junho 2005

Costa assume unaids e reforça pressão por quebra de patentes

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 28, 2005|Categories: Acervo|

Ministro diz que discussão com fabricantes de anti-retrovirais prosseguirá, mesmo com reforma ministerial. O ministro da Saúde, Humberto Costa, assumiu ontem em Genebra a presidência do Conselho da Unaids, agência da ONU para o combate à aids. O Brasil deve usar a presença no cargo, durante os próximos 12 meses, para fortalecer sua estratégia de luta contra a doença e influenciar políticas para melhorar o acesso a remédios por países em desenvolvimento. Costa aproveitou sua passagem pela Suíça para garantir que a quebra de patentes anunciada na sexta-feira em relação ao remédio Kaletra, do laboratório Abbott, será mantida mesmo diante de uma reforma ministerial e o prazo dado à empresa de dez dias começou a correr ontem. "Se outras empresas não atenderem aos nossos pedidos, vamos emitir as licenças compulsórias", afirmou o ministro, que garante ter apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da própria Unaids em sua decisão de quebrar a patente. O governo optou por essa estratégia depois de meses de negociação sobre os preços de remédios. Brasília solicitou que a Abbott, além de duas outras companhias, emitissem licenças voluntárias para que o governo pudesse produzir os remédios para o coquetel antiaids. A Abbott se recusou e agora poderá perder sua patente. Apressado para voltar ao País para acompanhar a reforma ministerial, Costa permaneceu pouco mais de cinco horas presidindo o conselho da Unaids e, no fim da tarde de ontem, retornou ao Brasil. Ele fez questão, porém, de chamar a mídia internacional para explicar a quebra da patente do Kaletra. "Trata-se da primeira licença compulsória emitida no mundo para remédios contra aids. Nossa decisão é legal", afirmou. NOTIFICAÇÃO Ontem, um advogado do Ministério da Saúde foi a São Paulo entregar a notificação à Abbott. Costa ainda afirmou estar aberto para dialogar com a empresa, mas apenas se ela aceitar as condições do governo: emitir a licença voluntária e reduzir seus preços de US$ 1,17 por unidade para US$ 0,68 enquanto ocorra a transferência de tecnologia para a fabricação do remédio no Brasil. "Se não aceitarem as condições, emitiremos licenças compulsórias", afirmou Costa, que deixou claro que o País pagará, ainda assim, US$ 1,5 milhão em royalties pela quebra de patentes. Costa espera que as demais empresas que são alvo de uma negociação com o governo, a Merck e a Gilead, entendam o recado do governo. "Esperamos que a decisão sobre a Abbott estimule as outras empresas a negociar de um forma mais rápida." Segundo ele, uma dessas empresas já aceitou dar a licença voluntária, mas não ficou acertado como ocorreria. O diretor da Merck, João Sanches, afirmou estar "frustrado" com a atitude do governo em declarar interesse público para o medicamento da Abbott. Sanches disse que a medida trará impacto negativo nas negociações sobre uma eventual licença voluntária do Efavirenz. "Qualquer medida que traga instabilidade para o ambiente regulatório dificulta as negociações", completou. Sanches sustentou ainda que os gastos para a compra de medicamentos foram reduzidos nos últimos anos. Ele disse que em 1999 o Brasil gastou R$ 620 milhões na compra de anti-retrovirais para o tratamento de 78 mil pacientes. Em 2004, para tratar 154 mil, desembolsou R$ 570 milhões. A Associação Brasileira de Indústria de Pesquisa (Interfarma) emitiu nota em que afirma não acreditar que a licença compulsória seja o caminho apropriado para a ampliação do acesso a medicamentos. A medida poderia resultar na suspensão de investimentos dos laboratórios em pesquisa. "Num prazo aproximado de dois anos, devido à mutabilidade do vírus, os atuais medicamentos não terão mais a mesma eficácia", informa a nota. O ministro ainda espera que a medida tenha outro efeito: incentivar outros países a usar mecanismos legais para ter maior acesso aos remédios. Ainda assim, Costa alerta que o Brasil não tomou uma posição política, mas, sim, uma posição de saúde pública. "Poderíamos ter problemas de sustentabilidade do programa de combate à aids no Brasil em dois anos", justificou. Segundo ele, o País gasta por ano US$ 100 milhões apenas com o Kaletra, que, se produzido no Brasil, teria metade desse custo. Se a decisão sobre a quebra de patente for tomada, Costa acredita que o remédio produzido no País levará um ano para chegar aos pacientes. Mas ele não teme um desabastecimento. "Temos um acordo com a Abbott até maio e seria um crime não cumpri-lo. Se houver problemas, podemos importar remédios genéricos", ameaçou. Fonte: http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISDA56F374ITEMID8375F57A7A30498CBD67C54ACE3BB021PTBRIE.htm Consultado em 12/02/2007

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Editorial da Folha de S. Paulo reconhece a legalidade da quebra de patente de ARV, mas sugere que Abbott abaixe os preços

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 28, 2005|Categories: Acervo|

Legislação brasileira que assegura o direito do licenciamento compulsório está de acordo com as regras da organização Mundial do Comércio (OMC) e apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS). Não há dúvida de que o governo brasileiro tem o direito de quebrar a patente do medicamento Kaletra, uma das drogas usadas no tratamento da Aids, fabricada pelo laboratório norte-americano Abbot -conforme anunciou que o faria na sexta-feira. A maioria dos sistemas jurídicos do mundo preconiza que a vida deve prevalecer sobre a propriedade. Assim, em situações de grave risco à saúde da população, os direitos comerciais da Abbot subordinam-se ao interesse público. O licenciamento compulsório, que permite ao Brasil produzir o fármaco à revelia do laboratório, ainda que com o pagamento de royalties, é um mecanismo previsto pela legislação brasileira (lei nº 9.279/96), está de acordo com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC) e tem o apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS). Praticamente todas as nações desenvolvidas contam com dispositivos semelhantes em sua legislação, a começar dos EUA. Washington já se utilizou da figura do licenciamento compulsório na agricultura. No campo da saúde, recentemente ameaçou fazer o mesmo contra o laboratório alemão Bayer, fabricante do antibiótico Cipro, droga de referência em intoxicações por antraz. Logo depois do 11 de Setembro, os EUA viveram uma onda de pânico devido às remessas pelo correio de cartas contaminadas com antraz. O fato de a quebra da patente ser justa e legal não significa que ela deva ser perseguida a qualquer preço. Até seria positivo para o mundo que o Brasil estabelecesse o precedente do licenciamento compulsório de uma droga anti-Aids no âmbito de um programa de distribuição universal de medicamentos, mas pensando exclusivamente nos interesses do país, o mais conveniente seria que a Abbot cedesse e aceitasse o preço que o governo está disposto a pagar. Para começar, entre a quebra da patente e o início da produção da droga por um laboratório oficial existe um intervalo de pelo menos um ano. Além disso, por mais razão que o país tenha, a medida traria ao Brasil o ônus -perfeitamente administrável, mas ainda assim um ônus- de ser visto externamente como uma nação que não respeita os direitos de propriedade industrial. As autoridades brasileiras parecem saber disso. Provavelmente não foi por outra razão que deram à Abbot dez dias para aceitar o preço do governo antes de ter a patente quebrada. Fonte: http://www.sistemas.aids.gov.br/imprensa/Noticias.asp?NOTCod=65727 Consultado em 12/02/2007

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Ex-diretor do Programa Nacional de Aids diz que quebra de patente é necessária

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 28, 2005|Categories: Acervo|

