma proporção nesses anos. Esta havendo substituição de produção por importados.

Gazeta Mercantil – O valor do dólar no período foi uma fator preponderante?
Correia da Silva – O dólar ajudou, é componente importante, mas esse mercado é altamente regulado. É complicado mudar de produção para importação. Então, podemos deduzir que há uma clara decisão das empresas de optarem pela importação a utilizar totalmente o parque fabril. Os novos produtos das multinacionais, por exemplo, são trazidos prontos, em sua maior parte. As indústrias asiáticas, como as indianas, com presença mais forte nos últimos anos no mercado brasileiro, também são de natureza importadora. Quase todos os projetos dessas empresas implicam em comprar de suas fábricas locais, onde o custo de produção é menor, para atender a demanda do País. Uma das causas disso é que a produção local não está barata, ainda mais se comparada a das asiáticas.

Gazeta Mercantil – Os laboratórios nacionais contribuíram para esses resultados?
Correia da Silva – Sem dúvida, esse número não seria feito só pelas multinacionais. Empresas nacionais com foco em distribuição, ou seja, que fazem acordos e representam aqui indústrias estrangeiras, também ajudaram a engordar as importações. O segmento de genéricos também está contaminado por importações. Além disso, as compras governamentais de produtos de alto valor, que geralmente são produzidos lá fora, como os utilizados em pacientes com Aids, por exemplo, são relevantes nos cálculos. À medida que o governo aumenta a dotação para a compra de medicamentos também eleva a importação.

Gazeta Mercantil – As importações de farmoquímicos e outros insumos utilizados em composições de medicamentos sempre foram importantes em valor. O aumento das importações de medicamentos já acabados diminuiu o ritmo das compras de farmoquímicos?
Correia da Silva – Se traz pronto, importa menos farmoquímicos. Mas não houve redução. Reduziu o nível de aumento. Em 2003, as importações de farmoquímicos e adjuvantes totalizaram US$ 886 milhões e ficaram em US$ 1,15 bilhão no ano passado. Não tivemos aí um salto de US$ 1 bilhão, como em produtos farmacêuticos. Farmoquímicos só cresceram 1,8% em 2006, enquanto subia em média de 10%. Mas se somarmos os dois, temos um volume de importações de US$ 3,64 bilhões em 2006, quase metade do movimento do mercado brasileiro. A balança comercial do setor é altamente deficitária, o que prejudica a própria balança comercial brasileira. As exportações foram de US$ 613,7 milhões em 2005 e de US$ 755,8 milhões no ano passado, entre medicamentos e farmoquímicos.

Gazeta Mercantil – As exportações de produtos farmacêuticos mais do que dobraram de 2003 a 2006. Conforme os dados da Abiquif/Secex, no ano passado o crescimento foi de 38% na comparação anual, para US$ 469 milhões.
Correia da Silva – Não podemos deixar de reconhecer que há um grande esforço para melhorar essa balança, particularmente, por dois motivos: os laboratórios precisam de alternativas às oscilações do mercado interno e buscam saída nas exportações, mesmo com dólar desfavorável; e algumas multinacionais transformaram suas fábricas brasileiras em plataformas de exportações. Elas deslocaram produção de plantas mais caras para o País para atender basicamente o Mercosul e demais países da América Latina.

Gazeta Mercantil – As vendas externas de farmoquímicos também cresceram?
Correia da Silva – Subiram menos. Foram de US$ 273 milhões para US$ 286 milhões, na comparação dos últimos dois anos, o que mostra que as indústrias nacionais ainda estão competitivas, apesar do dólar. A melhoria das normas regulatórias ajudou muito as fabricantes de farmoquímicos, que hoje têm produção altamente qualificada. A produção também subiu um pouquinho, de US$ 512 milhões para US$ 530 milhões no ano passado. Um crescimento é pífio. A nossa área parece a de fabricante de motos concorrendo com carros prontos. Aqui pagamos PIS/Cofins em média de 12%, enquanto o intermediário farmoquímico importado não paga. Tenho desvantagem de 12%.

Gazeta Mercantil – Quais problemas o aumento das importações causa e quais as soluções?
Correia da Silva – Um problema que o setor pode enfrentar é a variação cambial. Se subir 10%, com o preço controlado do medicamento do jeito que é, as empresas vão chiar. Como são importadoras de farmoquímicos, o dólar barato ajuda bastante na redução de seus custos, e como optaram por importar produtos prontos, pode haver um descompasso sério de abastecimento. O que temos de perguntar é o quê fazer para fabricar localmente mais insumos e medicamentos e reduzir a dependência externa. Todo país importa muito até porque as grandes multinacionais, que dominam esse mercado, criaram plataformas de produção em diversas partes do mundo. Mas para esse volume de importação de produtos prontos cabe intervenção de bisturi do governo, que precisa elaborar um política industrial de incentivo maior à produção local. 

Fonte: http://www.aids.gov.br/main.asp?View={DA56F374-128A-40FB-B16F-D08A1F5DD07B}&Team=&params=itemID={889D1069-4325-4A12-B3A2-EEFA60144668};&UIPartUID={D90F22DB-05D4-4644-A8F2-FAD4803C8898}
Consultado em 08/03/2007