Por: Cristiane Barbieri
Folha de S. Paulo
Presidente da subsidiária do laboratório suíço afirma que, após quebra de patentes, teve que defender o país na sede mundial
Brasil é um mercado em crescimento e que tem "boas chances" de receber unidade de produção de vacinas, afirma executivo
DA REPORTAGEM LOCAL
Apesar de dizer que a quebra da patente do remédio anti-Aids Efavirenz (do laboratório concorrente Merck) não influenciou as decisões de investimentos da suíça Novartis no país, Alexander Triebnigg, presidente da subsidiária brasileira, é categórico em afirmar que o episódio tornou mais difícil a sua tarefa de "vender" o Brasil para a matriz.
Austríaco, ele chegou há um ano e meio para comandar a Novartis, o maior laboratório estrangeiro no país. Hoje está à frente também do maior exportador de medicamentos. O desafio agora é fazer o país ganhar importância também em pesquisa básica, como diz a seguir.
FOLHA – O Brasil perdeu definitivamente a fábrica de vacinas contra meningite?
ALEXANDER TRIEBNIGG – Até o momento, não há definição sobre a localização dos investimentos em produção de vacinas. A fábrica anunciada na semana passada em Cingapura é destinada à produção de medicamentos biotecnológicos. O Brasil é um mercado em crescimento e, por isso, a Novartis está buscando aqui oportunidades de colaboração em vacinas.
FOLHA – A produção de vacinas é centralizada num único país?
TRIEBNIGG – A Novartis pretende criar uma rede global de unidades de produção de vacinas. A América Latina tem possibilidade de receber uma planta que integrará essa rede. Em reunião com o chanceler Celso Amorim, o presidente mundial da Novartis, Daniel Vasella, disse que o Brasil tem "boas chances" de obter tal investimento.
FOLHA – A quebra de patente do Efavirenz foi o motivo pelo qual a fábrica de medicamentos biotecnológicos foi para Cingapura?
TRIEBNIGG – A quebra da patente não influenciará as decisões da Novartis sobre investimentos no Brasil. Prova disso são os investimentos de R$ 223 milhões na expansão da produção das fábricas de Resende (RJ) e Taboão da Serra (SP), que, além de abastecerem o mercado interno, produzirão para o externo. A expectativa é que o volume de exportação triplique até 2012. Serão gerados mais de 400 empregos diretos. E a Novartis acredita que o país tem uma lei de patentes consistente, que garante a proteção à propriedade intelectual.
FOLHA – O governo está tentando negociar a redução do preço do remédio de combate ao câncer Glivec. Como têm sido essas negociações? Há ameaça de quebra de patentes caso a empresa não reduza preços?
TRIEBNIGG – A Novartis está conversando com o governo sobre o preço do Glivec para encontrar uma alternativa que atenda aos dois lados. No entanto, não ofereceremos detalhes desse processo, uma vez que acreditamos que isso não agregará para a discussão.
FOLHA – Por que os laboratórios não investem em pesquisa no país?
TRIEBNIGG – O Brasil poderia receber mais investimentos em pesquisa. Para que um estudo clínico seja feito, é necessário, por exemplo, submeter, nos diferentes países, o protocolo da pesquisa a comissões de ética de faculdades, hospitais e entidades como o FDA
FOLHA – Em quantos estudos o país deixou de participar?
TRIEBNIGG – Apenas na Novartis, em quatro protocolos de pesquisa nos últimos dois anos. Para ter uma idéia, na Argentina, leva três meses para conseguir uma autorização. Na Europa, duas semanas. No Brasil, de 6 a 12 meses. Tenho certeza de que o Conep tem boa vontade de proteger os pacientes, mas é importante analisar como acelerar a segunda aprovação.
FOLHA – A Novartis tentou fazer pesquisa na Amazônia e acabou convocada a responder à CPI da Biopirataria. O que aconteceu?
TRIEBNIGG – A Novartis queria criar no Brasil um instituto de pesquisa para o tratamentos de doenças tropicais. A intenção era disponibilizar remédios gratuitos ou a preço de custo e analisar se a Amazônia teria soluções para essas doenças. O que aconteceu, infelizmente, foi uma grande confusão. A Novartis virou ré e o instituto de pesquisas foi parar em Cingapura, onde dengue e doença de Chagas só existem em livros.
FOLHA – Quanto foi investido em Cingapura?
TRIEBNIGG – Foram US$ 122 milhões. O ministro Celso Amorim disse na Organização Mundial de Saúde que os laboratórios só fazem pesquisa básica na sede ou nos EUA. Não nos países emergentes. Infelizmente, tenho de discordar. O Brasil seria um bom exemplo de que as empresas querem estabelecer institutos de pesquisa básica fora da Europa e dos EUA.
FOLHA – A porta de investimento em pesquisas foi fechada?
TRIEBNIGG – Um dos objetivos que estabeleci com minha equipe foi criar a primeira molécula brasileira, patenteada aqui. Estamos trabalhando nisso.
FOLHA – Está mais difícil convencer a matriz a investir no Brasil?
TRIEBNIGG – Não, todo mundo gosta do Brasil. É um mercado emergente, tem bons pesquisadores e uma lei de patentes muito boa, mas, depois da quebra da patente [do Efavirenz], tive de mudar minha estratégia de embaixador do Brasil em Basiléia [sede da Novartis]. Antes, eu vendia o Brasil. Agora, defendo o país. É totalmente diferente de vender. Para defender, tenho de dizer que só aconteceu uma vez e o Brasil quer respeitar patentes.
FOLHA – Qual seria a alternativa para o governo tratar tantas pessoas, a não ser quebrar a patente?
TRIEBNIGG – É um caso muito específico mas acho que a empresa que desenvolveu e vende o medicamento tem vontade de negociar. Não posso falar em nome da empresa, mas o resultado é que, com a quebra de patentes, o Brasil aumentou emprego na Índia. Dá para fazer um discurso cínico e dizer que, se você precisa quebrar uma patente, por favor, pelo menos assegure que você vá produzir essa molécula no Brasil.
FOLHA – A perda do governo brasileiro com possíveis investidores foi maior que o ganho com vários prêmios recebidos ou com a repercussão positiva por parte dos beneficiados com o tratamento?
TRIEBNIGG – A perda foi maior. O país não está fora da realidade mundial. Aumentar o medo das multinacionais não ajuda a ninguém. Com os investimentos que fizemos, sintetizamos aqui a matéria-prima para o nosso principal medicamento, o anti-hipertensivo Diovan, o mais vendido atualmente.
FOLHA – Se os preços diminuíssem, os brasileiros não teriam mais acesso aos remédios?
TRIEBNIGG – Os impostos que os brasileiros pagam sobre os medicamentos estão entre os mais altos do mundo. Uma maneira para disponibilizar remédios à população seria repensar a estratégia de o governo ganhar dinheiro com medicamentos.
Frase
"Antes, eu vendia o Brasil. Agora, defendo o país. É totalmente diferente de vender."
ALEXANDER TRIEBNIGG, presidente da Novartis no Brasil