O ex-diretor do Programa Nacional de Aids, Alexandre Grangeiro, afirma que iniciativa do governo de quebrar patente só tem pontos positivos e pode ajudar o Brasil a incorporar tecnologia, incentivar novas pesquisas e capacitar profissionais para desenvolver novos medicamentos, além de reforçar a luta dos países em desenvolvimento para tratar 6 milhões de pessoas que vivem com aids e sem remédios por causa dos preços imorais cobrados pela indústria farmacêutica. A tomada de consciência de que nosso tempo é finito revoluciona. Na política não é diferente e, por vezes, em meio à crise, decisões por muito postergadas, acabam se concretizando. É o caso do anuncio da quebra de patentes do medicamento Kaletra. O ato, talvez um dos últimos do ministro Humberto Costa, atende a dois objetivos. O primeiro, mais nobre, a preocupação com 170 mil pessoas que precisam dos medicamentos de aids para viver. O segundo, a tentativa de tirar a marca negativa de uma gestão que desestruturou o Programa de Aids brasileiro. Mas, deixando de lado a dubiedade da decisão, a quebra da patente é digna de aplauso. Por todos os ângulos só há pontos positivos. Entre os 16 medicamentos do coquetel para aids, o Kaletra é um dos mais utilizados. Com a produção do genérico o Ministério da Saúde economizará R$ 130 milhões por ano. Dinheiro suficiente para duplicar o número de ONG que trabalham com aids e, ao mesmo tempo, aumentar em 25% a quantidade de preservativos distribuídos à população. Internacionalmente, reforça a luta dos países em desenvolvimento para tratar 6 milhões de pessoas que vivem com aids e sem remédios por causa dos preços imorais cobrados pela indústria farmacêutica. E nessa briga o Brasil tem um papel importante. Desde que começamos a negociar com os laboratórios e a produzir genéricos, o preço dos remédios despencou e, hoje, internacionalmente, custam 10 vezes menos do que nos anos 90. Com a decisão, o Brasil também rompe um tabu e abre o caminho para outros países implementarem os acordos internacionais que permitem a quebra de patentes e a produção de genéricos. E há mais pontos positivos. O Brasil tem a chance de incorporar tecnologia, incentivar novas pesquisas e capacitar profissionais para desenvolver novos medicamentos. É falsa a idéia de que a indústria de genérico simplesmente copia fórmulas. O desenvolvimento da droga requer estudos aprofundados e muitas vezes o ''genérico'' fica melhor que o original. Como é o caso do DDI, um dos medicamentos já produzidos pelo laboratório estatal Far-Manguinhos. Apesar disso, o Brasil deverá ser ameaçado pelo governo americano e pelos laboratórios internacionais. Mas sanções comerciais representam somente a defesa do lucro e não a preocupação com a vida e com o desenvolvimento científico. Ao contrário do que argumenta a indústria, as patentes não são essenciais para a elaboração de novos remédios, que sempre foram desenvolvidos sem títulos de propriedade. Patentes para medicamentos são recentes na história da humanidade e só foram adotadas depois que a indústria farmacêutica dos países ricos estava consolidada. Na Suíça, por exemplo, elas datam de 1977. Antes, os medicamentos eram considerados fundamentais para a vida, um bem social acima dos interesses comerciais. Portanto, a adoção indiscriminada da patente nos países em desenvolvimento é medida protecionista para indústria dos ricos. Há ainda duas preocupações. A primeira é a qualidade do medicamento que será produzido no Brasil. Se a lei for cumprida, não há problema. O laboratório Abbott é obrigado a repassar todas as informações para a fabricação da droga, treinar os profissionais brasileiros e supervisionar a produção. É ele o responsável pela qualidade do genérico que vai ser produzido. Caso o laboratório não cumpra a lei, o Brasil deve anular a patente e não pagar os royalties à empresa americana. Também é preciso vigiar para que a quebra de patentes, de fato, ocorra. Depois de anos negociando preços, o governo ainda concedeu dez dias para a Abbott reduzir o valor cobrado pelo remédio. É diplomático, mas o prazo deixa a licença compulsória para ser feita em meio às interrogações da reforma ministerial. Caso ela não aconteça, o ato fundamental para a saúde pública não terá passado de uma cena política. Fonte: http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISDA56F374ITEMIDFB13BC4BBFDA478A8672BBAB128B951CPTBRIE.htm Consultado em 12/02/2006

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Interfarma divulga nota lamentando decisão do governo sobre patente do Kaletra

2017-01-10T17:18:27-03:00junho 28, 2005|Categories: Acervo|

A Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) divulgou nota lamentando a decisão do governo em declarar a patente do Kaletra, anti-retroviral usado no tratamento da Aid, de interesse público. Leia abaixo o texto na íntegra. Interfarma lamenta decisão do governo sobre patente do Kaletra® - medicamento para AIDS A Interfarma (Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa) lamenta a medida adotada pelo Governo que resultou na Portaria nº. 985 anunciada na última sexta-feira, dia 24 de junho, declarando o Kaletra de interesse público. A Interfarma não acredita que a licença compulsória seja a melhor alternativa para a manutenção do Programa Nacional de DST/Aids, nem tampouco o caminho apropriado para a ampliação do acesso a medicamentos. Considerando a boa relação da indústria farmacêutica com o Governo brasileiro e as bem sucedidas negociações realizadas até o momento - que permitiram a manutenção do Programa e, sobretudo, quadruplicar o número de atendimentos e tornar-se referência mundial - a Interfarma crê que a continuidade das conversas entre Indústria e Governo, resultem na melhor solução para os portadores da doença, já que o objetivo de ambos é a contribuição para o aumento da qualidade e expectativa de vida destes pacientes, além da própria sustentabilidade do Programa. Além disso, a entidade não vê a necessidade da utilização do recurso de licença compulsória, uma vez que a indústria, até o momento, reduziu os preços dos medicamentos e colaborou ao máximo para o sucesso do programa. Vale ressaltar ainda que os custos dos medicamentos pagos no Brasil são considerados os menores do mundo, perdendo apenas para países como África e Haiti, que recebem ajuda humanitária. Outro aspecto importante é a possibilidade desta medida prejudicar a imagem do País no cenário internacional, bem como, resultar na suspensão de investimentos dos laboratórios de pesquisa no mercado local. Caso isso ocorra, num prazo aproximado de dois anos, devido à mutabilidade do vírus, os atuais medicamentos não terão mais a mesma eficácia, afetando diretamente a qualidade e expectativa de vida dos portadores da Aids. Como o próprio Ministério da Saúde afirmou em notas e entrevistas, esta medida não tem precedentes no mundo e, nós da Interfarma, não conhecemos nenhum paciente no mundo que esteja em tratamento com uma versão não original de Kaletra. Portanto, os brasileiros serão os primeiros a testar este genérico, assumindo também seus riscos. Fonte http://www.aids.gov.br/data/Pages/LUMISDA56F374ITEMID4A01A24DA4AA4AB4BF127BA2E5A23DE9PTBRIE.htm Consultado em 12/02/2007

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“NYT” defende que Brasil quebre patentes de remédios anti-Aids

2016-02-02T20:46:04-03:00junho 23, 2005|Categories: Acervo|

Um editorial publicado na edição de hoje do "The New York Times" defendeu a quebra de patentes de remédios anti-Aids pelo governo brasileiro. A publicação elogia o programa do Brasil de combate à Aids e ressalta que as patentes devem ser respeitadas, mas que a justificativa brasileira tem respaldo legal nos acordos internacionais e merece o apoio de Washington. O programa, que fornece tratamento gratuito para quem precisar, é viável graças à fabricação dos remédios, a partir da cópia da fórmula original, por laboratórios brasileiros. No entanto, diz o editorial, novos remédios ainda são importados e custam muito caro. O governo estuda agora medidas que permitiriam que laboratórios brasileiros pudessem copiar a fórmula desses remédios, como o licenciamento voluntário. No entanto, segundo o texto, grupos de direita e a indústria farmacêutica nos EUA classificaram a atitude de roubo e congressistas americanos pediram sanções contra o Brasil. O "NYT" diz ainda que apenas um punhado de países quebra as patentes, pois os demais "são intimidados, principalmente pelos Estados Unidos". O editorial sugere, por fim, que as autoridades comerciais dos EUA declarem publicamente que o Brasil não sofrerá retaliações, ao quebrar as patentes, "por exercer o seu direito de salvar vidas". O posicionamento do jornal recebeu a aprovação da organização Médicos Sem-Fronteiras e foi considerado "importante" pelo Ministério da Saúde. Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ciencia/ult306u13326.shtml Consultado em 16/02/2007

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As múltiplas frentes da batalha contra a malária

