Por: Ciro Mortella

Guia da Farmácia

Focado em quatro temas centrais – Propriedade Intelectual, Política de Preços, Tributação e Acesso a Medicamentos – o documento que a Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma) elaborou como contribuição ao plano de governo do futuro presidente da República faz um diagnóstico das principais questões que afetam o setor, indicando encaminhamentos que, ao permitir a superação de obstáculos criados pelas regulações econômica e sanitária, fomentem a produção e o acesso aos medicamentos.

Um entrave importante é a alta carga tributária incidente sobre os produtos farmacêuticos. E, neste capítulo, o aspecto mais imediatamente ligado às preocupações da indústria farmacêutica refere-se à incidência dos tributos sobre o valor agregado: especificamente o ICMS e as contribuições de PIS e COFINS.

É inegável que estes impostos elevam os custos. Nesse sentido, dois aspectos são destacados no documento da Febrafarma.

Aponta-se em primeiro lugar uma incoerência. A sociedade brasileira entende que os tributos indiretos devem ser aplicados de acordo com a essencialidade do produto tributado, conforme o parágrafo 3º do art. 153 da Constituição Federal. No entanto, isso não acontece de fato.

Por exemplo, a alíquota de ICMS aplicada sobre medicamentos no Estado de São Paulo é de 18%, enquanto a que incide sobre diamantes – item supérfluo – é de apenas 1,5% e a cobrada dos automóveis, 12%. Os produtos veterinários são isentos.

Mas os efeitos perversos da tributação não param aí.

A carga tributária total sobre medicamentos é de 35,07%, muito superior à que onera outros tipos de produto: embarcações, 29,51%; aeronaves, 29,5%; revistas, 19,9%; e flores, 18,9%, segundo um estudo inédito elaborado recentemente pelo Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário (IBPT).

Quando se compara a carga tributária sobre o valor agregado do setor farmacêutico com a média da economia brasileira (23,93%) e a de outros segmentos produtivos, reafirma-se a constatação de que este é um dos mais tributados da economia brasileira.

A carga tributária da indústria farmacêutica – fabricante de produtos essenciais! – é a segunda mais elevada do país, como mostra o quadro abaixo:

Carga Tributária Total sobre Valor Agregado – 2003 (*)

SETOR CARGA %
   
AGROPECUÁRIA 9,94
SIDERURGIA 21,63
ARTIGOS DO VESTUÁRIO 26,04
EXTRATIVA MINERAL 26,17
INSTITUIÇÕES FINANCEIRAS 28,04
PAPEL E GRÁFICA 30,54
IND. DA BORRACHA 31,76
FABRICAÇÃO DE CALÇADOS 33,51
EQUIPAMENTOS ELETRÔNICOS 33,72
ARTIGOS DE PLÁSTICO 38,92
COMÉRCIO 43,18
IND. DE LATICÍNIOS 45,90
IND. TÊXTIL 54,38
MATERIAL ELÉTRICO 54,51
DISTRIBUIÇÃO DE COMBUSTÍVEIS 55,83
IND. FARMACÊUTICA** 57,31
AUTOMÓVEIS 57,56

(*) Estudo: Impactos Macroeconômicos Regionais e Setoriais da Reforma Tributária – Relatório de Trabalho nº 1. FGV Consult e Instituto ETCO. São Paulo, 2005.
(**) Índice determinado no Estudo Febrafarma “Radiografia da Tributação sobre Medicamentos – Carga Tributária Incidente no Setor Farmacêutico. IBPT, São Paulo, 2006.

Conclusão: não há coerência quanto ao critério de essencialidade na legislação tributária. Em flagrante contradição com a diretriz constitucional.

Em 2004, o Poder Público recolheu R$ 5,2 bilhões em ICMS, PIS e COFINS. Este montante elevou o custo de fabricação de medicamentos, sem trazer benefícios diretos à população.

Além do ônus da carga tributária em si, há o evidente custo social representado pela restrição ao acesso de medicamentos, já que a maioria da população não tem renda suficiente para a compra do produto.

É pelas razões expostas que a Febrafarma propõe a redução uniforme da alíquota de ICMS para 12% e a eliminação da cobrança de PIS e COFINS em todos os segmentos de medicamentos para uso humano no documento em que indica medidas primordiais para a consolidação da cadeia farmacêutica.

Com esta e outras idéias apresentadas ao futuro governo, a Febrafarma busca promover o desenvolvimento setorial e o bem-estar da sociedade brasileira. São propostas sérias e ousadas. Do tipo que o país precisa.

Ciro Mortella é presidente executivo da Federação Brasileira da Indústria Farmacêutica (Febrafarma).