Diário da Manhã (GO)
Falta de investimento em pesquisa emperra avanço de medicamentos para males como a dengue.
A falta de investimentos em pesquisa por parte do setor público e privado é a principal causa para o atraso na descoberta de medicamentos para patologias como dengue, leishmaniose, hanseníase, malária, doença do sono e doença de Chagas. É o que aponta a diretora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC), Tânia Araújo Jorge. Essas enfermidades acometem principalmente populações pobres de países menos desenvolvidos, onde investimento em estudos para prevenção, tratamento e produção de medicamentos e vacinas é reduzido. Por isso são conhecidas como “doenças negligenciadas”.
Levantamento do Food and Drugs Administration, órgão norte-americano responsável pela aprovação de medicamentos, revela que, entre 1975 e 2004, foram aprovados em torno de 1,5 mil remédios para comercialização. Desse total, somente 1% era destinado ao tratamento das doenças negligenciadas. Na avaliação da pesquisadora, os países industrializados têm pouco interesse em desenvolver esse tipo de pesquisa por conta do baixo retorno econômico. Como conseqüência, há ausência de mecanismos de tratamento para a maior parte dessas doenças.
O professor de Filosofia e Teologia Lorenzo Lago, do grupo de Estudo e Pesquisas em Bioética da Universidade Católica de Goiás (UCG), atribui o atraso à maneira com que os investimentos são aplicados. “Os investimentos nessa área são muitos em todo o mundo. Porém, são direcionados às doenças interessantes ao mercado ao qual essas indústrias se dirigem”, diz Lago.
Segundo ele, há uma discussão em Bioética sobre o abismo 10 – 90, que significa que 90% dos recursos na procura de novos remédios são investidos para pesquisar doenças prioritárias de 10% da população mundial. “Não há investimentos em pesquisas para as patologias que afetam grande parte da população mundial”, afirma. Os países em desenvolvimento não contam com parque de pesquisas adequado, e também não dispõem de recursos para bancá-las. “Pesquisas com remédios são caríssimas e podem levar 10, 15 anos para ter conclusões”, diz.
A ciência como norte
Na opinião do presidente da Associação Médica de Goiás (AMG), Waldemar Naves do Amaral, o caráter avançado de um povo se dá pela pesquisa. “A ciência é que deveria nortear o avanço de um povo”, afirma o também professor de Ginecologia e Obstetrícia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Goiás (FC/UFG).
As pesquisas de alto culto são financiadas por investimentos públicos e privados. No Brasil os investimentos são escassos. “O setor público deveria investir pesado, mas não o faz. Os investimentos que proporcionam resultados maravilhosos são a longo prazo”, comenta. O setor privado investe por conta própria em medicamentos contra aids, hepatite B e C etc. Já as doenças de saneamento básico não contam com esses investimentos.
A assessoria de imprensa do Ministério da Saúde informa que o órgão lançou, em junho deste ano, o edital de pesquisas sobre doenças negligenciadas. O objetivo é fomentar a pesquisa sobre essas patologias por meio do apoio a projetos de pesquisa que contribuam para o avanço do conhecimento e a geração de produtos. A iniciativa visa subsídios para ações públicas voltadas para melhoria das condições de saúde da população brasileira e para a superação de desigualdades regionais e socioeconômicas.
Em andamento, o edital já concluiu o julgamento de propostas da primeira etapa. A segunda etapa será de 6 a 11 de novembro. O resultado final sai em 27 do mesmo mês. Os recursos destinados à iniciativa foram de R$ 20 milhões provenientes da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério.
Fonte: http://www.phar-mecum.com.br/atual_jornal.cfm?jor_id=7322
Consultado em 15/02/2007