2016-02-02T20:46:04-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

A primeira vacina contra a malária pode estar disponível no mercado no ano de 2010, e diversas outras vacinas e medicamentos estão sendo investigados. Os remédios existentes enfrentam crescentemente o problema da resistência dos plasmódios, e uma vacina representará uma poderosa arma no combate à infecção. A doença mata anualmente cerca de 1 milhão de indivíduos, e entre 300 e 500 milhões são infectados, segundo a OMS, mas os números podem estar subestimados. Mulheres grávidas, que sofrem uma diminuição da resposta imunológica a substâncias e organismos invasores, e crianças, sobretudo as que têm menos de 5 anos, ainda não foram suficientemente expostas aos parasitas de modo a desenvolver uma defesa. As crianças representam o principal alvo da candidata a vacina mais promissora, atualmente na segunda fase dos testes clínicos, que é produzida pela Glaxo SmithKline (GSK) Biologicals, da Bélgica, e testada em parceria com a Malaria Vaccine Initative Programme for Apropriate Technology in Health (MVI-PATH). Essa organização-não governamental foi criada em 1999, com verba da Fundação Bill & Melinda Gates e objetivo específico de acelerar a pesquisa e desenvolvimento da vacina contra a malária. O alto custo do processo fez a GSK buscar parceria da MVI. Por outro lado, o mercado potencial é grande: em 2010, a equipe estima que 3,5 bilhões de pessoas habitarão áreas em que a doença é transmitida. Os resultados obtidos nos primeiros testes com crianças foram publicados na revista The Lancet, em outubro de 2004. O princípio ativo da vacina consiste no pedaço de uma proteína da superfície celular do esporozoíto, forma do Plasmodium falciparum, o mais letal dos plasmódios, que infecta o organismo humano - denominada proteína do circum-esporozoíto (CSP, sigla em inglês) -. Por meio de engenharia genética, uma parte da receita para a fabricação dessa proteína foi fundida com as instruções para produção de uma proteína de superfície do vírus da hepatite B, e a fusão foi inserida em leveduras (Saccharomyces). A substância formada, nas células das leveduras, a partir dessas instruções, se dobra de modo tal que forma partículas que geram muito mais resposta imune do que provocaria se não assumisse essa conformação. "A fusão é uma das razões, efetivamente, pelas quais obtivemos uma melhor resposta imunológica", diz Jean Stéphenne, presidente da GSK e que trabalha há mais de 20 anos nessa busca e viu muitas possibilidades serem testadas sem sucesso. Mas a vacina tem outro 'segredo': um novo adjuvante (substância que incrementa o efeito farmacológico de um medicamento ou as propriedades imuno-estimulantes de um antígeno), de propriedade da GSK, que contém na fórmula o monofosforil lipídio A (MPL) e o QS-21. "Essas substâncias estimulam diferentes aspectos do sistema imunológico, em particular, respostas humorais - produção de anticorpos -, e respostas celulares, por meio do linfócito T", explica Stéphenne. Recrutado, o linfócito ataca as células que hospedam o parasita, o que, tudo indica, é necessário para que haja, de fato, proteção, com a eliminação dos reservatórios da doença. "Para que uma vacina seja efetiva, deve ser composta de antígenos do protozoário que sejam relativamente invariáveis e essenciais para sua sobrevivência", acrescenta Shirley Longacre, pesquisadora do Instituto Pasteur, na França. Outro requerimento a ser preenchido: os antígenos têm de ser apresentados à defesa humana de modo que sejam reconhecidos como 'estranhos' e 'perigosos', provocando uma resposta imune efetiva que não resulte numa toxicidade inaceitável para o paciente. Longacre e sua equipe acreditam ter encontrado na MSP1p19, ou proteína de superfície 1 do merozoíto - forma do plasmódio que infecta as hemácias -, uma candidata com as características desejadas: para invadir as células vermelhas do sangue, o plasmódio precisa dela, que mostra pouca variação de uma linhagem a outra. Modelos animais Antes de avaliar os efeitos dos antígenos sobre o organismo humano, os cientistas lançam mão de modelos animais. No Centro Médico da Universidade Leiden, na Holanda, Andy P. Waters é membro da equipe que estuda os genes do Plasmodium berghei, que infecta ratos e camundongos de laboratório, e apresenta entre 4500 e 5500 genes equivalentes aos do P. falciparum. "Muitos genes que codificam equivalentes de antígenos candidatos a vacina contra o P. falciparum foram encontrados: CS, LSA-1, MSP-1, Pfs28, Pfs25, a lista é longa", diz. Segundo Waters, o modelo reproduz virtualmente todos os aspectos da biologia dos parasitas humanos, permite estudar as interações com o hospedeiro in vivo e representa um sistema seguro, uma vez que o plasmódio do roedor não infecta o homem. Sobre os alvos que seu grupo investiga, Waters faz segredo e diz apenas que tenta compreender os mecanismos que regem o desenvolvimento do plasmódio e a forma como ele percebe o ambiente. A partir desse conhecimento, devem desenvolver novas terapias. "Quando injetado em macacos, com os imuno-estimulantes adequados, o pedaço do MSP induz a produção por anticorpos que protegem os animais numa subseqüente exposição ao plasmódio", conta. Provavelmente, de acordo com Longacre, os anticorpos atuam de duas maneiras distintas. A primeira, ligando-se ao antígeno de superfície do merozoíto, impedindo-o de funcionar corretamente, o que inibe a invasão da hemácia. A segunda seria uma colaboração com outras células de defesa, os macrófagos; que seriam induzidos a destruir os merozoítos. O Instituto Pasteur planeja iniciar a primeira fase de testes clínicos em 2006. Entretanto, em que medida as reações imunológicas dos animais se assemelham às reações humanas? A resposta a essa questão permanece em aberto, tornando necessário o teste de antígenos candidatos diretamente em voluntários. Em laboratório, sob condições controladas, os indivíduos que se dispõem a tal são submetidos à picada do anófeles e, conseqüentemente, à infecção pelo plasmódio. Assim, os cientistas podem estudar em que consiste exatamente a resposta imunológica do organismo humano e se a imunização contra o plasmódio, de fato, requer o estímulo a respostas celulares. Corrida armamentista É comum aos protozoários se multiplicarem, atingindo a ordem de dezenas de milhares, muito rapidamente. O plasmódio, como outros protozoários que causam doença, passa grande