Folha de Londrina
Moçambique não é o país mais dizimado pela aids na África, mas é o retrato melhor acabado da epidemia. Doença, desinformação, miséria e fome se misturam à corrupção que corrói as ajudas internacionais e alimenta uma elite que circula em caminhonetes com cabine dupla e ar-condicionado aos olhos de uma população que não ganha US$ 1 por dia.
O país, com cerca de 20 milhões de habitantes, tem menos de 500 ”médicos de hospital”, como são chamados, contra mais de 72 mil curandeiros, os ”médicos tradicionais”.
O Brasil entrou em Moçambique com o projeto Ntwanano, que em língua changana, a mais falada na região da capital Maputo, quer dizer ”aliança, entendimento”. As promessas de ajuda internacional para o período 2003-2007 passam dos US$ 500 milhões. O projeto Ntwanano significa US$ 300 mil para dois anos, financiados pela Fundação Ford. A diferença é que, em lugar de distribuir dinheiro que escapa ao controle do governo e determinar como e em que o dinheiro deve ser usado, o programa brasileiro se dedica a prestar assessoria.
O projeto tem duas frentes. Uma de tratamento, em que o Brasil oferece medicamento a cem doentes, e que serve para ensinar médicos moçambicanos a lidar com o coquetel, um conjunto de drogas anti-retrovirais que requer monitoramento especializado. Rosana Del Bianco, de 47 anos, infectologista do Hospital Emílio Ribas, comanda esse treinamento. Entre as funções da equipe está a de decidir quem vai receber ou não o tratamento.
Moçambique tem 300 mil doentes e infectados precisando do coquetel, mas apenas 5 mil recebem a medicação. É uma espécie de ”escolha de Sofia”, em que se decide quem terá chances de viver e quem certamente morrerá. ”Trazemos para Moçambique as lições que aprendemos no Brasil”, diz Rosana. Nesses dias que antecedem o 1º de dezembro, Dia Mundial de Combate à Aids, o Brasil é citado pelos organismos internacionais como um modelo no combate à epidemia.
A outra frente do projeto Ntwanano é uma assessoria a organizações não-governamentais que trabalham com prevenção e que cuidam de pacientes vivendo com HIV ou aids. O grupo de três profissionais, sociólogo, antropólogo e médico, está ligado à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
Moçambique tem 1,5 milhão de pessoas vivendo com HIV ou aids. Cerca de 14% da população está infectada. Em algumas regiões, a taxa chega a 35%. Estima-se que 100 mil pessoas devam morrer da doença apenas este ano, enquanto 500 novas infecções ocorrem todos os dias. Cerca de 80 crianças nascem com HIV transmitido por suas mães, diariamente. Entre 19 e 24 anos, há três mulheres infectadas para cada homem. Na população em geral, 60% dos infectados são mulheres. Por conta da aids, a expectativa de vida já caiu de 45 para 39 anos.
Fonte: http://www.sistemas.aids.gov.br/imprensa/Noticias.asp?NOTCod=61233
Consultado em 14/02/2007