parte de seu ciclo de vida, dividido entre três formas (esporozoíto, merozoíto e gametócito), no interior das células do hospedeiro. No homem, invade as células do fígado e os glóbulos vermelhos do sangue. Além disso, o plasmódio tem mecanismos para mudar constantemente as características que, diante da defesa do organismo, lhes servem como credenciais: os antígenos de superfície. A variação genética existente nas populações selvagens do protozoário é outro fator que dificulta o reconhecimento do 'inimigo'. "Assim, o sistema imunológico tem dificuldades em reconhecer a maioria das linhagens ou todas aquelas com que um indivíduo pode deparar, particularmente numa região de alta transmissão", explica Longacre. Outra conseqüência do polimorfismo genético do plasmódio é que ele pode proporcionar o desenvolvimento rápido de resistência contra remédios. Karen Hayton, do Laboratório de Pesquisa da Malária e Vetor, dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH, EUA), estuda as mutações genéticas que conferem resistência à cloroquina, atribuídas ao gene que seria de uma proteína transportadora, a PfCRT. "A identificação dos genes envolvidos na resistência aos medicamentos é importante para compreender e prever como a resistência a um certo remédio aparece, abrindo caminho para que os inibidores serem redesenhados", diz Hayton. Para lidar com a resistência, no Brasil, pesquisadores do Centro de Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas e Biológicas (CPQBA), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), aclimataram às condições locais o arbusto Artemisia annua. Essa planta é usada na China há milhares de anos contra a febre e representa um recurso importante contra as linhagens resistentes do plasmódio. De acordo com Adilson Sartoratto, pesquisador do CPQBA-Unicamp, um convênio deve ser assinado com a empresa Labogen, e o remédio com base na artemisinina e seus derivados pode estar disponível dentro de um ano, mas somente para campanhas de saúde pública - não será vendido em farmácias. Outro grupo que trabalha contra a resistência do plasmódio é coordenado por Luiz Hildebrando Pereira da Silva, no Centro de Pesquisa em Medicina Tropical (Porto Velho, RO), desenvolvendo pesquisas em colaboração com outros centros como a USP, a Fiocruz e o Pasteur. "Neste momento, desenvolvemos estudos e projetos ligados à resistência de antimaláricos (in vivo e in vitro) dentro de um grupo multicêntrico, ligado ao Ministério da Saúde e a OPAS", conta o pesquisador Mauro Shugiro. Outras frentes de pesquisa envolvem a busca de inseticidas ou repelentes mais eficazes, ou, por meio de engenharia genética, a criação de mosquitos incapazes de transmitir a doença. Essa última abordagem encontra um empecilho nos riscos associados à introdução deliberada de um organismo transgênico no ambiente. Diversos laboratórios no mundo se dedicam ao trabalho de prospecção de alvos potenciais, por meio da genômica e da proteômica - estudos, respectivamente, de genes e proteínas em larga escala -. "A seqüência genômica fornece informações que ajudam a identificar vias bioquímicas que não existem em humanos e poderiam, portanto, servir de alvo para drogas", afirma Malcolm Gardner, biólogo molecular do Instituto para Pesquisa Genômica (TIGR), nos Estados Unidos. Seqüências completas ou incompletas foram obtidas para os parasitas de: humanos - Plasmodium falciparum e P. vivax; roedores - P. yoelii, P. chabaudi, P. berghei; e macaco (P. knowlesi). Em 2001, foi concluído o seqüenciamento do genoma humano e, no ano seguinte, foi a vez do mosquito Anopheles gambiae. De acordo com Gardner, são diversas as aplicações potenciais. "Acreditamos poder utilizar os dados do genoma para acelerar a pesquisa e alcançar uma compreensão melhor e mais detalhada das interações hospedeiro-parasita-vetor", conta. Em relação ao mosquito, novos repelentes serão desenhados com o entendimento molecular sobre como ele encontra as vítimas a serem picadas. Quanto ao parasita, novas drogas e vacinas terão como alvo moléculas essenciais de seu metabolismo. Para os humanos, testes diagnósticos ajudarão a identificar os pacientes sob maior risco de desenvolver as formas severas da doença, como a malária cerebral. A análise das proteínas tem indicado outros alvos. "Nenhum pode, a essa altura, ser descartado", afirma H. Stunnenberg, do Centro Molecular de Ciências da Vida da Radboud University Nijmegen, Holanda. "Os estudos que realizamos vão colocar no cenário as deacetilases (HDACs, que removem grupamentos acetil) de histonas (proteínas que fazem parte da estrutura do DNA) e outras enzimas que fazem modificações epigenéticas". A epigenética é uma área florescente que investiga alterações na expressão dos genes que não estão codificadas nas quatro letras (A, T, G e C) do código genético: metilação do DNA, interferência de RNA e acetilação de histonas, por exemplo. No Instituto Oswaldo Cruz, da Fundação Oswaldo Cruz, de acordo com a pesquisadora Maria de Fátima Ferreira da Cruz, do Laboratório de Pesquisa em Malária, sua equipe tem usado os dados da proteômica e também os relativos à variação genética (polimorfismo) do plasmódio para desenvolver candidatas a vacinas. Na busca de novos medicamentos, merecem destaque os projetos que a fundação Medicines for Malaria Venture (MMV) e a MVI realizam em colaboração com empresas (não somente do setor farmacêutico), laboratórios militares, universidades e instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS). Os parceiros da MMV vêm investigando o potencial terapêutico de diversas substâncias: falcipaína, piridonas, peróxidos sintéticos, derivados do antibiótico tetraciclina, terapias que combinam diversos derivados da artemisinina e a DB289, que atualmente passa pela primeira fase dos testes clínicos. No portfólio da MVI, entre os antígenos, encontram-se: LSA-1, MSP-1, AMA-1, MSP-2, MSP-4, MSP-5, RAP-2, FMP-1 ? os dois primeiros estão em desenvolvimento pré-clínico. A lista é grande e promissora. No entanto, da identificação de moléculas potencialmente úteis ao mercado, o caminho é longo e, muitas vezes, tem de ser interrompido porque a promessa não se realiza. Como há diversas frentes de investigação, segundo os cientistas, é preciso haver também uma combinação de estratégias para haver um combate efetivo da malária. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/16.shtml Consultado em 23/02/2007

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Doença de chagas: paradoxos e ilações

2016-02-02T20:46:05-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

Embora os surtos da doença de Chagas recentemente ocorridos em Santa Catarina e no Amapá fossem de curta duração, o seu tratamento pelas autoridades e pela mídia, e o seu efeito sobre a população dão vazão para ilações importantes. O surto em Santa Catarina parece ter começado quando, em meados de fevereiro, viajantes na BR-101 pararam em um quiosque perto de Navegantes, a 113 km de Florianópolis, e ingeriram caldo de cana contaminado com Trypanosoma cruzi. No início de março apareceram as primeiras notícias assustadoras do acometimento de dezenas de pessoas com doença febril, diagnosticada como doença de Chagas aguda; houve seis fatalidades. Os pronunciamentos pretensamente tranqüilizadores das autoridades sanitárias pouco esclareceram. “Há um clima de pavor sem necessidade." "Confirmada a doença, existe remédio, tem tratamento, não tem problema nenhum." "A situação está precisamente esclarecida, o que dá uma segurança maior para saber quais pessoas estariam expostas à contaminação" (Luis A.Silva, diretor da Vigilância Epidemiológica–SC). E, dentro de poucos dias, o silêncio. (Deve ser lembrado, porém, que, não fosse a coincidência desses noticiários com a doença e morte do Papa, que ofuscou todos os demais eventos do período, possivelmente o surto teria continuado por mais tempo a atrair a atenção da mídia e do público.) Mais notáveis ainda foram os comentários oficiais sobre o surto no Amapá, que antecedeu o de Santa Catarina. A Nota Técnica de 4/4/2005 da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde (SVS) informa que "em 3l de março recebeu relatório do Instituto Evandro Chagas/PA sobre a investigação de um surto de doença febril aguda, na localidade denominada Igarapé da Fortaleza/AP, ocorrido de 4 a 19 de dezembro de 2004..." Exames preliminares sugeriram doença de Chagas. "A coleta de sangue das pessoas contaminadas foi feita em fevereiro, mas o resultado dos exames estava sob sigilo da Secretaria de Saúde. Apesar do número elevado de pessoas contaminadas, a Divisão de Epidemiologia descarta a ocorrência de surto da doença no Estado... A epidemia não existe porque não foi encontrado o barbeiro. 'Por isso, afirmamos que esses casos são acidentais. A exemplo do que ocorre em Santa Catarina, no Amapá a contaminação não está acontecendo de forma clássica, ou seja, com o paciente sendo picado pelo mosquito" (sic).(Clóvis O.Miranda, chefe da Divisão Epidemiológica da Secretaria Estadual de Saúde) (Itálicos R.L.) Note-se que só foi mencionado o número de pessoas acometidas (26); nada foi dito sobre a morbidade ou mortalidade do surto. Longe de tranqüilizar a população, essas afirmações, que beiram o grotesco, só serviram para aumentar a insegurança geral. Nem foi outro o efeito da declaração do Ministro da Saúde, doutor Humberto Costa, em Petrolina-PE a 8 de abril. Esses pronunciamentos e suas implicações são analisados no meu artigo "Do caldo de cana ao suco de açaí", publicado pelo Jornal da Unicamp em 11 de abril (parte I) e 9 de maio (parte II).[1, 2] Nele, critico a desinformação oferecida ao público, exemplificada pelos trechos citados, e questiono por que os resultados dos exames no Amapá foram mantidos sob sigilo da Secretaria de Saúde durante semanas. "Isso equivale a esconder da população o perigo iminente de contrair a doença de Chagas, ao passo que toda a região amazônica deveria ter sido alertada, em termos que não deixassem dúvida, do risco de ingerir polpa ou suco cru de açaí, mormente porque já era conhecida a transmissão por via oral, e pela contaminação da mesma fruta! Essa simples precaução de evitar a polpa e o suco crus teria sido mais eficaz do que qualquer outra medida ..." O artigo atendeu ao pedido de várias pessoas, preocupadas como eu com a quase total ignorância do público (e, diga-se de passagem, de muitos médicos) quanto aos fatos básicos da doença. Objetivando contrabalançar o "espúrio senso de segurança [criado] pelas afirmações das autoridades sanitárias...", enfatiza a necessidade e urgência de "esclarecimentos sobre (1) causas, transmissão e manifestações da doença, e sua prevenção; (2) as medidas de controle; (3) o significado e os limites do controle." Tentei preencher esses desideratos na medida do possível, mas o espaço reservado ao artigo só permitiu a abordagem de uma fração dos problemas. Ficaram em aberto questões cruciais: a inexistência de dados epidemiológicos sobre a doença, que impede um conhecimento mesmo aproximativo de suas dimensões; a assistência médica e social ao chagásico crônico sintomático, e a discriminação que sofre no mercado de trabalho; o desmantelamento das estruturas de vigilância e controle locais e intermunicipais e dos elos com as comunidades, e muitos outros problemas; além daqueles mais especificamente médico-científicos que ultrapassam o âmbito da divulgação geral. E uma dúvida recorrente: por que a doença de Chagas, numericamente muito mais importante do que a aids, só atrai a atenção da mídia e do público na iminência de um desastre que ameaça alastrar-se além das classes normalmente expostas ao contágio, e recai no esquecimento assim que o perigo parece ter passado? Em parte, esse estado de coisas pode ser visto como seqüela dos acontecimentos após a Segunda Guerra Mundial, quando as descobertas das sulfonamidas e sobretudo dos antibióticos pareciam prenunciar o fim de todas as doenças contagiosas. A euforia durou pouco, porém, e a explosão do conhecimento científico nas décadas seguintes transformou o mundo, e trouxe mudanças radicais na visão da sociedade sobre os problemas da saúde e doença. Encontram-se motivos de sobra, socioeconômicos e políticos, que explicam o subseqüente desinteresse das autoridades e da indústria farmacêutica pelas doenças endêmicas no terceiro mundo.[3] De outra parte, o vaivém do pêndulo entre expectativa e decepção, ambas exageradas, é um dos paradoxos que caracterizam a nossa sociedade e o nosso tempo, tal como o descompasso entre o potencial virtualmente ilimitado da ciência e tecnologia e a sua aplicação em benefício da humanidade.[4] Assim, o homem explora os mistérios do espaço cósmico, enquanto grande parte da humanidade vive ao relento; "1100 milhões de pessoas carecem de acesso a água potável;... 2400 milhões ... não têm acesso a serviços de saneamento adequados;... e morrem diariamente cerca de 6000 crianças devido a doenças ligadas à água insalubre e a... saneamento e higiene deficientes..."(OMS) Embora as técnicas modernas multipliquem a capacidade de produção agrícola, todo ano a fome e subnutrição fazem milhões de vítimas. A ciência e tecnologia parecem empenhadas em uma corrida desenfreada para encontrar novos apetrechos, novos botões a apertar, para aumentar o conforto de uma fração ínfima da humanidade, inacessível à imensa maioria, ao mesmo tempo que multiplicam de forma inconcebível o poder destrutivo dos armamentos. "O descompasso entre a pesquisa e a ação" [5] é apenas um dos paradoxos na medicina, de conseqüências trágicas para incontáveis milhões. A medicina preventiva, instrumento por excelência da Saúde Pública cuja importância Oswaldo Cruz e Carlos Chagas não se cansavam de ressaltar, é uma disciplina que atrai poucos candidatos à especialização. A glória (merecida) é da cirurgia, capaz de substituir órgãos deficientes, prolongando a vida de pacientes ainda há pouco sem qualquer esperança de tratamento. Também merecem destaque os avanços espetaculares na pesquisa médica, que capacitam o clínico a aliviar, se não curar, moléstias antigamente consideradas insuscetíveis de qualquer tratamento. Mas a vasta maioria dos males que acometem o homem não requer tratamentos sofisticados, e sim cuidados básicos e uma orientação dirigida à prevenção. Todavia, populações inteiras não têm acesso a assistência médica de qualquer espécie, nem se falando de água limpa e saneamento básico, problema não médico, senão socioeconômico e político (v.acima). O que falta sobretudo, porém, é informação adequada, isto é, educação sanitária. Ao invés disso somos bombardeados pela mídia com pretensos dados médicos, a maioria (com raras e honrosas exceções) mascarando um marketing importuno de procedimentos ou produtos descabidos, inócuos ou francamente nocivos. Inclui-se nesta categoria a propaganda de medicamentos de toda espécie ("Ao persistirem os sintomas..."). Dados não são informação; informação não é conhecimento; conhecimento não é sabedoria. Tais montes de dados desconexos não equivalem minimamente a informação, que dirá conhecimento. Mas essa glorificação do inútil, além de induzir à automedicação, ocupa um espaço importante: o da verdadeira educação sanitária. Além disso contribui para o descompasso entre o conhecimento médico e sua aplicação. Descompasso particularmente significativo na doença de Chagas, cujo descobridor foi um dos maiores cientistas do Brasil e do mundo. Porém, apesar de suas contribuições monumentais à ciência médica universal, ele é virtualmente esquecido no seu país. Eis outro paradoxo, cuja causa mais importante é, sem dúvida, a campanha difamatória deslanchada contra ele pelos seus colegas na Academia Nacional de Medicina e na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Liderados por Afrânio Peixoto e seus partidários, movidos por ciúme e ambições pessoais, profissionais e políticas, infernizaram a vida do genial cientista durante anos. Em dezembro de 1922 a polêmica chegou ao plenário da Academia, onde os debates se prolongaram durante um ano, terminando com a derrota da cabala; entretanto, os seus efeitos deletérios perduram até hoje. Em seu livro Meu pai, Carlos Chagas Filho analisa a campanha e suas conseqüências. A situação política e socioeconômica em que se desenrolou a contenda é descrita com vivacidade no livro de Benchimol e Teixeira, Cobras, lagartos & outros bichos, que ressalta a rivalidade entre os Institutos Oswaldo Cruz e Butantan, e os problemas homéricos criados aos cientistas e institutos pelas rixas entre oligarquias e governos, verdadeiras "guerras de foice" por verbas e poder. O resultado mais nocivo da campanha foi sem dúvida o seu efeito persistente sobre o ensino e pesquisa da doença de Chagas no Brasil. "Tanto Emmanuel Dias como Amílcar Vianna Martins sempre mantiveram que ... o oblívio se originou e se ampliou em um forte esquema de desconhecimento programado que as escolas de medicina passaram a adotar quanto à doença e seu descobridor, provavelmente em função de: (a) a influência direta de Peixoto e sua turma; e (b) o obscurantismo universitário e a falta de uma massa crítica com nível e coragem para ajuizar os fatos..." (J.C.Pinto Dias, comunicação pessoal) Embora a doença de Chagas passasse a constar dos mais importantes tratados de medicina nas línguas inglesa, alemã e francesa, e fosse ensinada nas mais importantes escolas de medicina do mundo, por incrível que pareça, no nosso país ela foi suprimida durante anos a fio, tanto nos livros quanto no ensino em sala de aula ou hospital, e, conseqüência inevitável, a sua pesquisa foi virtualmente paralisada.[3] O quadro só se reverteu muitos anos depois da morte de Chagas. Finalmente, é provável que a campanha contra Carlos Chagas tenha lhe custado o Prêmio Nobel.[3] [1] www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ jornalPDF/ju283pag02.pdf [2] www.unicamp.br/unicamp/unicamp_hoje/ jornalPDF/ju287pag02.pdf [3] R.Lewinsohn, Três Epidemias: Lições do Passado.Campinas,Editora da Unicamp, 2003. [4] R.Lewinsohn, Medical Theories, Science, and the practice of medicine. Soc.Sci.Med. 10, 1260-1271. 1998 [5] J.C.P.Dias, Doença de Chagas e a questão da tecnologia. Bol. Of. Sanit.Panam.,.99/3, 244-257. 1985. Formada pela Faculdade Fluminense de Medicina, a autora fez pós-graduação nas universidades de Londres e Cambridge, Inglaterra. Pesquisou, lecionou e ministrou cursos de História da Medicina na FCM da Unicamp. Autora de livro (v.ref.3), aposentada, continua ativa como professora colaboradora voluntária da Unicamp. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/11_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

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Leishmaniose Visceral Americana: doença emergente no estado de São Paulo

2017-01-10T17:18:28-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

A leishmaniose visceral (LV) é uma doença infecciosa e originalmente uma zoonose que afeta animais e o homem. Tem como agentes causais espécies de protozoários do gênero Leishmania (ordem Kinetoplastidae, família Trypanosomatidae) dependendo da localização geográfica e, da mesma forma, tem como agentes transmissores diferentes espécies de insetos, denominados flebotomíneos, pertencentes à sub-família Phlebotominae, dos gêneros Phlebotomus sp e Lutzomyia sp. No Brasil a doença, também chamada de leishmaniose visceral americana (LVA) ou calazar neo-tropical, é causada pela Leishmania chagasi e as espécies envolvidas com a transmissão são a Lutzomyia longipalpis, o principal vetor, e L. cruzi. A LV está entre as seis doenças mais importantes causadas por protozoários no mundo dado a sua incidência, alta mortalidade em indivíduos não tratados e crianças desnutridas, e emergência em indivíduos portadores da infecção por HIV. Tem ampla distribuição geográfica ocorrendo na Ásia, na Europa, no Oriente Médio, na África e nas Américas. O número estimado de casos, por ano, é de cerca de 500 mil casos novos, sendo que 90% deles ocorrem em Bangladesh, Brasil, Índia e Sudão. Na América Latina a doença já foi descrita em pelo menos 12 países, sendo no Brasil aquele em que se registra o maior número de casos (cerca de 90% do total notificado). No Brasil, a LVA atinge 19 estados e anualmente são registrados cerca de 3.500 casos. Até a década de 90, a região Nordeste foi a que registrou os maiores coeficientes de incidência e contribuiu com 90% dos casos registrados no país. Ao final dessa década, observa-se além do aumento do número de casos, uma expansão da área de distribuição geográfica da doença para outras regiões brasileiras atingindo estados onde a doença era desconhecida, como o estado de São Paulo. Isto se deu em virtude da modificação do padrão de transmissão, antes uma enfermidade quase exclusivamente de ocorrência rural e, recentemente, a transmissão vem ocorrendo em zonas urbanizadas de grandes cidades como Fortaleza - CE, Teresina - PI, Campo Grande - MS, Belo Horizonte - MG, Araçatuba e Bauru no ESP. Entre os fatores que contribuíram para essa mudança de comportamento destacam-se as modificações sócio-ambientais como o desmatamento, que reduziu a disponibilidade de criadouros do vetor, fazendo que houvesse a sua adaptação para novos ecótopos e da oferta de animais que servissem como fonte de alimentação para o flebotomíneo, colocando o cão doméstico e o homem como alternativas mais acessíveis; e o processo migratório, que trouxe para as periferias das cidades populações humana e canina originárias de áreas rurais, onde a doença é endêmica, introduzindo o parasito em novas áreas receptivas para a ocorrência da doença. No estado de São Paulo, a espécie de flebotomíneo envolvida com a transmissão da LVA é a L. longipalpis, que já havia sido registrada em zonas rurais de municípios situados no Planalto Atlântico Paulista. Em zona urbana, a espécie foi registrada pela primeira vez em 1997, no município de Araçatuba, na região do Planalto Ocidental, onde até então sua presença era desconhecida. Desde então, verifica-se que a expansão e a adaptação do vetor aos ecótopos urbanos vêm ocorrendo lentamente, tendo sido registrado, inicialmente, em municípios contíguos à Araçatuba e, depois, naqueles que estabeleceram fluxo migratório de pessoas e mercadorias com os municípios da região de Araçatuba. Posteriormente, foi detectada em outras regiões administrativas, como Bauru, Marília e Presidente Prudente, seguindo pelos grandes eixos rodoviários e ferroviários. No início de 2005, a L. longipalpis foi detectada pela primeira vez em zona urbana de município situado na região Planalto Atlântico, com características macro climáticas diferentes, mostrando o alto potencial de adaptação do vetor à ambientes diversos. Até o momento, a L. longipalpis foi registrada em zona urbana de 56 municípios do estado (figura 1). Sendo essa a única espécie relacionada com os focos de transmissão da doença, embora na região metropolitana de São Paulo a ocorrência da enzootia canina leve a supor que haja outra espécie de flebotomíneo que possa estar envolvida com a transmissão ou mesmo a existência de outro modo de transmissão, o que ainda deve ser elucidado. Figura 1: Distribuição de Lutzomyia longipalpis no estado de São Paulo. No ambiente domiciliar, o peridomicílio destaca-se como o local onde o vetor é encontrado em maior densidade. Está relacionado à presença de animais domésticos, sendo os abrigos de animais considerados os locais mais importantes de criação e de repouso de L. longipalpis em área urbanizada. As fêmeas desta espécie têm demonstrado alta cinofilia, como também antropofilia, confirmando assim seu papel de vetor da LVA. Historicamente, no estado de São Paulo, a LVA era conhecida pela detecção de casos importados, oriundos de outras regiões endêmicas do país. Em 1998, a transmissão canina foi registrada pela primeira vez no município de Araçatuba. Posteriormente, em 1999, foi registrado o primeiro caso humano de LVA e, desde então, a doença vem ocorrendo em municípios situados na região do Planalto Ocidental Paulista, nos quais a transmissão tem feição exclusivamente urbana. A enzootia canina, desde a sua primeira detecção até maio de 2005, foi registrada em 41 municípios abrangendo as regiões de Araçatuba, Bauru e, mais recentemente, Marília, além da região metropolitana de São Paulo e a possibilidade de ocorrência de transmissão canina no município Espírito Santo do Pinhal, ainda em investigação. Desses, em 28 municípios a transmissão em seres humanos já foi notificada (figura 2), tendo sido notificados, ao Centro de Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde do estado de São Paulo, 534 casos humanos e 65 óbitos. Figura 2: Distribuição de municípios com transmissão de leishmaniose visceral americana canina e humana, no período de 1998 a 2005. Estado de São Paulo. No estado de São Paulo, observa-se que o maior número de casos ocorreu naqueles municípios com as maiores prevalências caninas, verificando-se uma relação espaço-temporal, na qual a doença em cães, na grande maioria das vezes, precedeu a detecção de casos humanos, principalmente em municípios onde o vetor já havia sido registrado anteriormente. Embora não se possa estabelecer uma relação causa-efeito, a ocorrência da LVA em seres humanos tem também como fator de risco a ocorrência da LVA em cães e esta à alta densidade da população canina. O programa de controle da LVA aplicado no Estado consiste nas ações de vigilância epidemiológica, na detecção e tratamento oportuno dos casos humanos; na vigilância entomológica e controle da população canina infectada e da densidade vetorial. No que se refere à vigilância entomológica, esta visa detectar a presença e dispersão de L. longipalpis, além de permitir conhecer sua distribuição nos centros urbanos e aglomerados rurais, monitorando, ainda, a variação sazonal dos níveis de infestação e adaptação do vetor. O controle da população canina consiste, principalmente, na eliminação dos animais errantes; na busca ativa e eliminação de cães infectados, detectados através de exame parasitológico ou sorologia positiva. As ações de controle vetorial vêm sendo realizadas por meio de atividades de saneamento ambiental, em todos os setores do município em que vetor já foi detectado. A fim de reduzir os locais prováveis de criação do vetor ou de repouso, está embasada no controle mecânico, a partir da retirada de matéria orgânica do peridomicílio e na poda de galhos e arbustos que possam fornecer condições de estabelecimento de locais para repouso e criação do vetor. O controle químico vem sendo realizado nos meses favoráveis ao aumento da densidade do vetor, restrito às áreas de ocorrência de casos humanos e que reúnam as condições que indiquem maior risco de manutenção do ciclo de transmissão da doença. Entre elas, alta densidade populacional de cães e prevalências caninas superiores a 2%, ocorrência de casos humanos há mais de dois anos e população com baixo nível sócio econômico. Apesar dos esforços para atingir os objetivos, a transmissão da LVA transcorre nas formas subclínicas com o registro de casos novos todos os anos. O município de Araçatuba é o que registra o maior número de casos. Entre os municípios investigados anualmente, observa-se que a expansão da doença vem se dando na medida em que vem ocorrendo a adaptação da Lutzomyia longipalpis em novos municípios, verificando-se que a epizootia canina, na maioria dos municípios, precedeu o aparecimento dos casos humanos. O risco de expansão aumenta a partir do momento em que grandes pólos de atração migratória passam a registrar a doença, como o município de Bauru e, mais recentemente, embora de pequeno porte, os municípios da região de Marília. Na grande maioria das vezes, a introdução do parasito ocorre pelo envio de cães assintomáticos, para outras áreas a fim de que estes não sejam eutanasiados pelos órgãos de controle ou mesmo pela doação de cães assintomáticos oriundos de áreas endêmicas, levando com isso ao estabelecimento de transmissão da doença entre os cães e, conseqüentemente, da transmissão para seres humanos. A LVA é uma doença de difícil controle, dado ao longo período de incubação tanto no reservatório doméstico como no hospedeiro humano, não se sabendo ao certo onde poderá vir a ocorrer. As ações de controle do vetor por meio de aplicação de inseticidas de ação residual, é uma medida de pouco impacto e deve ser aplicada em situações epidêmicas de modo a baixar a densidade vetorial rapidamente, já que esta alternativa atingiria apenas a forma alada do vetor, não extinguindo os criadouros. O tratamento de cães, também não é uma medida eficaz, uma vez que não redime o animal como fonte de infecção para o vetor. Portanto, as ações de controle, atualmente propostas devem ser contínuas e avaliadas a cada ano, para que os objetivos propostos possam ser atingidos, principalmente o de redução da mortalidade humana. A descontinuidade das ações de controle, tanto aquelas relacionadas ao reservatório doméstico como as relacionadas ao vetor, é um fator que favorece a manutenção da transmissão. Medidas alternativas como a utilização de mosquiteiros impregnados com inseticidas, a telagem de portas e janelas de domicílios situados em áreas endêmicas, pode minimizar o risco de transmissão. A utilização de coleiras impregnada com deltametrina, também vem a ser uma alternativa de proteção contra aplicada para o flebotomíneo e sua utilização em programas de saúde pública vem sendo avaliada com resultados promissores. Vera Lucia Fonseca de Camargo-Neves Superintendência de Controle de Endemias - Sucen, Coordenadoria de Controle de Doenças, Secretaria de Estado de Saúde de São Paulo. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/17_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

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Novos fármacos para as doenças tropicais, a indústria farmacêutica, o Estado e nós

2016-02-02T20:46:05-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

As doenças tropicais são marcadas pelo estigma do exótico e do grave. Quem não tem na mente a figura do paciente com elefantíase, o tremor do paciente com malária, ou as feridas imaginadas dos hansenianos? Nesse espectro folclórico, a origem dessas doenças está associada à pobreza ou à aventura. Se as pessoas viajam ou trafegam em regiões novas, podem contrair as doenças que lá ocorrem e que são diferentes das que estão habituadas em sua região. Com as grandes navegações, os europeus colonizadores foram expostos a doenças desconhecidas das regiões tropicais e associaram a estas regiões a medicina dos viajantes, criando uma medicina de portos ou medicina tropical, ou a medicina das doenças exóticas. Isto é uma meia verdade. Países desenvolvidos como o EUA e a Espanha convivem com doenças desse tipo e a aids veio dos países tropicais para o "mundo" sem haver relação com o clima. Em geral, as doenças tropicais desaparecem pela melhoria das condições sanitárias e higiênicas de uma população, o que explica em grande parte a sua aparente ausência em países desenvolvidos. A maioria dos pacientes dessas doenças vive nas regiões mais pobres do mundo, com Estados desorganizados, empobrecidos e em freqüente beligerância interna. Esse quadro é piorado pelas associações de doenças com a fome crônica, gerando um quadro caótico, com milhões de mortes anuais, como na África Sub-Saariana. Mesmo no Brasil, as doenças estão restritas a bolsões de pobreza e o número de casos caiu significativamente, mas ainda temos nilhões de pessoas em risco de contrair essas enfermidades. A preocupação com a prevenção e o tratamento dessas doenças sempre existiu, já que são de importância estratégica. A malária praticamente extinguiu a elite ateniense de Péricles no cerco a Siracusa e causou mais baixas americanas na Guerra do Vietnã que o exército Vietcong. Até hoje, missionários religiosos morrem nos países tropicais, sucumbindo a infecções e é freqüente a morte de viajantes em seu retorno, pelo desconhecimento dos médicos “desenvolvidos” sobre essas terríveis doenças exóticas. Nos últimos 30 anos, houve um aprimoramento das condições sanitárias mundiais, mas mantiveram-se bolsões de extrema pobreza não somente em países tropicais ou em desenvolvimento, mas também em desenvolvidos, em guetos e áreas empobrecidas. Nestas áreas, estão presentes as causas e crescem também os vetores de doenças infecciosas, como a dengue, encefalites e leishmaniose. Nos países em desenvolvimento, os centros urbanos mais ricos e áreas de agricultura intensiva, como ocorre no Brasil, afastaram a maioria das doenças tropicais das cidades e da sua população, restringindo-as às áreas menos favorecidas e de colonização mais recente. As equipes de saúde passam a ter menos experiência com estas doenças, pela distância dos focos de transmissão e pelo contato com um menor número de pacientes - e a vigilância cai. Se a montanha não vai a Maomé, vamos a montanha. O ecoturismo e as viagens turísticas ou privadas aumentaram muito e passaram a colocar em risco os turistas, atletas e técnicos. Recentemente pudemos acompanhar a febre amarela de um médico da mídia e a leptospirose em equipes de competição. Esse é um novo aspecto das doenças tropicais, uma verdadeira colonização da área desenvolvida sobre as áreas menos favorecidas, até mesmo de um único país, como no subcontinente brasileiro. Como é uma pandemia, a aids não será incluída nestas considerações, restrita às doenças tropicais mais conhecidas. Apesar de um quadro favorável de diminuição do número de pacientes, com as chamadas doenças tropicais a situação mantém-se perversa, porque estes estão entre os mais pobres e os excluídos sociais. Assim, somente o Estado pode prover os recursos para diagnóstico e tratamento. O conhecimento sobre o tratamento de uma determinada doença vem do próprio povo afetado e as doenças tropicais não são exceção. O quinino, que representou o marco de tratamento da malária, não foi encontrado na Europa, mas sim na Bolívia. O uso de antimoniais foi descoberto no Brasil para as leishmanioses. Muito do conhecimento foi adquirido pela pesquisa local no desenvolvimento de fármacos, mas isso praticamente parou nos últimos 20 anos, preferindo-se tentar associações de fármacos conhecidos. Excetuando-se a miltefosina, um potencial remédio para a leishmaniose, e os antivirais específicos para o HIV, o arsenal desenvolvido para as doenças tropicais tem mais de 20 anos. Ninguém se pergunta por que isso ocorreu, embora a OMS reclame e chame as doenças tropicais de negligenciadas. Realmente, não há um apelo econômico para o desenvolvimento de novos fármacos contra as doenças tropicais no modelo econômico prevalente nos últimos 30 anos. Nos conceitos neoliberais recentes, a produção está diretamente relacionada ao lucro e não ao bem-estar. Até os anos 60, havia uma preocupação real com a melhoria das condições sociais nos países. A idéia era ter uma população feliz, com uma boa casa e condições adequadas de vida. Lembra aqueles desenhos da Seleções do Readers’ Digest, a familia feliz lavando o carro na frente da casa, com as crianças brincando e o pai e a mãe abraçados? O modelo econômico mudou e a unidade econômica passou a ser o indivíduo isolado, cada qual cuidando do seu destino, mas também de sua saúde. Nesse contexto, cada indivíduo deve ser capaz de adquirir sua medicação, que passou a ser um importante item de avaliação de renda. Esse conceito gerou um aumento enorme no lucro da industria farmacêutica, criando nova ética para medicamentos. Hoje é muito freqüente o anúncio de medicamentos na mídia, para uso e depois consulta ao médico. Compre, teste e se não melhorar; a culpa aqui é sua; vá então ao médico. Isto é mercadológico e causou um impacto muito alto no custo final do medicamento. Hoje cerca de 90% do custo do fármaco é marketing e, na indústria privada, os centros de pesquisa e desenvolvimento são subordinados ao marketing. Nesse contexto, é lógico que teremos Viagras, Cialis e Prozacs e não fármacos para as doenças tropicais. Quem estará interessado em produzir para quem não tem como pagar? Ou produzir para um pequeno número de turistas infectados? Ou ainda participar de licitações para vender uma única partida de medicamento por um ano, sem venda a varejo? Um exemplo triste é o da leishmaniose no Brasil. Temos 20000 casos por ano, que deveriam receber 20 ampolas de 5 ml do remédio, que dá um consumo real anual de 2000 litros ou duas toneladas,um processo industrial muito pequeno e um volume de comércio irrisório. Não há interessados na produção e o Ministério da Saúde tem que fomentar o fabricante. Não se sabe como isso evoluirá, mas explicar aos seus acionistas um prejuízo com fármacos para doenças tropicais é um problema. Os acionistas querem lucrar e jogar a culpa no Estado, ele que cuide dessas mazelas. Desde o princípio, era ainda mais complicado se o remédio tivesse algum tipo de segredo. Quando os jesuítas controlavam o uso da quina, o pó dos jesuítas, contra a malária eles usaram a sua difusão seletiva como elemento estratégico de controle de nações e governantes. A história da quebra do segredo é cheia de aventura e mortes e a própria agressão aos jesuítas mostra uma reação dos Estados nacionais contra a primeira multinacional farmacêutica, a Companhia de Jesus. Hoje não é muito diferente. Como não haverá retorno econômico, a indústria espera pelo menos um retorno político. Embora imensos mercados populacionais estejam se formando na Ásia, com China, Índia e vizinhos, e na América do Sul, com a urbanização dos países, esses mercados na realidade estão mudando de perfis de fármacos, passando daqueles específicos para as doenças tropicais para os convencionais e já desenvolvidos fármacos de doenças crônicas, da terceira idade e do prazer. A melhoria das condições sociais e a urbanização eliminam os ambientes de crescimento de vetores, em especial os Anopheles, da malária, e aumentam o de outros, como os Aedes, da dengue, alterando o perfil das epidemias esperadas. Além disso, o uso maior da água e dos recursos hídricos, com maior recirculação, favorece as doenças de transmissão oral como a cólera e os rotavirus. Nesse contexto, insere-se um novo risco ao desenvolvimento de fármacos, que é o risco individual. No modelo social, toda ênfase era dada à prevenção das doenças e ações de prevenção e higiene, com menor ênfase na terapia. No novo modelo, a segurança do uso do fármaco é garantida pela indústria e, se um fármaco tiver efeitos colaterais em poucos pacientes, mas com grande impacto econômico, processos reparatórios, etc., todo o eventual lucro pode desaparecer em instantes e um enorme problema para a indústria pode surgir. Isto foi recentemente realçado pelos processos contra a indústria fabricante de um anti-malárico usado na prevenção de malária em turistas, que causou psicose em um pequeno número, com vultosas reparações. Esse é o modelo da saúde individual, você compra um remédio seguro que deve resolver seu problema sem efeitos colaterais ou a empresa deve pagar por isso. Isso não é só para esses fármacos, mas para todos eles e virou uma nova maneira de compensação do lucro destas indústrias nos Estados nacionais com justiça e regulamentos fortes. Para se aprovar qualquer fármaco, um chá de erva cidreira em pó, são necessários todos os testes de segurança e toxicidade -- entre US$ 5-10 milhões de gastos. Apesar de existirem resultados adequados em outros países, cada Estado tenta controlar novos gastos com importação de fármacos, testando no país cada novo produto. A multiplicidade de países, as diferentes etnias, os hábitos culturais levam a diferenças entre as nações obrigam a estes testes mas aniquilam qualquer eficiência de custo de desenvolvimento de um fármaco para as nossas doenças. A nova droga precisa de uma venda e uma vida média que justifique o investimento e assegure o retorno, sem esquecer da concorrência. Nesse ponto, lembramos a importância da universidade pública e dos sistemas de saúde pública locais. No meu entender, só um pequeno número de fármacos para estas doenças foi desenvolvido pela industria farmacêutica privada. Um exemplo é a ivermectina para o tratamento da cegueira causada pela Oncocerca na África, mas a indústria preferiu transferir tudo para a OMS, para economizar no marketing e permitir a disseminação do produto. Na maioria dos casos, os produtos foram desenvolvidos nos próprios países interessados, quer sejam aqueles com grande número de casos, ou aqueles com interesses estratégicos. Apesar disso, os governantes assumem hoje posturas neoliberais, declinando do custeio da pesquisa para novas descobertas ou então com programas pouco eficientes de desenvolvimento de fármacos em cada país, geralmente vinculados a possíveis patentes. Embora existam, no Brasil, empresas governamentais capazes de produzir e distribuir fármacos, como a FURP e a FarManguinhos, a universidade não consegue transferir seus conhecimentos rapidamente para a produção e o impacto social, justamente devido a mecanismos de restrição de proteção individual, que afastam até as estatais da produção de novos fármacos. Essas empresas apenas se dedicam à produção de genéricos, que são fármacos testados por outros e que tem consolidada sua eficácia e segurança. Não é competência da universidade a produção e a toxicologia prospectiva de um fármaco. A pesquisa universitária é cientifica e aberta, disponível para a concorrência, sem uma proteção para o lucro, diferente da visão mais tecnológica e comercial necessária à indústria. Não adianta somente criar massa crítica adequada, como Cingapura tem proposto em joint-ventures com indústrias farmacêuticas ou nos nossos programas brasileiros de pós-graduação, para depois desempregá-los por razões de custo, num sistema industrial onde o vendedor é o chefe do cientista. Isto é tipicamente individualista e não voltado para o aprimoramento do bem estar da sociedade como um todo. Temos que definir o que queremos como sociedade para todos nós. É licito morrer de leishmaniose visceral por falta de fármaco? Será aceitável a morte por aids? Valemos o que somos ou o que temos? No atual modelo, o último homem herdará toda a Terra e seus bens. Faça bom proveito. Heitor Franco de Andrade Júnior é professor do Instituto de Medicina Tropical da Universidade de São Paulo Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/15_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

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Novos medicamentos: responsabilidade de quem?

2017-01-10T17:18:28-03:00junho 10, 2005|Categories: Acervo|

A produção de novos medicamentos para as chamadas doenças tropicais, ou de forma mais genérica, doenças negligenciadas é considerada insuficiente tanto em países desenvolvidos quanto em países em desenvolvimento. As indústrias farmacêuticas constituem um setor altamente monopolizado e lucrativo, que necessita de grande investimento em P&D. Seguindo a lógica empresarial, os altos investimentos implicam na produção de fármacos que ofereçam maior segurança de retorno financeiro. Como os atingidos pelas doenças tropicais vivem justamente nos países em desenvolvimento - mais pobres - não é difícil entender porque as doenças tropicais se tornam também doenças negligenciadas pelos grandes laboratórios farmacêuticos. Algumas estatísticas sobre o setor mostram que as grandes empresas farmacêuticas não apenas estão concentradas em países desenvolvidos, mas também vendem e produzem basicamente para esses países. Os maiores produtores mundiais de medicamentos são respectivamente América do Norte (50%), Europa (24%) e Japão (13%). Toda América Latina é responsável por apenas 5% dos medicamentos produzidos. De outro lado, 80% da população mundial é responsável pelo consumo de cerca de 20% dos remédios produzidos e apenas 10% das pesquisas de saúde são dedicadas a doenças negligenciadas. Segundo o documento Desequilíbrio Fatal produzido pela organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) e pelo Drugs for Neglected Diseases (DNDi) das 1393 novas drogas descobertas entre 1975 e 1999, apenas 15 destinaram-se a doenças negligenciadas - cerca de 1% - apesar de essas doenças representarem mais de 12% das enfermidades mundiais. Dentre os 13 medicamentos produzidos para doenças tropicais nesse período, 6 foram feitos com apoio do programa Treinamento para Doenças Tropicais (TDT) financiado pela Organização das Nações Unidas (ONU), Banco Mundial e Organização Mundial de Saúde (OMS), que destinou U$ 30 milhões anuais para o TDT. Esse quadro deixa claro que dificilmente o setor privado vai resolver o problema de saúde que envolve a produção e melhora na eficiência de fármacos que combatem as doenças infecciosas tropicais. Por falta de remédios ou inexistência de tratamentos adequados, essas doenças matam, por ano, cerca de 14 milhões de pessoas no mundo. A solução, então, dependeria muito mais de esforços de laboratórios, institutos e entidades de caráter público, e também de ações públicas que incentivassem a produção desses medicamentos por empresas privadas. "Na parte de controle de vetores que transmitem doenças tropicais temos conseguido avançar, na parte de detecção dessas doenças também. Mas, a produção de novos medicamentos para doenças tropicais ainda constitui um grande hiato para o sistema de saúde brasileiro", confirmou Carlos Magno Castelo Branco Fortaleza, médico e superintendente da Superintendência de Controle de Endemias (Sucen). Para o médico, a emergência de doenças como hantavirose, febre maculosa e leishmaniose visceral - que voltaram a crescer em alguns locais do estado de São Paulo - reforçam a necessidade de fornecer tratamentos melhores e formas de detecção mais efetivas. "A tuberculose, por exemplo, é considerada uma doença negligenciada que atinge uma fatia importante da população mundial e mesmo assim não é produzida uma droga nova para seu combate há 30 anos. É lógico que se houvesse mais investimentos, poderíamos ter hoje uma vacina mais efetiva para tuberculose como já ocorre com o sarampo e outras enfermidades", analisou o médico (leia artigo que fala sobre nova vacina para tuberculose. Setores públicos ainda participam pouco Apesar de existirem hoje no Brasil inúmeras pesquisas em andamento sobre doenças tropicais em laboratórios, institutos e universidades públicas, quando o assunto é a produção de medicamentos para combate a essas doenças, as ações estão muito aquém do necessário. O único laboratório público que trabalha com pesquisa de novos fármacos no Brasil integra o Instituto de Tecnologia em Fármacos (Far-Manguinhos), da Fiocruz. A produção de medicamentos neste laboratório é significativa, tendo proporcionado, apenas em 2004, uma economia de R$ 200 milhões ao Ministério da Saúde que adquiriu fármacos com preço em média 60% mais baixo que o do mercado. Mas, apesar de uma das missões do Far-Manguinhos ser a produção de fármacos para as doenças negligenciadas, a maior parte dos medicamentos produzidos no ano passado foi voltada para combate à hipertensão e diabetes - atendendo à demanda do Programa de Hipertensão e Diabetes do Ministério da Saúde - e medicamentos para o coquetel anti-aids. No que diz respeito a medicamentos para doenças negligenciadas, seguindo a tendência dos grandes laboratórios privados, a produção de novos fármacos é ainda incipiente. " O Far-Manguinhos possui várias linhas de pesquisa voltadas para essas doenças, mas ainda não produziu nenhum fármaco novo que já tenha chegado ao mercado ou às redes de saúde pública. O desenvolvimento tecnológico de um medicamento novo leva em torno de 10 anos. Nossas pesquisas são importantes justamente para que novos fármacos voltados a doenças negligenciadas possam estar disponíveis para a população em um futuro próximo ", explicou André Daher, médico da assessoria de planejamento de gestão tecnológica do Far-Manguinhos. Um dos projetos desenvolvidos pelo Far-Manguinhos em parceria com a DNDi e a empresa Sanofi-Aventis foi concluído em maio deste ano, e proporcionará o lançamento de um novo medicamento para o tratamento da malária. O produto não foi patenteado e poderá ser produzido por qualquer indústria de medicamentos genéricos. Para isso, a DNDi e a Sanofi-Aventis devem promover a transferência de tecnologia para os produtores de genéricos, de modo que o produto esteja disponível aos pacientes já em 2006. Entre as vantagens do novo medicamento estão a facilidade de uso e o baixo custo: 1 dólar por tratamento completo para um adulto. Apesar da importância desse primeiro passo da DNDi, a MSF ressalta que o parasita responsável pela malária se modifica freqüentemente em resposta a novos tratamentos, portanto, é essencial que a P&D de novos produtos seja contínua, dependendo de políticas públicas e comprometimento financeiro por parte dos governos e entidades internacionais para que novas soluções sejam apresentadas periodicamente. Ainda sobre ações voltadas para P&D de fármacos para doenças negligenciadas, algumas estatísticas da Coordenação de Programas de Pesquisa em Saúde do CNPq mostram que os investimentos em farmacologia, química e bioquímica têm crescido nos últimos anos no Brasil. Porém, é difícil saber, dentre os investimentos feitos, qual a quantia destinada especificamente para o desenvolvimento de novos fármacos, assim como, quais novos fármacos teriam relação com as doenças tropicais. No que diz respeito a linhas de financiamento ou incentivos, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou recentemente um programa para financiamento à indústria farmacêutica nacional, o Pró-Farma, que não possui incentivos específicos para produção de fármacos voltados para doenças negligenciadas, o que poderia representar um estímulo para a indústria nacional produzir medicamentos para esse fim. "No entanto, pretendemos a curto prazo criar algumas diferenciações dentro do incentivo à indústria farmacêutica e dentre elas queremos contemplar as doenças negligenciadas", pontuou Pedro Palmeira, gerente de químicos para saúde do BNDES. Segundo documento produzido pelo Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE), a falta de opções terapêuticas ou tratamentos mais adequados para doenças como a do sono, leishmaniose, de Chagas, malária e outras classificadas como doenças negligenciadas, é resultado de falhas do mercado e das políticas públicas. " É preciso buscar estratégias para resolver essa questão, pois apesar do avanço no conhecimento das bases moleculares e celulares das patologias, o desenvolvimento de novas drogas para essas doenças avança a passos lentos ". Para os analistas, gerar novas drogas para doenças negligenciadas não tem como objetivo principal gerar uma nova patente, mas sim assegurar autonomia política para garantir o tratamento de patologias que não despertam os interesses econômicos das grandes corporações farmacêuticas. Para o DNDi, a mudança da situação atual exige dos governos ações que busquem estabelecer tratados globais que obriguem as empresas farmacêuticas a investir parte do seu lucro em pesquisas sobre doenças negligenciadas e que as drogas para tratamento dessas moléstias sejam consideradas bens públicos globais, passíveis de terem sua patente quebrada. Fonte: http://www.comciencia.br/reportagens/2005/06/04_impr.shtml Consultado em 23/02/2007

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